segunda-feira, janeiro 30, 2006

Estação nocturna

Dou por mim a discutir o ser dos outros, as enredadas e nebulosas vias de cada qual ser cristão, coisa secreta e absoluta e exclusivamente singular e íntima. Dou por mim a dialogar sem ser no silêncio com que se escutam os anjos, na diáfana abertura do coração. Dou por mim a executar-me num cristianismo periférico, sociabilizado na contratualidade, mundano.
Dou por mim esquecendo que a renovação de todas as coisas, do primeiro átomo à última alma, é algo de totalmente gratuito - o simples acto de dar, de se dar sem mais, é a espada que fende o mundo ao meio, fazendo brotar o sangue e a vida onde não habitam senão sombras esvaídas e indefinições. Nada é o que parece, e no amor, tudo se torna o que parece. Não é magia, é revelação - tudo está lá, aqui, ali. Somos apenas nós que a maioria das vezes não estamos lá, tantas e tantas vezes não estamos onde estamos, perdidos nos meandros estratégicos do medo e do desejo, cheios de cordas e sirgas puxando-nos aquém e além, confusos e definidos como toda e qualquer história fechada.

Oh Deus, tantas e tantas vezes esquecemos a boa nova, trazemo-la na boca com o coração ávido de vãs guardas e vaidades, defesas do ser encurralado que somos ao não desabrocharmos, bloqueados e perros como borboletas congeladas. Fazemos pois política, gestão de grupos, psicologia - mas nunca amor, nada gratuito, negociantes de Veneza e de todo o mundo, organizadores de horizontes e viagens e acções diversas - presos na estratégia, fechados à providência, sufocados nos dias que passam e mantendo o sorriso iludido de quem é senhor da viagem e de si e da vida.

Mas há sempre um grito ou um rumor para acordar, porque Tu provês tudo, e nenhum irmão descansa até ao fim.

E lembro uma irmã dizendo: Mesmo antes de pecar, já sei que sou perdoada. O problema não é esse. É sim - o que fazer com essa liberdade.

A graça é gratuita, e se não o esqueceres, só poderás dizer que é para todos - sem excepção, sem juízo nem lei, para todos.

A única coisa que conta.

Conhecemos isto na simplicidade do quotidiano afectivo, coisas que pouco no parecer estão de falar, e que devido a tal se calam ou exprimem exagerada e deslocadamente. Quando após uma sacanagem ou desatino a um amigo, amado, familiar, este apaga até ao zero a ferida e o motivo e nos acolhe na lágrima e na alegria - e sabemos de antemão que nos amará e acolherá mesmo que desabemos no crime. Faz isso com que o nosso coração aproveite tal para sacarmos sacanagens e abusos? Ou abre-se ele à vontade de nunca mais magoar ou torturar os olhos que nos acolhem? O amor depositado no coração abre este ao amor, limpa-o, purifica-o de raivas e medos e ansiosas sofreguidões. Só no amor descansamos, todo o resto é tormenta - e todo o coração, sabe disso.

E como é que querem que uma pessoa durma depois de escutar uma coisa destas , depois de escutar o seu ressoar noite dentro no coração e na mente. Bem que podem vir todos os calmantes e anestésicos do mundo, pois mesmo que adormeçamos, ficámos mais que acordados - para a eternidade.

Eram cinco da manhã e acabara de ter ido à Estação Nocturna, acabara de imprimir e ler o texto há sete horas atrás, mas o silêncio do seu ribombante eco continuava a crescer em mim, tinha os olhos como fachos ardentes e olhava para a rua, da varanda onde fumava um cigarro olhava para a rua, como se tivesse acabado de chegar de marte, como se todas as nossas regras e técnicas estivessem absolutamente desadequadas, fumava o cigarro e não pensava em nada, a rezar que nem um maremoto com palavras ininteligíveis, cegos anseios de alegria e destemor, mais vivo que todos os animais do mundo, sereno como a felicidade.

