segunda-feira, outubro 29, 2007

Flor de fado

Começar amor, em todas as casas e ruas, baldios e festas, como regressar à fonte, em todas as quedas, fugas, encontros, é o que posso tentar fazer, todos os dias, todas as noites, meus amores.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Nota

O nada apaixona-se pelo que há; e inversamente.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Ex nihilo, o início

encore pour toi, Emil, qui
te baignes dans l’ éternité,
dans le silence ou dans le
mutisme, seul dieu le dira
ou le rien definira

e para ti, Goldmundo,
do abismo donde brotam
as interrogações sem
resposta; elas são a
própria resposta, o
estertor


Aquele que intui, no fulgor de haver coisas, a sua criação, abre-se à presença brutal do instante, e o fugidio transfigura-se num eco da eternidade.

Não opera nenhuma dedução, e não é inerente que o faça. Deu por si imerso na insónia das coisas e de si, no tempo denso e opaco da distância. O mundo aí estava e ele nele. Era esse o facto total, em que se davam todas as operações, mentais e físicas, suas e de qualquer resto, e na estrita apreensão desse facto total do haver, nem sequer essas distinções se poderiam claramente enunciar. Ele estava colocado, por assim dizê-lo, antes de qualquer distinção ou operação. O seu modo é o estarrecimento.

Uma intensa incompreensão atravessa-o, aquela coisa do mundo aí e ele, ambos pulsando e movendo-se em si-próprios, estranhamente vivos e presentes. Que houvesse parte disso que ele conseguia intuir e representar-se, sentir e agir com e confusamente compreender, era certo; mas tal não lhe abria caminho para o vir a si da vida que aí está e o abarcava. O mundo e nós estamos aí, eis tudo, e o donde surgimos e brotamos, aparece como um abismo de mudez estridente.

Nada funda o haver coisas, era o que lhe trespassava a noite e os dias, crispados de uma brancura tal que os estarrece de vazio e indiferença. Era como se se estivesse a afogar no puro escoamento das coisas. As ruas que ele percorria, feroz e histericamente durante noites a fio, o quarto cerrado em que ele se enclausurava durante os dias, os odiosos dias habitados pela sociedade – nada disso lhe trazia uma mudança de lugar ou estado. A vida inteira movia-se e existia barulhenta e confusa, e ele quedava-se agrilhoado e perfurado pela imobilidade do todo. Era como se tivesse sido catapultado para fora das coisas e da vida, assistindo a isso e a si-próprio nisso, sem perceber muito bem a que porra assistia e que raio ali fazia ele.

Era como se se congelasse sem deixar de mover-se.

- Que se passa contigo? acabavam por perguntar-lhe quem com ele vivia, ou até alguns transeuntes do seu devastado quotidiano.

- Não sei muito bem, poderia ele responder. As coisas simplesmente… poderiam não ser. E nesse sentido, elas de algum modo não são. Não sei. Algo as tem que empurrar a ser. Não sei mesmo.

Ah, como gostaria ele de conseguir chorar, isso o calava e fechava no grito, a criança que depois de perder-se na floresta, perde a própria floresta, e caminhar pelas ruas a fio ou afundar-se na cama olhando o tecto – passa-se exactamente da mesma maneira. Já não era medo do escuro e dos lobos e da constante ameaça de estar vivo, o medo foca-se numa expectativa de risco e morte, dor e susto; não, agora era um terror sem nome, um espanto sem voz para lá de todos os medos, até agradeceria que os lobos lhe viessem dilacerar os nervos e uivar-lhe na alma. Por momentos rogou aos deuses da floresta, para que viessem com a sua escuridão, iluminar aquele vazio com a presença escondida dos seus medos e desejos, mas o que lhe sobrou nas mãos desse clamor, foi um pequeno e inofensivo, totalmente inactuante – escárnio de impotência, perante aquela gélida imobilidade que envolvia a vida, e a sufocava. Não que se tivessem esvanecido, esses mensageiros do sangue e da terra, da vegetação e das águas, mas sacudiam as suas forças numa distância que não parecia tocá-lo, agir nele. Eram apenas – coisas mais, disso aí.

Como dizer então, talvez a criança nele decidira suportar aquela crescente e asfixiante densidade dos dias e de si, o facto é que um murmúrio qualquer rumorejava nele, balbuciando fundo e secretamente, o seu coração e nervos discorriam num discurso com o nexo secreto das coisas que a boca jamais enunciará. Era, a bem dizer, do seu estado de vista e vida, o frágil e único eixo que o mantinha vivo.

- Não percebo como não desapareço instantaneamente no nada, era a sua maneira de dizer a coisa.

