segunda-feira, abril 26, 2010

Dizia eu que o macaco apareceu. Numa mão trazia um rolo de arame farpado e noutra uma lista telefónica. Mas tinha as mãos fechadas. Era preciso adivinhar.

segunda-feira, abril 19, 2010

Ante-cristo

Meus olhos abriam-se como bocas sedentas de tudo devorar e continuava a caminhar, agora na solidão e extensa morte dos outros, o vazio. O oceano arfava como se me quisesse engolir, imenso e assustador, a palavra.

Apenas o odor violento do meu corpo apodrecido me situava no espaço e no tempo, aqui nesta vida, uma circunstância.

E caminhava, nu e esperançoso, imóvel, o corpo aclarando-se por dentro como se uma luz crescesse no centro do meu ser. Rejuvenescia sem dor, e sem esquecimento. As feridas na memória são prazer de crescimento. As feridas rejuvenescem.

Os olhos, era como se estivessem agora selados, e sangrentos, subitamente.

Parei todo o movimento e fiquei frente ao mar que se estendia à minha frente como uma respiração insustentável. O céu nascia com ele sempre que adormecesse.

- Perdoa-me a tentativa, murmurei, perdoa-me como se me aceitasses, como se revelasses aquilo que me não é.

E então o céu moveu-se, deslocou-se num arrastamento, como a dor desértica tornando-se canto ou a árvore curvar-se e a areia levantar-se água, inaudível som que invade a pele como uma queimadura. De olhos feridos, podia perceber, infindos movimentos cruzando-se dentro de mim receptáculo, o som habitava-me da pele para dentro, vento e sangue, percorrendo-me em dissolução animada. Não rodava, a imobilidade era total como o pico da constatação ou da pedra atirada ao ar, algo a crescer dentro e percepcionado fora. Eu era o objecto e olhava-me.

...

Ele ergueu-se, de olhos fechados e sangrentos, o corpo liquefazendo-se em merda plasmática. Era o céu abrindo-se, a fenda da unidade, o ponto de intersecção, o horizonte. O mel escorria da noite quebrada, gotejando fenda abaixo, golfando. Sufoco. A multiplicidade é unidade. Sueste. De fogo nas veias. Ele ergueu-se em conjunto e gritou. O mel cobria o oceano, acumulava-se em vagas na areia. O horizonte dourado e material, o pensamento. Porosamente, expandi-me até não poder mais, abri-me sol gelado e desci à terra. As suas mãos tocaram-me.

...

Te reúnes, como um levantamento. Meus olhos que se tentam abrir, escuro odor. Ergo qualquer coisa, membros, tocos, mãos, algo que toque. Como uma curva ascendente, um suspiro de tensão. Ergo-me. É como uma estrela gelatinosamente despontando do céu, do rasgo. Raios brancos e vidrados e quietos, uma flor esticada no ar. Pequeno e dissolvido, o arco ascendente, um quedar assustado de atenção. Eu toquei, e todo estremeci na reconstituição.

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A estrela de gelo.

Tocado o primeiro abrir de olhos gritei.

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O que deste tu recebes. E dentro dos olhos o mar abre-se. A planta moveu-se. Ferida. Os olhos. Abri-los. A forma. Criada. Temporal. Caminhar. A contagem começou, decrescente.

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segunda-feira, abril 12, 2010

Anjo de guarda 4

Afasta-te, segue o teu caminho, aprende primeiro o deserto, o abismo e a confusão. Cresce no anseio e na ausência, contempla o centro de deflagração de tudo, o ruir das coisas no vazio.

segunda-feira, abril 05, 2010

Repete: os olhos em que mergulhamos.