O reino dos céus está entre vós, o reino dos céus está dentro de vós - somos umas bestas. Queremos dar forma ao que é bruta liberdade. Temos medo da boa nova, e amenizamo-la. Voltamos à sociedade e à natureza sem nada nas mãos, com palavras esvaziadas e acobardadas. Mas claro, vamos à missa ao domingo, em família, integrados. Somos todos cidadãos respeitáveis, nenhuns criminosos. Tal como os fariseus. Pensamos ser um equívoco a Sua condenação, e os fariseus pensavam-Na acertada - mas o sentido do juízo é o mesmo: a lei é justa, e é a suprema aferição. Não nos passa pela cabeça que não houve equívoco algum, e que o amor é condenado sob qualquer justiça porque transborda esta e sopra onde quer e para quem quer, à borla para o justo e para o pecador, para quem vai à missa e paga os seus impostos assim como para a rameira que vai à tasca ou o prostituto que se esvazia na viela.

Ecce homo.
Mas porque O esquecemos?

...

Um abraço irmão, Samuel, e mantém essa acha na fogueira. Não tenhamos receio de gaguejar o incompreensível, e de por ele viver.

E que a graça te acompanhe, invada, nos acompanhe, invada, a todos - pecadores.

Amen.



P.S.: E do fundo da água ecoaram rumores .

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Ferida

A melhor definição de pecado que conheço, li-a do Pedro Paixão numa entrevista: Pecado, é distrair-se do fundamental.

E acrescente-se que o estado decaído, é não saber o que é o fundamental - e pensar sabê-lo.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Fado Donald

Ofertado ao sr. prior
Pelo Donald, uma expressão da vida vivida;

E à MC, pelo Vítor, uma incitação à força e à reflexão.




