segunda-feira, junho 30, 2008

No hotel

em memória de Albert Cossery


Maldita terra, eram quatro da tarde e fazia noite e chuva e vento como o raio. Matei a barata que se contorcia na vidraça e virei-me para dentro. O Homem-Rio fitava-me silencioso. Eu acabara de despertar, já não me parecia ver luz há séculos. A minha espera acoplava-se à dele em direcções opostas.

Feridas, brechas purulentas babando-se para o lençol. A sua voz era um fino murmúrio, mas não parava de falar, como se quisesse marcar a ouro a sua presença no ar.

- Medo?...

- Não... Talvez... Personificado, sabes... Talvez medo, sim... O mesmo antigo medo... Como eu envelhecido... Enfraquecido... É com um sorriso de simpatia que o acolho.

Fui fechar a janela. A rua estava deserta, silenciosa e cinzenta, estreita.

- No estado em que ainda se acredita no próprio desespero. Pensas enfrentar a morte e é a vida que te desafia.

- A mim dá-me a sensação que também...

O seu queixo movia-se num movimento circular, lentas as palavras no seu afundar. Apetecia-me um chá, agora que acordara, um chá vinha mesmo a calhar, Nasir entrou, emagrecera como o raio, os olhos enfiados em densos fachos de escuridão, os trementes ossos da mão... Vesti-me de branco, disse Nasir, e sua voz arrastava-se feita magnética, merda, devíamos estar todos a morrer naquele hotel, vivendo...

- O chá podia vir.

- Já está feito.

Devia mesmo ser o fim, Zaira tinha desaparecido, é sempre o fim quando uma mulher desaparece. Pus um disco a tocar enquanto Nasir ia à cozinha buscar o chá. A voz de Safy Boutella elevou-se no ar. Era um disco de que todos gostávamos, eu sabia, a travessia.

- Tentei viver, como todos.

- Sim, todos vivemos.

Nasir entrou fechando a porta. Arrastou a mesa e sentou-se junto à cama poisando o tabuleiro. O chá fumegava escorrendo para as chávenas, o Homem-Rio sorria, devia ser um dos poucos prazeres humanos que usufruía, o chá, para além das conversas. Um afegão dissera-me que o chá no Paraíso era suave e acre como as flores das mulheres.

- Ei, Nasir, há cigarros no Paraíso? perguntei metendo um à boca.

- Não, Tonahin, nem chá, e devia ser verdade pois o afegão morrera poucas semanas depois num acidente de viação, espetara-se contra uma árvore e esmagara-se em merda entre chapas, vidros e parafusos numa ilusão de sangue. Era um estranho paralelo de situação.

Estávamos ali os três, girando as colheres nas chávenas, um sorrindo e os outros não, a música cantando agradáveis disparates num rio absurdo. Como se tudo tivesse afundado à nossa volta sorvíamos o chá e persistia em nós um silêncio a que nenhum som vivo se consegue sobrepor, interna suspensão de imensidão exterior.

Alguém haveria de pintar as paredes de roxo ou encostar-se a elas como se fosse inscrever a última palavra, nem chá, Tonahin, nem chá... A manhã chegava cinzenta de chuva, o chá esfriara e Nasir adormecera deitado no chão.

- Sabes, com a idade até os demónios se tornam amigos... Velhos amigos... E sentam-se com os anjos à mesa conversando amigavelmente... Esperamos juntos o desfecho final, é agradável.

Abri os cortinados e a luz embotou-se na janela húmida e frágil. O vento amainara e grossos pingos de chuva embatiam na janela, lentos e persistentes. Há três dias que chovia, o céu carregara-se e o deserto calara-se como gestos tragados em bloqueio.

- Vivi alguns momentos, sim, tenho a certeza. Não saberia dizer quais mas vivi-os...

O disco ainda estava no prato, era só virá-lo e ouvir a mesma coisa, sempre a mesma coisa.

- Vou buscar chá e qualquer coisa para trincar, disse eu, e o Homem-Rio ergueu a mão estendendo os dedos como um rei consentindo algo, já não era tempo de continuarmos o filme, peguei no tabuleiro e saí do quarto, Vaidade! É tudo vaidade! disse Nahabi gritando pelas escadas abaixo, Vaidade e medo da morte! Mandei-o à merda e ele entrou no quarto da miúda, tínhamos todos esparvoado completamente. Na cozinha, o Mácula ria sózinho, avermelhando-se frente a um copo de leite. Tinha encalhado ali há uns dias, ninguém sabia donde vinha, mas gostávamos dele, do modo como soltava frases nas conversas, aparentemente díspares, como se mantivesse sempre uma conversa interior paralela, Descontrai, disse ele, age como se pertencesses aqui. Vou tentar, respondi, vou tentar, mas não é fácil, e ele soltava gargalhadas, Nada fácil, Vítor, lá nem sequer há chá, percebes, nem sequer chá... Pus a água a ferver, o vento e a chuva entravam pela janela aberta. Andas a rezar demais, Vítor, disse eu, e despejei o chá para a cafeteira. Uns esvaem-se, outros constroem-se. Desliguei o lume e sentei-me acendendo um cigarro à espera que o chá assentasse.
Like a clown, or an acrobat
Life, is made of light


O Homem-Rio virou a cabeça lentamente e sorriu. Poisei o tabuleiro na cama, as palavras ao lado destacando-se brancas no violeta do cobertor.

