segunda-feira, maio 28, 2007

Cristal

em memória de Emil Cioran


Porventura tenho muito pouca crença, seja no que for, tudo me parece estar a mais, para lá das palavras “deus”, “morte”, “tu”. Não que não veja sentido nas ciências e saberes, todos os nossos discursos e disposições, as nossas análises e intuições, lirismos e afirmações de sentido. Mas no fim de certas tardes, realmente, tudo me parece tão circunstancial. Excepto, talvez, os silêncios depois de certos trechos de Bach, ou a praia do norte em certos dias de inverno. E o teu rosto à luz da manhã, qualquer manhã.

Há palavras, decerto, palavras mais, mas quais, as que espelham e revelam, inventam e desvelam. Quais. Quais não trazem na boca o sarcasmo da desconfiança, do medo e da suspeita. Pois que são essas também, as do apelo.

segunda-feira, maio 21, 2007

Darstellung

Eu cá sou como as tias de S. Petersburgo: sempre que me apetece – je parle en français.

E uma expressão ou outra em latim, uma palavra ou outra em grego, um pouco de hebreu, porque não. Para que não te esqueças dos anciãos, meu rapaz.

Call me Ishmael, poder-se-ia começar.

segunda-feira, maio 14, 2007

Se tu fosses és

Para tu

Se fosses na hora do dia, és o lugar onde a nuvem habita o solo e o horizonte embate no fundo dos olhos e do estômago. São os astros fenecidos que desafias com arrepiada alegria, e então o fruto brota no coração e há flores que ninguém plantou e que só segredos móveis, inagarráveis, sabem humedecer e alimentar.

Se fosses pedra, és o seixo que rola na praia, moldado pelas vagas e pelas mãos de vagamundos indecisos. Pois tu és a árvore em cuja sombra se acolhe o profeta fugitivo, és um animal e serias baleia, leviatã, ventre de mulher. É nessa palavra sem verbo que me tocas sempre que me sinto, em tempo algum e lugar todo. És o livro que eu não li e que me escreve, és o som do meu silêncio. Ouve-se a tua distância na voz das sereias e no sopro dos anjos, és a flauta que pã tenta tocar desde o início da criação, não há som que não te pertença.

E por vezes faz sol e por outras chove, há dias em que se come e outros em que se jejua. A sombra dos mortos costuma visitar-nos ao crepúsculo, como se quisera confirmar que ainda cá estamos, e que os abraçamos com a nossa própria morte. Há um odor almiscarado no ar que confirma todas as partes do nosso corpo, doente e vivo e que pensamos conhecer. Vestimo-nos de sonhos e de conceitos, o nosso sentimento espontâneo é a raiva que nasce do medo, e a saudade de algo que a própria raiva impede de conhecer, desde que nascemos, cheios de ar e sufoco, solidão e comunhão, força e desgraça. E no entanto o nosso rosto sorri e soçobra de encantamento perante a mínima beleza sussurrada, o mínimo indício de frase verdadeira.

E tu chegas sempre fora de todos os elementos, a tocar jazz com os instrumentos da utilidade, rock’ n’ rollas com as funções todas que pensamos prover ao mundo com as nossas invenções. Se fosses cor, o arco-íris não tem fim nem pote, e no entanto nós saímos todas as manhãs, com um sabor acre na boca com que pensamos lavar a nossa própria vida, vestida de números e de cuidados, retenções, vinho e carne que não sabemos sangrar nem beber, nunca soubemos, por vezes o dizemos, ou o fazemos porventura sem atentar.

Se fosses coragem és esse medo todo, o filme projectado no ecrã da vida e em que nunca apareces e apenas o olhar do espectador que abandonou a sala te indica, no preciso lugar vazio que ele deixou a meio da sessão.

Mas agora é noite, calaram-se as cigarras e inverno algum chegou, és tu que danças nas minhas mãos, ou o dia que teima em crescer?

Porque mais um bocadinho, só mais um bocadinho, e todos nós já teríamos desistido, de ti e de nós, com a corda na garganta e o sonífero na banheira.

Mas agora é noite e tu fica, fica sim, só mais um bocadinho. O pai está quase a chegar, e eu pus mais uma acha na lareira.





Texto instigado por Nasacris, o justo . Dando juz à minha ascendência de corsário, as normas foram adaptadas à rota do meu navio. E, naturalmente, passo a flama para tu, quem fores e quiseres. Um abraço, Pedro.

segunda-feira, maio 07, 2007

Barro de burro 2

Disse ele: eh pá, a pensar como os humanos.

Mas a fé estilhaça os limites, e pressente-se o terrível vazio de si que está lá fora.

O que nos prepara, curiosamente, para o acolhimento da alteridade. Ou nos fecha no espelho sem fundo. Aqui, não há meios buracos. A diferença é no próprio reconhecimento – reconhecida. Em si, no outro, no início e no fim, no limite e no ilimite.

Sem o oriente do deserto por fundo e acção, não vale a pena o ingresso na sua própria razão. Todo o cálculo se esgota em si próprio, e só a abertura preenche o vazio.

O abismo que nos reconduz ao concreto, ao pequeno detalhe por onde entra o absoluto da própria mortalidade. Tudo fica vivo e intensamente gritante. Não me esquecerás, meu deus, quando a noite descer à cidade, e dissolver as trevas que os homens aprenderam a amar.

Disse ele: Afasta-te de mim. Ou abandona as trevas, e suspenso no vazio, apenas ao deus te agarres, por um breve instante, um breve instante que se não passasse, transfigurará todos restantes instantes, até ao fim do mundo.