Dava-se-lhe esse rumor que o sustinha de vários e subtis modos. Por exemplo, na raiva que lhe provocou a morte dum primo afastado, uma criança de três meses que ele nem sequer vira vivo ou acompanhara a crescer no ventre da sua afastada prima, que ele aliás mal conhecia. Mas ali, no funeral, com o pastor monocordicamente dizendo que Jesus ressuscitara dos mortos, com os familiares e restantes, conhecidos e desconhecidos, tristemente vestidos de preto perante o pequeno caixão habitado pelo abismo, algo nele se rasgou, algo lhe fendeu o seu próprio grito multiplicando-o, e saltou súbito para a beira do caixão, numa raiva surda desfazia todos aqueles ramalhetes e coroas de flores que escandalosa e inutilmente afrontavam a injustificada morte daquela igualmente injustificada e pequena vida que soçobrara. Teve tempo para as desfazer todas, até que os presentes se desfizeram do seu porventura espanto e o agarraram afastando-o do pequeno caixão. O pastor aproximou-se, evidentemente, era um pungente e trágico grito que presenciava, uma terrível e indizível dor perante o incompreensível da existência, mas ainda nem lhe tocara ou uma palavra dissera que ele rosnou com a ferocidade dum assassínio: E tu, funcionáriozeco da ressurreição, porque caralho então não abres o caixão e o fazes reviver, fraudulento da merda.

Sacudira-se e fugira do funeral, sabe-se lá o que fizera. O facto é que era o próprio abismo que o interrogava, digamos assim, o interpelava agarrando-o pelo pescoço e apertando, encurralando-o nos fundos e fins de si-próprio, e como que sem lhe dar escapatória alguma inquirindo-o: E tu, o que tens para dizer-me que na voragem não desapareça?

E ele fechava os olhos, aguentava-se, sem se dar bem conta de tal era o pequeno rumor que o fazia sentir que não havia de esvanecer-se ali sem dar luta, mesmo na quase certeza do seu próprio fracasso era digamos talvez a criança no rumor dizendo-lhe Aguenta, aguenta, tenho a certeza que há qualquer coisa, era a criança crescendo com os mortos e os vivos, com o balbucio de si e a própria dor do abismo.

Por outras, à medida que a criança secretamente crescia no seu coração, eram uns breves fulgores totalmente inexplicáveis, uma pequena e tenaz paz e sossego com que por vezes dava por si olhando uma pequena flor brotando entre as pedras da calçada, ou a informe mancha de café na toalha da mesa, a brancura do papel amarrotado e a sua textura entre os seus dedos, os odores das coisas, o vento que arrasta uma folha no Outono. Era como se o que o sufocava e tolhia por inteiro, subitamente e sem mudar de conteúdo, se invertesse e o acolhesse numa estranha beleza de pura presença. Tentava evidentemente agarrar esses momentos, mas eles fugiam do mesmo modo como tinham vindo, isto é, sem mais.

E no bordel, à noite, acabara por vir a conhecer todos os da cidade, não entrava nos bares e clubes de dança que a noite proporcionava, mas nos bordeis sim, aqueles recantos limite com os seus prazeres melancólicos e maldades desesperadas, toda a desonestidade e mentira dos homens esparramando-se ali aos pés das putas, vindo morrer aos seus pés mesmo quando eles lhes batiam e se pensavam mais fortes. Não que o rumor o despertasse na força com que por vezes fodia com uma ou várias num galope gritado que o fazia esquecer-se por breves instantes de si e de tudo, afinal os deuses do esperma e do ventre são da natureza dos do sangue e da terra e da húmida vegetação; nem quando passava a noite sentado no sofá da sala de entrada, fumando os seus cigarros sem nada dizer nem fixar do corropio de gente e ninguém que ali se alternavam noite dentro. Não. Mas por vezes um ou outro gesto ou olhar de alguém, puta ou cliente, um chá oferecido sem nada dizer e a lua refulgindo na janela, um desconhecido estrangeiro contando-lhe a estória da sua vida que ele nem ouvia, mas ressentia no puro acto do outro contar-se, a mútua presença de ambos nesse abismo afinal da vida. Era estranho então o sorriso que lhe assomava aos lábios, estranho como um extenuo revitalizante, um deixar-se estar e essa quietude estranhamente chicotear o abismo e fazê-lo estremecer num pequeno ribombar.

O rosto dela, foi sobretudo isso, a criança crescia e já quase falava. Ter-se-iam apertado e sacudido ou não nos amplexos do sexo, sabe-se lá, talvez apenas estado um com o outro fumando cigarros e bebendo vodka, o facto é que a madrugada apanhou-os abraçados, respirando-se sem precisar de falar, os pássaros começavam a cantar lá fora, os motores dos carros e as vozes das pessoas elevavam-se chegando ao quarto numa melopeia confusa. Ela olhou para ele e sorriu, simplesmente. Ele passou-lhe a mão pelo cabelo, afagando-lhe o rosto, e foi totalmente invadido pela presença dela, e o rumor tomou sentido, veementemente tomou sentido, tão simples como o sorriso dela, tão simples como a sua futura morte, tão só: eis-me, eu sou.

Saiu do bordel e entrou na manhã agitada da cidade. Olhava tudo em seu redor, estava subitamente envolvido de tudo em seu redor, as coisas eram e giravam e o murmúrio tornara-se esplendor.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Bazófia

Até Deus tem medo de morrer, digo, toda a noite, em combustão, medo atractivo até Deus tem.