Deus meu. Hoje, levantei-me de manhã zonzo, e com um sabor a metal na boca. Uma pessoa acorda com cada sabor, eu é um diferente cada dia, vá-se ver... Fui até à janela. Do outro lado da rua, carneiros deslizavam parede abaixo dum prédio. Não pareciam mal ou sofridos, não, até pareciam alegres e despreocupados como flores na primavera. Até parecia que cantavam, mas aquilo reunido ao sabor metálico que me palpitava na boca enervou-me, leve e vagarosamente como um gato a espreguiçar-se, mas enervou-me. Já sabia que não ia ser pêra doce a minha lavagem matinal, estava-se mesmo a ver. Nisto, antes sequer de chegar à casa-de-banho, tiniu a campainha da porta, um som forte, repentino e estridente que até me fez saltar, e que embateu na sensação do sabor metálico e dos carneiros e do raio que parta fazendo-me dar três voltas para me acalmar, o que só me enervou ainda mais. Quase que gritei, mas contive tudo, quer-se dizer, era manhã, temos de ter cuidado no modo como começamos o dia, todo o resto do dia é contaminado pelo início.
Respirei fundo, e dirigi-me à porta, os meus passos eram pesados, ouviam-se graves e em bom som mas eu não liguei, estava decidido a começar o dia na boa direcção, virado para o sol, como se costuma dizer, e não eram ninharias que me haviam de desviar. Com uma segunda, profunda e calma respiração, abri a porta, e paf!, vi-os e percebi logo que estava fora do comando de direcção do dia, e então paf!, fechei a porta e encostei-me a ela, por agora nem queria saber, precisava apenas de respirar fundo mais umas milhentas e quantas vezes, mas tinha de ser rápido, muito rápido, já tinha percebido bem a coisa.
O cavaleiro experiente sente o toque de nervos do cavalo antes de este se agitar, e eu estou habituado a cavalgar os dias, percebi logo que o dia estava mais nervoso que um catecúmeno, estão a ver, eu pressinto bem os ritmos, e quanto a mim o dia já ia a galope, e então respirando lá me ergui para espreitar pelo monóculo da porta, e lá estavam eles ali postados, três de fraque ali postados mesmo paf!, mais paf! que flocos de neve numa tarde de verão.
Não havia nada a fazer, eu já sabia, ali estavam os três paf!, assentando-me nos nervos como cacos de vidro, eu já sabia que por mais que fizesse eles iriam entrar e fazer o que tinham a fazer, entrariam pela janela ou pelo buraco da fechadura, ou jorrariam dum jornal que eu lesse ou do forno que eu abrisse ou até da minha própria cabeça à primeira mínima distracção interior. Sentia-os nos meus nervos de tal modo que fugir-lhes seria fugir de mim, o que como se sabe é tarefa para várias vidas - e eu já desbaratara grande parte da minha, não me podia armar em perdulário.
Acelerei os sinos da histeria que tocavam em mim até os esgotar, e volvido à desejada boa disposição inicial, abri a porta com o mais optimista dos sorrisos. E sem mais, entraram os três, se bem que melhor seria dizer que irromperam, que se esparramaram, disseminando-se pela minha sala não apenas como três energúmenos saídos dos interstícios da chatice para vir torcer-nos a espinha dezoito vezes, não, isto era a cavalgadura mais pura no galope mais doente possível, ele era uma tribuna, eles eram uns jurados, eles eram mesas e cadeiras cuja voz se adivinhava de falsete, eles eram jornalistas e advogados e um juíz num cadeirão, mais cinzento que o fuzilamento duma criança de dois anos, enfim, estávamos entre íntimos, não era preciso definir muito a coisa, meia dúzia de larachas serviram para definir o cenário. Ainda eu não estava em mim da transformação da minha sala, operada por aquela magia doentia, que um daqueles malmequeres apodrecidos parece dirigir-se a mim com a sua voz de pastel de nata de ante-ontem:
- Chamamos a testemunha 5 B, e olhava para mim fixamente, claro, eu percebera de imediato, quem raio haveria de ser a testemunha 5 B senão o vosso excelente servidor?... Quanto a mim não eram precisas explicações, só tinha pena de nem sequer ter tomado o pequeno-almoço, era a única coisa que me estava a fazer falta. Enchi o peito de ar para ganhar coragem e alguma dignidade, e avancei para o que me pareceu ser o banco das testemunhas, enfim, mais parecia um bidé, mas pela posição, mesmo à frente ao lado do juíz, bem, vocês conhecem os filmes, só podia ser ali. Mas não é que ao terceiro ou quarto passo que eu dou, catrapum!, abate-se a escuridão, não, não estou a falar de poesia, nenhum mistério nem indicação do invisível, não, bruto escuro, físico, pesado, catrapum! e fica-se sem ver nada, dois olhos que luzem imbecis e inúteis como sinais de trânsito para vacas cegas. Como é costume, um momento de silêncio veio atrás da repentina escuridão, acontece o mesmo no final das cantigas, uma sensação de suspensão, quase agradável. Mas eu não era pato para me iludir, já batera uns quantos dias. Sabia perfeitamente que era apenas para cair com mais violência depois desse floreado momento de silêncio. Cair eu ou algo em mim com a fúria do bruto escuro repentino. Eu conhecia as rimas, não precisei de ir à escola, cá as tenho no coração.
