segunda-feira, outubro 30, 2006

Theotokos

Uma maternidade humana, que se abre à divindade.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Retida vertigem

Deus não existe.

Deus – é o lugar em que se mostra o que existe, e se distingue radicalmente do que existe.

Também se pode dizer que Deus doa a existência que só nele tem raíz, e nesse caso dizer que radicalmente – é todo o resto que não existe, incluindo nós próprios.

Só Deus existe.

Tanto faz.

É o abismo que se deve rigorosamente manter.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Nota

Deus revela o real sem estardalhaço.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Ciência 2

Aqui, a palavra é silêncio.

O eco contém o significado inteiro.

O contrário do dizer, no próprio acto da palavra.

O apóstolo fala, para que a realidade seja dita, não na sua palavra, do apóstolo, mas na vida inteira, na vida inteira pouco mais.

O apóstolo fala, na absoluta escuta.

No exterior a partir de dentro, digamos assim.

Diz o espírito: Não foques a luz do sol, mas sim o que esta ilumina.

E de vez em quando sim, olha para o sol directamente, no cego encantamento, apenas para não esqueceres, que é de lá que tudo se mostra.

segunda-feira, outubro 02, 2006

O deserto 3

Acordou no silêncio como um desespero. Algo quente como chama cobria-o por inteiro. Mexeu-se como um grito. A areia abriu-se e ele surgiu no calor e na regressada imobilidade. A camela trotava a uns vinte metros dele. Areia. Areia fervente. Nem se dera conta de ter saído da giann. Levantou-se. Estava mais perto do que pensava. Cuspiu a areia que lhe enchia a boca e dirigiu-se cambaleante para a camela. Embateu nela, fê-la deitar-se e sentou-se no seu dorso. Mais perto do que pensava. A camela levantou-se e começou a andar.

Entraram na sombra quente. A garganta erguia-se dos lados até ao céu. Jaafar mantinha a sua mente tão branca como o vento.

A garganta abriu para uma planície verde e dourada que se estendia até umas montanhas avermelhadas destacando-se num céu verde claro.

As patas da camela enterravam-se numa fina areia rosa donde jorravam aqui e ali rasgos de vegetação rasteira. A fragrância do absinto refrescava o ar e o som dos cursos de água fluía no silêncio. Jaafar saltou para o chão e bebeu a água castanha que sulcava a terra, bebeu e deitou-se e rebolou como se a possuísse ou cantasse e nascesse.

As casas espalhavam-se à sua frente, com as suas paredes de granito, os seus pilares de arenito. Jaafar avançou. O homem tinha a face coberta por um véu encarnado por cima do qual dois grandes e húmidos olhos fitavam Jaafar com uma expressão de espera e dor.

- Não vi nenhuma gota de sangue, disse Jaafar, e o homem tirou o véu. Tinha a face repleta de profundos cortes, donde escorria um líquido espesso, branco como leite, e inchada, como se do líquido estivesse a rebentar.

- Nenhuma rosa cresce no deserto, disse o homem, e levou um pano à cara limpando-a do líquido que escorria pesado. Jaafar tentou andar, mas não conseguia, arrastava-se pela parede quente, progredindo no ardor que o impelia a caminhar.

- Todas as paisagens decorrem, reflectindo o interior, equivalendo-o e apagando-o, desvanecendo sinais. Jaafar tenta andar, cai fora da casa na erva amarela e seca, e encolhe-se todo com um ouriço protegendo-se.

O vazio cresce.

- Apercebo-me então que tudo é vivo e tem uma voz, e o universo inteiro ouço-o reverberando dentro de mim numa infinidade de palavras vivas que se interligam e penetram. Jaafar agita-se no solo como que epiléptico. O homem aproxima-se atirando areia por todo o lado. Cabeças de carneiro caem junto a Jaafar e tudo parece levantar-se e executar a dança do escárnio à sua volta. Jaafar corre, como se uma luz ou um riso o perseguisse num labirinto ou o encurralasse numas catacumbas.

Jaafar olha a cabeça de carneiro, o homem sentado encostado à parede, limpando a face com o lenço sujo de asco e tempo. A areia cai na sua testa húmida, e uma sensação de estrangulamento sufoca Jaafar que se ajoelha no chão arfando. Sons de correntes, sinos e bateres de asas entrechocam-se e confundem-se na sua mente. Cai de face ao solo, e uma sensação de bem-estar irrompe da terra abraçando-o, possuindo-o, e o homem ri e tapa a face com o véu encarnado e a escuridão invade o lugar com a acidez violenta da angústia, e Jaafar grita, talvez tenha focado os seus olhos no horizonte e verá então o que realmente quer ver, o que mais o assusta e mais o atrai, o que mais deseja e repele em todos os cambiantes da permanência.