- Totalmente outra coisa.

- Sim, deve ser, para provocar este espanto na intuição.

O Homem-Rio fechou os olhos como se adormecesse.

segunda-feira, junho 23, 2008

Sequela

em memória de Martinho Lutero


É a minha cruz, tão inúmeras vezes ouvimos dizer em relação com um desastre da vida, a loucura ou o desespero nossos ou de outros, um cancro no esófago e o cabelo a cair juntamente com a vitalidade e o corpo falhando gradualmente, fenecendo, ou um filho que se suicidou, alguém que enche as veias de merda, a criança a rebentar de leucemia, a guerra e a morte que os nossos actos produzem e exaltam e mantêm, o acidente que matou todos os que iam no carro, toda a nossa tenebrosa maldade a ribombar por dentro e por fora até ao longínquo horizonte que nos estilhaça – e assim é, deveras assim é.

Mas dentro desta feroz consciência jaz a possibilidade do mais discordante equívoco - o de dissolver o cristianismo num estrito diagnóstico da existência e da natureza. Que com estas esteja conforme, é um garante da sua veracidade; que se reduza a essa lucidez, sem transfiguração disso tudo de que se toma terrífica consciência – é o perigo subtil da colisão da lucidez com a revelação do crucificado.

Todas as nossas células e respirações tendem com todas as suas forças a renegar o sol negro do gólgota, esse abismo em que deus grita o seu próprio abandono, em que o silêncio maior que todas as noites e fracturas mortais – nos é mostrado em toda a sua brutalidade. Lemá sabachtáni, é o segredo da cruz de cristo, o deus que se abandona a si próprio, e que nesse abandono reactualiza a impossível aliança entre a divindade e tudo o resto que em sua própria medida – nega deus a partir do seu próprio ser criado.

A cruz de cristo, que arrebata todas as cruzes temporais e confusas, crava e justifica estas na tensão da deserção divina e humana, no aniquilamento, e que corresponde ao sofrimento máximo de ansear em última necessidade pelo deus e este ter de todo em todo – abandonado o lugar.

O cristão é um sem-deus que o sabe, e nessa luz negra, nesse abismo de injustificação – abraça todas as cruzes e alegrias da vida com a mesma tensão, o mesmo desespero de ausência, a mesma alegria de clamor pelo deus oculto no seu próprio desaparecimento.

Todas as sortes e todos os azares, todas as dores e prazeres, todas as desgraças, as felicidades, toda a lepra e toda a numerosa geração e exaltação – são dadas a trouxe-mouxe na mais profunda e intensa e gritante ausência de sentido, esse rasto de abandono do deus, esse indício feroz e fugidio que fulgura no vazio.

O cristão é aquele que sabe que a deus ninguém o viu; aquele que sabe ser chamado a vê-lo no jardineiro que cuida da espera e da procura, no forasteiro que rompe o pão à nossa mesa, que nos mostra as feridas do seu corpo junto às nossas; e de sobremaneira, vê-lo na ascensão, e nesse desaparecimento maior proclamar a sua presença com línguas de fogo até ao século dos séculos, até ao fim do mundo. É isto aliás, que nos sinaliza a realidade do deus na eucaristia, e no beijo da impossível paz.

Amar em contrário das aparências e das próprias inclinações e desejos, essa a pequena violência, que pode muito bem – e tantas e tantas vezes o será, quem sabe se sempre – anular-se mantendo-nos imóveis na espontaneidade de amarmos o e quem naturalmente amamos, de sofrermos as inevitáveis dores da nossa própria vida e morte e dos nossos; mas para tais cruzes sabermos, não é preciso deus nenhum.

A cruz de cristo mostra o amor do deus, o ilimitado amor criador que sustém todos os átomos e almas da história inteira de tudo, e isso és chamado a habitar e seres habitado por, nisso és chamado a viver e a morrer com, o grito do deus deflagrando em todos os teus nervos e momentos, aí mesmo agora e sempre, na alegria e na angústia e na hora da morte sempre.

Ide pelo mundo e tranfigurai todas as boas e más novas, ide pelo mundo e fulgurai tudo com o fogo da cruz, ide pelo mundo e baptizai; pela minha presença oculta no vosso ser e nos vossos actos eles verão, talvez não acreditando mas verão – que a carne ao ser beijada floresce para a eternidade.