E não foi preciso esperar muito, corpos começaram a embater em mim, vagarosos, nada violentos, poder-se-ia dizer que quase acariciavam, e o silêncio mantinha-se como o mais eminente dos perigos, e eu tentando-me atento em completa cegueira, tentando retorquir-lhes com movimentos semelhantes, enfim, harmonizar-me com o momento afim de ele não trinir estridentemente contra o meu duvidoso bem-estar, procurando uma rima que anulasse a que latejava de encontro àquele silêncio escuro, mas era em vão que o fazia e eu sabia-o, os sons de embate começaram a romper o silêncio na medida da crescente violência dos choques e o sufoco cercava-me cada vez mais patente e evidente e gritei Ei! Eu sou a testemunha 5 B! como se isso fosse importante mas aquilo queria lá saber, e felizmente que os dentes irromperam no meu bico e desatei a morder e a bater com todas as partes do meu corpo, e atirava-me e debatia-me e empurrava e aquilo aumentava cada vez mais violento, e Sou a testemunha 5 B! afogava-se-me na garganta arfante e na inutilidade. Se aquilo continuasse muito mais tempo matar-me-ia, senti-o em todo o eriçar das minhas penas, eu que já morri várias vezes e por isso sei que é sempre desagradável e que se tem sempre medo, e foi então que irrompeu a luz ou a minha pupila se tornou uma cratera anulando a escuridão pois os via, porcos, patos, cães, gatos, ratos, vacas, touros e sei lá mais o quê babando-se e rosnando e tocando-me com as patas, com as cabeças, com os cotovelos, pernas, peito, costas, bocas, olhos, tocando-me no corpo todo com o corpo todo e é como se o por fora fosse o por dentro, como se metessem as mãos na minha alma e a revolvessem e a consciência às voltas e reviravoltas numa tontura toda de vidro e explosão e já não há nada de nada de nada excepto uma angústia aguda e sufocante num aperto sem fim e o pensamento todo é apenas um grito e disposição para fazer tudo mas mesmo seja o que fôr para calar esse grito de vidro e angústia, por favor, por favor, por favor, e então ouço Está quase, a testemunha ideal, é só apertar mais um pouco o garrote e nada separará a acção dele da nossa vontade, e percebo e grito Já está! Já está! A relação síncrone e perfeita como um paixão submissora! As mentes siamesas obrigadas no mútuo ódio à concordância absoluta! Já está! Já está! Já está! E catrum!, caio como uma pedra num poço e os sapos olhando, catrum! no bidé das testemunhas, estatelado e estafado murmuro: Sou a testemunha 5 B...
- Sim, diz o juíz, já está em condições. Quando quiser...
Apreciei a liberdade para me recompôr, parecia-me que o pior já tinha passado, a minha respiração foi voltando ao normal assim como o parco prazer de estar vivo e principiei a testemunhar:
- A nossa sociedade está desenvolvida a tal ponto que a solidez das infra-estruturas permite desorganizá-la em diversos pontos sem que nenhum abalo se note no todo. Quando se torna evidente a desorganização, já é tarde demais: o mal já está tão disseminado que só nos resta cair, como todos os impérios da História. É o que se chama queda cega. A atenção exigida...
- Protesto!, interrompeu-me o advogado de defesa, A testemunha está-se a definir a si-própria e nada está a dizer do sucedido.
- Protesto aceite, disse o juíz, e volvendo-se para mim: Faça favor de cumprir a sua função.
- Sim, senhor, disse eu ajeitando-me na cadeira. Tive a impressão que talvez o pior não tivesse passado mas logo afastei essa nauseabunda ideia e continuei com toda a confiança que consegui: - As sociedades definem-se pelo modo de eliminar cidadãos extraviados. As piores sociedades, isto é, as que menos defendem os indivíduos que as constituem, são as que atingiram um tal grau de civilização que não precisam de matar para eliminar. A capacidade de...
