segunda-feira, setembro 25, 2006

Na sua pequenez

Nada ter – de tudo liberta.

Não que o mundo, as coisas, os outros, e todo o resto - desapareçam.

Pelo contrário, a sua presença intensifica-se, e multiplica-se.

É a relação em nós que é doutro modo, e assim também o modo de apresentação do que for.

O mundo, transfigura-se.

Revelar o real – é tarefa do Deus.

terça-feira, setembro 19, 2006

Branco

O mundo como ele o vê, ainda tantas guerras possíveis, tantos desastres provocados, por dentro de cada um e uns com os outros e o resto e toda a puta da confusão da humanidade e da vida. É um mundo fodido, aquele em que vivemos, já os antigos o sabiam, é terrível nascer, a bem ver até, é a única coisa terrível.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Prece 3

Ajuda-me, meu Deus, a ser mais pessoal e próximo.

Ajuda-me a sê-lo sem destruir intimidade nenhuma, sem desaproximar pessoa alguma de si própria, dos outros, e de Ti.

Ajuda-me, meu Deus, eu que sou tanta surdez e dissonância.

Amen.

segunda-feira, setembro 04, 2006

O deserto 2

Os dias sucederam-se inconsistentes e dolorosos. Jaafar metera uma moeda na boca e chupara-a até ela se tornar um toco em brasa. Depois mordiscara durante uma infinidade a última tâmara que trazia consigo. Os dias sucediam-se como martelos e Jaafar não parava, deixava-se ir naquele sempiterno morno ritmo, com a esperança cravada em algo que entretanto esquecera. Caíra numa letargia de réptil em que se via tendo dois corpos, um leve como éter dilatando-se em direcção ao horizonte infinito e o outro seco e mudo e duro sentado no dorso da camela e caminhando na sua eternidade de cadáver. Abanava a cabeça dum lado para o outro, a injustificada réstia de esperança forçando-o a estar vivo e sobreviver.

Um movimento de atmosfera como mil trovões a explodir ou cavalos a galopar irrompe em seu redor. A camela, nervosa, sacode-o violentamente. Jaafar sente-se arrancado, como se os dois corpos fossem forçados a unirem-se, e desperta como se caísse pelo vazio do ar até ao céu. À sua volta o terrível barulho rodopia, como se gritos e clamores rebentassem no vento, e a areia levanta-se em vagas que turbilhonam sacudindo-se como chicotes. Shamal, murmura Jaafar, e desata a gritar batendo com as pernas na barriga da camela para forçá-la a deitar-se, grita atirando-se para o chão e encostando-se à camela como se quisesse confundir-se com ela. A morte verde do deserto, murmura, A morte silenciosa que não se pode evitar com nenhum gesto, e a areia entra-lhe pela roupa cortando-lhe a pele com violência de navalhas ou míriades de gotas de ácido sulfúrico e o silêncio é finalmente atordoado por algo tão vazio quanto ele, Depois é nada de nada, apenas um breve momento que num instante passará, e mergulha no calor do animal que treme de medo junto a si.