Sou pequeno. Deus é pequeno. Também pequena a pequena morte. O terrível esquecimento. O pequeno abismo, à pequena beira. Como um espelho na lapela.

Maintenant laissez moi. Je veux rester seule avec mon dieu. Disse ela, tranquila e luminosa, mostrando vaga e irrefutavelmente que a morte não tem a última pequena palavra. Nem a primeira, aliás.

Sim, apaga o cigarro, o candeeiro. Dorme, tranquilo. É o teu pequeno deus que te conta uma pequena história. Dorme agora, e ouve o seu segredo.

Tenho a certeza que és capaz.

Je n’ aime pas ça. Eu sei. Mas ouve: faz parte da história. Em princípio tudo pode ter um fim, um fim sentado.

Bebe o meu sangue, come a minha carne, tenho a certeza que és capaz. Ou melhor escutado: sou a certeza que és capaz. Ou pensas ter sozinho conseguido inventar a pequena palavra “deus”? Como se fosses capaz. De conceber uma eucaristia. De rezar acreditando, como se fosses capaz. Por vezes à noite, dizia o outro. Pois, pois. Fia-te na virgem, ou então nada. A inviolada que te toca. Nem sabes o que é, não podes saber.

É deus que reza em ti, ou então nada, percebes, ou então sopas. O totalmente estranho em ti ou então tudo não passará do pequeno espelho que um dia se quebra. Tudo não passará de nada afinal.

E o mais curioso, é que tens de considerar isto, como se não fosse prisão. É aí que reside a saída, é um pouco confuso à primeira, dizes. E tens toda a razão, por vezes a alma fica triste até à morte. Eu sei. Por vezes a alma fica triste.

Não me esquecerei de ti, ouve-se deus no sono. Não me esquecerei de ti, diz deus no sono. Até ao fim do mundo, tu és capaz, diz deus na única palavra orada, a única possível. A palavra dada, digamos assim, o nome próprio, deus diz-se, digamos assim, deus disse.

Deus disse tu, é o teu anseio no pequeno deserto, é a tua escuta. E tens toda a razão, tens toda e irrazoavelmente razão. Por um triz tens toda, digamos assim.

E digamos também que por vezes sabes que a tens, por pequena e por vezes suspeita sabes.

É preciso esse pequeno saber, evidentemente que é preciso o fugidio, até uma criança se apercebe disso, e outras tantas o esquece, também é evidente e preciso, claro.

Mas eu não me esquecerei, lembras o deus dizer, lembras o deus lembrado, o pequeno rasto que pensas tentar seguir, que anseias tentar seguir, de certa maneira tentando fugir, e nessa fuga te encontrando, tentando, mais uma vez, caindo e tentando, fugindo e sendo enfrentado e enfrentando, somos nós próprios sempre à nossa frente por mais que corramos, somos nós próprios, digamos assim tentando, mais uma vez. Somos o nosso próprio abismo, digamos assim, sempre à beira todo em redor, sempre à espreita sentado, por todo o lado, por dentro e por fora, digamos assim.

E no entanto ergues-te, e ousas clamar por Deus. Com toda a razão, diga-se de passagem, de pura passagem diga-se.

Por vezes até, ousas amar, até diria que o fazes sempre, de certa maneira, talvez a medo.

Nesse cruzamento te encontras, como se te conjugasses no exterior e este se conjugasse por dentro, como se. Como se a mão do outro na tua não fosse uma despedida, e nos pudéssemos finalmente olhar e escutar e viver, como se. Como se fossemos capazes, é assim que tens de viver, morrendo. Não és capaz de morte, ouve-se deus dizer. Mas eu sou. Já percebeste? É a história que acorda, tu dorme. Sem medo, com medo. Tentando. Na antecâmara tentando, diz o poeta, e com tanto a fazer, não há muito mais a dizer, parece. A não ser que dizer seja fazer-se, a não ser. Ou então nada, é mesmo o que parece.

(E no entanto tem método, acrescenta aliás o poeta.)

O mundo é sempre velho quando nos dá à luz, um pouco mortos, um pouco morto é sempre o mundo, um pouco nós. Por vezes a alma fica triste, sim, a alma aqui por vezes fica. Não sei muito bem o que digo, e por isso o digo será, é o que parece por vezes. Se eu soubesse rezar, dizemos todos, mesmo os que dizem o contrário ou fazem ignorar, digamos assim todos dizemos, se ao menos eu fosse capaz de rezar.

Mas eu sou, diz deus que disse, mas eu sou, diz a história no sono, a que todos contamos uns aos outros, desde o início dos tempos que contamos, a história inicial, sei lá, a história final, se eu soubesse não precisava de a contar, dizemos todos uns aos outros, sobretudo quando calados dizemos se eu soubesse.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Decerto

Dêem-lhes um deserto, aos corações ansiosos, que eles o regarão com água e sangue, na antevisão de inúmeros rostos vivos.