- Protesto!, novamente o advogado de defesa, A testemunha está a definir o lugar onde se encontra e nada está a dizer do sucedido. E o juíz esticou o pescoço, devia estar mesmo furioso porque o esticou três ou quatro metros e os seus olhos ficaram a meio centímetro dos meus e grandes, enormes, tão grandes quanto pequeno eu fiquei, minúsculo, tão pequeno quanto tenebrosa foi a sua voz, tão tenebrosa quanto um furioso oceano: - Não me diga que ainda não está em condições de testemunhar?!... Estou, estou, respondi com a voz tão fina como um fio de água e tentando-se o mais submissa possível, como a duma testemunha ideal. A sua cabeça voltou para perto dos ombros com um flop! e em suores frios tentei satisfazê-los:
- Foi um estranho espectáculo. As praças iluminadas por dentro, cheias de estranhas respostas. Como bolos bem quentinhos. Bolos-reis-para-enjoar. Ele nunca lhes apanhou o jeito.
- De qualquer modo, verdade fixa é que não, disse o advogado de acusação, está-se aqui com mais gente. E é a dividir por todos.
- Não é assim, repliquei, eu acho que ele estava lá, sentado com mais gente. O desembocar de um tempo de paz é um tempo de agonia. Não há guerra mas às danças faltam centenas de anos e milhares de meias-noites, sabedoria. O que nos vale é que a memória é louca, ataca qualquer um.
- Iiiiiiiiiih, vocês viram!?, gritou o acusado, As abóboras! Aquelas! Ali! As abóboras!... Hei-de comê-las! Hei-de comê-las! Talvez este domingo...
- É a merda, é o que é, a merda, e chega-nos sempre aos joelhos, disse o juíz, aquilo estava mesmo a correr bem, eu apanhara-lhe mesmo o jeito, e continuei É o que nós sabemos todos: o gelo causa despistes. Choques em cadeia. Um T.I.R., faltam-lhe os travões, vai por ali abaixo... Estão a ver, às vezes nem é preciso gelo... De qualquer modo, aqui, apenas uma lágrima pode provocar avalanches. Tudo o que vivemos já foi vivido. Não há maior cumplicidade que a inimizade... - E estaquei, biquiaberto, raios, aquilo era o cúmulo do engano, apercebi-me que não estava num tribunal, mas onde tinha eu a cabeça, as batas brancas, os sorrisos acolhedores, o odor a amoníaco, porra, aquilo era um hospital, onde raio tinha eu a cabeça?...
- Então, conte-me coisas, disse o juíz que afinal era médico.
- É a unha, disse eu, está encravada, e suspirei de alívio e satisfação, era tão bom estar num sítio com pessoas em que se podia confiar, em quem se podia depositar problemas com a certeza de que o iram resolver, A unha encravada, repeti, e recostei-me fechando os olhos e entregando-me nas suas mãos, os dentes tinham desaparecido do meu bico.
Quando abri os olhos o terrível voltou a abater-se sobre mim, a brancura e a ternura tinham desaparecido e no seu lugar estava uma ferida enorme e carcomida, um hiato de carne e sangue e pûs, uma pasta de odor acre que me invadiu o cérebro cortando-me a respiração como um vómito mortal e que me sugou como um animal voraz e feroz, merda, aquilo era uma repetição da preparação para testemunhar, o mesmo sob outra forma, merda, e voltei a debater-me e urrei e lutei por entre pústulas negras e borbotos purulentos e jorros de sangue, aquilo já não era galope, era algo de mais, nem sei como é que o dia ainda não se desintegrara, antes o tribunal que o hospital, pensava enquanto me debatia mais e mais sem respirar e com um nojo de preencher mil pesadelos, antes o tribunal que o hospital, e quanto mais me debatia mais me afundava e sufocava, até que algo me empurrou, sim, um forte empurrão que me fez atravessar aquela pasta toda e encontrar-me no ar com um flop!, olhei para baixo e reparei que tinha sido cuspido por uma baleia, Eh, Moby Dick, gritei-lhe eu, Estás toda podre por dentro!, e comecei a cair, a cair, a cair... Felizmente, era a minha casa que eu via lá em baixo. Talvez o dia estivesse acabar.
Catrapum! Furei o telhado e caí na minha cama. De imediato me levantei e corri até à janela. Nem queiram saber o alívio que senti quando vi que já era noite. Sim, o dia acabara. Pensei em esquilos pedalando em rosas, em frascos enamorados de cafeteiras, loucamente apaixonados, e sorri. Mais um dia que acabara. Mais um dia neste mundo de canículas e mandíbulas. Pouco se fez, como sempre. Deviam longa-metrar os dias, que eles como estão não dão para nada: tem que se recomeçar quase tudo do início no dia seguinte. Voltei para a cama e olhei para cima: o telhado recompusera-se. Decididamente, podia ficar descansado: o dia acabara mesmo. Outro dia, hei-de ser a revolução, pensei antes de adormecer. E os dias nunca mais serão assim, incompletos, injustificados, ao deus-não-dará. Mas por ora, a única coisa que desejo, é não sonhar.