Que a paz esteja convosco, repeti e anunciai-o, com a inocência e a astúcia anunciai, baptizai e incendiai. A inocência manter-vos-á no invisível deus e no seu único e amoroso acto; e a astúcia proteger-vos-á do subtil engano do mundo, essa voz demoníaca que em toda a carne sussurra.

Pois tal como o deus é único, também único é o perigo mortal de o negar, único o pecado, e só o imperdoável é propriamente pecado, ou melhor dito – sua fonte e origem.

Sempre que não violentardes a vossa natureza renovando-a no sangue do deus, no abismo da sua ausência e clamor, estais cuspindo no nome do deus; sempre que não renegardes as vossas inclinações e não amardes o vosso inimigo e abraçardes a maior estranheza, estais apagando o fogo do vosso baptismo; sempre que julgardes a alma prostituída ou o corpo corroído pela lepra, estais amaldiçoando o vosso próprio coração.

O meu jugo é suave mas terrível é a minha dor, não atenuai a minha loucura confundindo o meu amor com os desejos do mundo, da carne e da mente, mas deflagrai o meu amor nestes e salvai-os, deflagrai violentamente. Só a tempestade acalma a própria tempestade. Esta é a minha paz, a espada que nenhuma guerra humana fundirá e que eu vos entrego até ao fim dos tempos, este fogo que desce dos céus e tudo cinde e cinge, tudo divide e transforma.

Sabei que a minha cruz é amor e nada mais, e que abomino todos os vossos ídolos de poder e manipulações mútuas, todas as vossas potestades vazias com que pretendem preencher a vida com o vosso eu, todas as vossas vãs palavras e orgulhosos actos eu abomino; sabei que eu sou o vosso deus, o único deus, e que me manifesto lavando-vos os pés e morrendo por vós e nada mais, assim fazei sempre e também e comigo estareis até ao fim dos tempos e a inteira eternidade será celebrada em toda a terra e nos céus e nada mais.

(O ideal concreto – seria ser de cristo; no silêncio maior sê-lo e nada mais.)

segunda-feira, junho 16, 2008

Jaafar

Chega-se ao átrio da cabeça de carneiro, comprimidos enchendo frascos, anemias. Um rapaz louro e sorridente acaricia-nos. É translúcido, através dele vemos dezenas de braços que se entrecruzam acenando adeuses de partida ou chegada. O rapaz é magro e os seus gestos são lentos, deslizam sem contenção, contrastando com o odor brutal do éter e a luz martelante que irrompe das janelas. Pedimos água, uma almofada para apoiar a cabeça e tentar estar vivo. Preciso de alguém que mantenha o animal a dormir, dizemos ao rapaz, alguém que traga o algodão quando a manhã estilhaçar.

segunda-feira, junho 09, 2008

Quase

- Se brincas com brinquedos não brincas verdadeiramente, disse ela e o barco sem singrar, os pinguins mortos, uma mão agarrava um coração, chovia porém.

segunda-feira, junho 02, 2008

Ferida 3

para a Hellena Corvo ,
um pedaço de cristianismo



Rasgada a carne desde o início, cheia de fendas e abismo, é muito simples – desde o início que uma fome sem fundo te atravessa, e projecta-la, claro, configurando fantasmas que ta possam acalmar, ilusões que se desfazem em raiva e desamparo ao segundo ou terceiro passo do caminho, romeus e julietas, impérios de justiça e esplendor, felicidades de sabedoria e concórdia, tudo isso que soçobra no sopro do tempo, desde o início o sabes e no mais fundo e secreto desespero: ou essa impossibilidade de seres e a vida ser o que anseias e não sabes; ou o preenchimento ilusório dessa fome infinda em que nasceste, com pequenas e maiores ou menores fixações nos rostos que escorrem e se esfumam, desaparecendo nas recordações e no esquecimento, e deixando a fome aberta à sua dor cada vez mais reforçada.

É o deus que te falta, silêncio, não digas mais nada. Qualquer palavra e voltas à fixação ilusória, abre o teu coração à ferida que te habita e és, escuta o rumor do abismo que te rasga no silêncio maior, nisso tudo que não és e anseias, nisso tudo que não sabes e te é anterior, antes dos tempos e do escoamento, antes das feridas; foi com a dor que tudo foi feito, com a separação mais profunda entre o eterno e o escoamento, é na dor que a vida nasce e floresce e frutifica, atenta, caluda, morre.

(Não deixes a mínima bazófia entrar, qualquer contentamento afasta a oração, torna-a rejeição do deus, afirmação primária de ti, caluda, ainda não disseste uma palavra e já falaste demais.)

Só o amor é na noite mais funda.

(O que foi será, tenta não pensar em mais nada, sofre.)

Ó deus do céu e da terra, que sejas carne para te tocarmos e por ti sermos tocados, faz-me reter o terror de não te ter com o terror de te ver, abandona-me ó meu deus, que assim seja.