segunda-feira, abril 25, 2011

rasga os céus

uma andorinha

quando faz

a primavera

segunda-feira, abril 18, 2011

é por dentro que a vida cresce, e por fora que fenece.


e eu arrotei, mais ou menos sem querer.

segunda-feira, abril 11, 2011

Bon voyage


1. Olhou para o seu coração de gelo. Percebeu que a morte o tocara desde o início do mundo, e que ele a desejara crescentemente. Sentiu que este desejo se intrincava obscura e essencialmente na sua existência. Era como se o mundo e todas as coisas e épocas se realizassem dentro desse desejo de temporalidade estrita. A confusão instaurou-se no seu pensar-se.


2. A larva desejando-se lagarta odeia-se como larva, inconscientemente; e a lagarta por sua vez desejando-se borboleta etc, conscientemente.


3. O espírito mágico escravizando o espírito científico. A finalidade da tecnologia não é o saber mas o poder, o domínio dos elementos e não o seu conhecimento. Este torna-se instrumento de domínio, secundário. Os instrumentos são substituíveis, desperdiçáveis; neste caso, a verdade torna-se desperdiçável, e a mentira expande a sua força fugaz em ilusões de esplendor. A felicidade associa-se aos electrodomésticos e aos ferraris, às opiniões ilustradas duma falsa democracia e ao conforto sem sentimento nem furor dos lares assépticos. Por outro lado, o domínio tende a destruir o indomável. Em última instância, a vontade de domínio aniquila todos os elementos não integráveis. Não somos pirosos: preferimos os telemóveis às flores.


4. Imaginou-se então espelho vivo em que o mundo se reflectia. O espelho produz a imagem das coisas e estas constituem-no constituindo-se nele. Percebeu que o espelho se desejava puro acto de reflexão, e que tendia a destruir todas as imagens nele reflectidas. Percebeu também que este gesto se traduzia num ataque às coisas, única maneira de anular as imagens destas.

Tornar-se-ia um espelho morto num mundo vazio.


5. Pensou confusamente: A tecnologia dum desejoso de morte é a actividade dum ser em fuga da sua origem, e que nesse movimento se desliga e isola de si dentro de si próprio. Uma fuga em direcção ao nada. O desvario capitalista do lucro, assim como o desvario político do poder pelo poder, têm aqui um dos seus sentidos. Separada da sua origem humana distinta de si, toda a estrutura técnica ou teórica se fundamenta no seu próprio sistema, e daí retira os seus processos e finalidades. A pá cava buracos em si-própria anulando o solo, ou se preferirmos: Édipo arranca os olhos, ou ainda: Adão e Eva caem em si.


6. O espírito mágico escravizando o espírito social. A finalidade política não é a concórdia mas o poder centralizado, o domínio do outro e a sua coisificação. A felicidade associa-se às cedências desistentes e aos pensamentos emprestados, às liberdades consentidas e ao conforto numérico de múltiplas massificações. Tanto os súbditos como as relações e coisas se tornam substituíveis, desperdiçáveis. Por outro lado etc: preferimos o negócio à solidão.


7. Os adultos tornam-se coveiros da sua adolescência. Fixam-se definidos e caem no nada como figos podres. Não passamos de cáries nos dentes da vida.


8. A minha morte ilumina o mundo, repetiu. O mundo não me apareceria se. Este é o inevitável começo. Mas não condiciona o caminho.


9. As imagens são mortas; o acto de as produzir, vida.

O espelho ganha asas e chega às coisas.

Todo o ser dele se convulsionou como uma anémona chicoteada; o odor da flor evola-se no ar sem a fenecer.


10. Borboleta, flor, fogo, pensava agora, talvez menos confusamente. Quedar-se num fim que não seja infinito como o amor ou a beleza e o terror, é quedar-se imóvel, fora da vida. Nas finalidades finitas, o quantitativo torna-se valor, e nenhum salto qualitativo ocorre, quer-se dizer, nenhuma transformação. Mais carros não são melhorias de transporte, nem mais amantes melhores amores; poluem mais, apenas isso. As forças vitais visam sempre o infinito; a leitura dum poema é infindável, assim como toda a relação amorosa.


11. Somos a imagem no espelho, mas o espelho não é a imagem em nós. Digamos que a imaginação por vezes supera os limites de quem imagina.


12. Quero ainda mais pirosice que os pirosos, disse ele, quero ainda menos pirosice que os não pirosos. Quero telemóveis em flor.


13. Olhou para o seu coração de fogo. Percebeu que a vida o tocara desde o início do mundo, e que ele a desejara crescentemente. Sentiu que este desejo se intrincava obscura e essencialmente na sua existência. Era como se o mundo e todas as coisas e épocas se realizassem dentro desse desejo de infinito. O delírio instaurou-se no seu pensar-se.



14. Comme aux enfers, comme chez les anges.


15. Etc.

terça-feira, abril 05, 2011

nada é tão estrangeiro quanto deus, e nada tão presente e próprio; pois não é deus que habita no mundo, mas sim este que em deus habita.