terça-feira, janeiro 17, 2006

HP

Diz o professor hebreu: se rezares correctamente, saberás imediatamente reconhecer a sua invasão em ti, e que te arrebata. O espírito abre-te às suas possibilidades.

Antes de todos os tempos Eu te amei, e amei toda a criação, olhei para ela e vi que era bela.

O mundo não é amado porque tenha sentido, mas ganha sentido ao ser amado. Sendo o significado o do amor, e não do mundo, trata-se duma dinâmica de transformação. O mundo sem sentido em que paira um significado, como que tende a dar expressão a esse significado que ele, mundo, não é. O sentido é dado, digamos assim, no olhar.
Não se trata aqui da encarnação humana do verbo de Deus, mas da sua presença executante, muito antes sequer do avô hebreu que professa, e de todas as índias e gálias e américas, desde fora do primeiro átomo da criação ao sentido da inteira história desta. O significado do mundo está dado desde sempre, e para sempre, fora portanto da temporalidade própria do seu acontecer, do mundo, e assim o move.

O acto de criação é uma dinâmica do amor divino, que transposto para a acção humana corresponde ao famigerado Amar é querer que o outro seja. Não que eu seja através dele, mas que sem apropriação despersonalizante e enclausurante, eu seja o que sou, e com-sejamos numa unidade que não anula a inteireza de cada um de nós, e que produz uma terceira inteireza que se constitui na própria união. É um analógico do famoso três em um que tanto abespinha alguns

Olhar o outro no significado da sua criação, do outro, do que mais fundo o sustém e lhe dá sentido – isso, não o podemos. Podemos no entanto não ser obstáculo a esse olhar, não determos o outro na opacidade que reside na impossibilidade de o vermos verdadeiramente. Porque tudo o que vemos e vivemos, tudo aquilo que verdadeiramente nos toca e contactamos – somos nós próprios. As características que nos atraem, as afecções que nos movem, das actividades que nos agarram às pessoas que nos apaixonam – não passam de remissões para o que nos caracteriza, a nós, o teu cabelo a esvoaçar ao vento mostra tão só o meu anseio de liberdade, mas não o teu revelado rosto.

Enquanto eu estiver a ver, vejo-me a mim-próprio. Aqui se vê o sentido do também famigerado O Amor é cego – atira-se para fora de si, e avança.

Isto não significa que as afecções, os sentimentos, os pensamentos, o que é próprio e acontece – sejam anulados ou desvalorizados. Pelo contrário, são até valorizados, ganhando sentido e constituindo-se doação total, sem freios nem retenções. E sim que apontem para algo – o outro, absolutamente.

E não significa que as afinidades electivas, os companheirismos e as amizades e os amores, sejam superados. Mas que se intensificam na vontade que o outro se seja – a si, cada vez mais, revelado e renovado, revelando-nos e renovando-nos.

Até ao inimigo, como se sabe – o que também não anula a inimizade. Também esta é reveladora.

Neste mundo e na razão, duas plenitudes impedem-se uma à outra. Mas o cristianismo pretende dissolver sem mais, ferozmente, a impossibilidade – é esse o sentido do Serão a mesma carne, analogia da unidade trinitária, divino soco na mesa da realidade. O amor esponsal é uma das imagens vivas mais intensas da unidade amorosa. A mesma carne, a mesma substância, o mesmo ser – é de loucos.

O amor é algo de absolutamente incompreensível, e curiosa e simultaneamente, absolutamente reconhecível – tal como a vida, a que preside.

É o rosto do outro visto e vivido na pausa de nós-próprios, paradoxalmente retribuído, o que faz com que cada um é pelo amor do outro, e por este se move e vive e é – e assim nenhum se anula.

Há uma esponsalidade desmedida no cristianismo. A Trindade é evidentemente fecunda – é precisamente essa a ideia de Criação. A vida. Não necessária, mas querida e desejada na fecundidade transbordante.

O cristianismo pretende que se execute a imagem da Trindade com todo e qualquer um, com o primeiro e com o último e todos os restantes. É aliás o seu único mandamento. E raios não me venham dizer que é razoável – o que por outro lado não configura nenhuma anti-racionalidade.

Deveríamos mesmo ser capazes de amar uma pedra – como diz o irmão António, que se assusta se tudo arde.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

A brasa e a sardinha

Para o Goldmundo , sim , e para a Aquilária .


Eis a libação, no silêncio da ribeira negra, pela luz ardida, na convulsão de tudo o que é vivo, visível e invisível, e estremece de beleza e susto.

Porque até Ele, quis estremecer.


Nota aos leitores: aqui no burgo, a malta não sabe pôr links sob as palavras dos posts. Mas é só seguirem o rumorejar.

Nota2 aos leitores: a insular Aquilária (obrigado!) tentou ensinar a este netroglodita a tarefa acima descrita. Após algumas tentativas e desastres, ficou tal qual está. Tentar-se-á porventura novamente, embora nada se tenha contra rumorejares e derivas.

Nota 3 aos leitores: E pronto.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Recordação 2

Depois lembro-me, bem antes da primeira reza, devia ter cinco ou seis anos (tendo mudado de país aos seis, é-me fácil situar as memórias dum e de outro tempo e lugar, o que não significa evidentemente que correspondam ao real passado mas à sua arrumação na narrativa caótica da memória e da imaginação - em rigor, talvez nem signifique que tenham ocorrido). Lembro-me de estar frente à televisão a ver um filme, a televisão a preto e branco e a casa vazia, quero dizer, apenas eu e a televisão estamos nas imagens da memória, assim uma atmosfera de tarde outonal ou talvez invernosa e eu ali sentado num sofá individual, frente à televisão a preto e branco com um leite com chocolate quente a fumegar nas mãos, ali comigo próprio sem mais ninguém aparentemente. (Curiosa e subitamente aqui hesito, e aparece-me incerta como uma intermitência a minha avó paterna. É engraçado isto da memória. Portanto é à escolha: talvez a minha avó sentada silenciosa noutro sofá talvez tricotando ou passando pelas brasas e distraída ou entediada ou melancolicamente olhando de vez em quando para o televisor). Certo aqui e na memória é que o filme se passava no séc. XVII ou XVIII, as roupas e modos antigos e o desbravar dos bravos brancos nas culturas e terras africanas, americanas e asiáticas, desbravando como se sabe na destruição e apropriação física e cultural, mas nada disso me era presente ou consciente naquele momento com o leite com chocolate fumegando e a minha avó ou não, quero dizer, nada disso importa para o sentido da presente recordação. O que releva significado é estar no ecrã um garboso moço moreno e com um delicado bigode (seria o Errol Flynn?), acompanhado por um qualquer Sancho Pança de cuja figura não me recordo, numa situação de refrega de espada e murro e morte. Estão numa floresta ou selva, e conseguiram fugir dum perigo de morte qualquer, um combate ou um aprisionamento, não faço a mínima memória, mas qualquer coisa de mortal. E alguém ficou para trás. O garboso moço (no qual projectei uma identificação prevista e organizada por quem fez o filme, e que fez dele o garboso herói) diz ao secundário e descartável e esquecível acompanhante (não herói, evidentemente): Vou voltar para trás. E o outro, com todo o bom senso e razoabilidade dos não heróis, replica que não, que é completamente irracional, que é dar a morte a todos porque não há hipótese nenhuma de salvamento (os inimigos mortais são um grande exército ou guardam uma inexpugnável prisão), e por aí fora, e responde o garboso herói com um sorriso alegre e confiante: Eu sou um cristão, não penso nem ajo assim.
E não me lembro de mais nada do filme, o que mostra, para além da distância temporal, o relevo com que esta particular cena em mim se imprimiu (e já agora, se algum ou alguma detective cinéfilo ou cinéfila, com tão pouca informação conseguir identificar o filme e mo dizer... ) A verdade é que me marcou de tal modo que ainda hoje conservo a imagem desta precisa e preciosa cena, deste instante em que ele profere esta frase sorrindo no meio de árvores e abrindo os braços em evidente confiança de si, acho que até devo ter deixado o resto do leite arrefecer ou nem sequer o acabei. (Neste momento de recordação, a minha avó nem vê-la, como é de significado, e nem o outono ou inverno ou a sala, nem tão pouco a televisão; neste momento, estou realmente eu e o garboso herói à minha frente abrindo-me o início dum horizonte de sentido.)
O que me parece importante, para além do significado vivido impossível de transcrever em palavras, são as determinações cristãs que esta cena apresenta: a alegria confiante de quem se move por amor sem atender aos resultados.

E toda a ética que não se funda nisto, não passa, na melhor das hipóteses, dum colete de forças contratualistas.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Tratado acerca da fé, do senhor Zé Beirão, elaborado em comentários do post anterior, e com pequeno final por instado no seu próprio blogue

“Mas o que me tem marcado mais na vida são as coisas simples que ela tem. Assim são "as pessoas da minha vida", assim são os acontecimentos. E tem sido nessas coisas e nesses acontecimentos que tenho visto a presença de Deus (através daqueles e daquelas que Ele tem posto no meu caminho). Para mim, também isso é Fé. Ou melhor, para mim a Fé é isso. Mas haverá outra maneira de eu sentir o Amor de Deus?

Se ser realista e reconhecer-se aquilo que se é, é ser choramingas e queixinhas, então eu sou-o ao máximo! Não me hei-de queixar de mim mesmo? De Deus não me posso queixar; dos outros também não vale a pena. Não posso mudar Deus e também não posso mudar os outros. Hipoteticamente, só a mim é que posso mudar. Por isso me queixo.

(…) eu procuro viver a fé na simplicidade do dia a dia. Sou muito terra a terra. É verdade que a dádiva de três pares de meias me faz progredir na fé. É verdade que o lume aceso me faz também "aquecer" a fé. É verdade que eu me maravilho num simples "obrigado", num sorriso, num olhar cheio de doçura, num "bom dia" dado com optimismo, num afecto que aparece quando alguém necessita (às vezes também num ralhete)...Não consigo entender grandes tratados de teologia, apertados códigos canónicos, encíclicas e documentos papais cheios de citações, discursos de catequese muito nas nuvens, mentideros da diplomacia vaticana, grandes contas bancárias do IOR, homilias cheias de sabedoria sobre assuntos que ninguém domina...Fico-me mais pelo básico (…), pelo terra a terra.Há dias escrevia um amigo meu: "Muda um gesto, mudará tudo o resto". Creio que a acção de Jesus Cristo foi isto. Também deve ser esta a nossa prática de fé.

(…) não me importava nada de acrescentar alguma coisa sobre a oração. Mas... porque não ficar para outra vez? Pode ser?”

Zé Beirão

terça-feira, janeiro 03, 2006

Credo

Não somos nós que somos Deus, nem sequer parcelas ou faíscas. Nada fora de Deus é Deus, não há nada de outrém em Deus: a Sua indivisibilidade é total. Mas tudo é em Deus, e nós também.

Ele tocava-nos, na impossibilidade de o tocarmos nós a Ele. Até ao dia em que a sua palavra se concentrou num rosto e presença humana, e nos tocou a partir de nós próprios e por dentro.

Deus é anterior a tudo o que seja. Puro princípio e simultaneamente pleno, nada decorre necessariamente Dele - nem o mundo, nem o ser, nem nós. É absolutamente indeduzível. Pode-se dizer que algo deve presidir ao puro e bruto facto de haver coisas, aqui, nós e a janela e a noite lá fora e o cinzeiro e a caneta e o outro a respirar ao nosso lado e por aí fora no tempo e no espaço e no além possivelmente. Mas determinar na inteligibilidade de conteúdos isso que se pressente no cerne da vida a partir dela própria - não o podemos.

Se está à mão, não é Deus; se não está à mão, não me é nada.

Deus é mediador de si próprio em Cristo. É aí o seu acesso. A ininteligível Trindade, e a afirmação incompreensível da consubstancialidade, são o garante do acesso. O cristianismo é um excesso total perante a existência, que pretende desbloquear esta das suas aporias. Deus aqui não é uma conclusão mas um ponto de partida; mais do que tentar entender a Trindade e a Revelação, trata-se de nos tentarmos entender e viver a nós próprios a partir delas. E a conclusão, por ora e como se diz - só a Deus pertence.