segunda-feira, janeiro 25, 2010

A mal castrada


à Emma Santos
à Mary Daly

e que Deus nos guarde
no seu seio vivo e fremente


Milénios de forçar a afectividade para o doméstico, e a racionalidade para o público, dilaceraram-nos a todos, homens e mulheres, na mais profunda superfície da nossa consciência e comportamento.

Enquanto a oposição dentro de nós nos divide e impede em absoluto qualquer fundo de lucidez, deixem-nos foder o dia, vós que ao longo destes milénios de terror, acabaram por foder a noite; e sabei que a fecundidade não habita em nós, jamais, em nenhum de nós.

Talvez então as trevas se dissipem, e possamos ver o dia e a noite abraçados no seu esplendor.

Do mesmo modo que vocês me amordaçaram a boca e a cona para ir a bordéis e fazer guerras e dominar o mundo diurno, eu saí para o mundo da noite, e com vagabundos ébrios e feiticeiras participei em orgias e tresvarios, desesperei e sacrifiquei bebés e beijei a boca do demónio, tal como vós o fazeis ao vosso modo. Somos o verso e reverso do mesmo contrato, são as trevas que nos reúnem, as mesmas desesperadas feridas e distâncias.

A minha voracidade já foi momento de libertação, atrevimento desesperado da harmonia perdida, esquecida, impossível de entrever.

E depois a confusão, a tempestade e o naufrágio; gaguejo de mim própria, o soçobro é meu mais verdadeiro acto.

O nosso corpo de morte nunca poderá seguir a voracidade faminta da vida em nós, essa desconhecida. Não temos eixo de ser para a vida. Teríamos de enfrentar primeiro essa obliterada harmonia, que nunca conhecemos e que nos é dada imediatamente sob a forma do esquecimento e terror: não há homem e mulher em Cristo Jesus.

Não se iludam pensando que é por estatuto de mulher que construo esta fala: o feminino que grita, é no seu intrínseco masculino que sofre e desespera, pois nunca se encontra em lado algum de si, apenas membros mutilados com que tenta construir uma imagem sexuada de si: homem, mulher, andrógino, assexuado; o jogo procede pessoal e socialmente, sem plenitude alguma que se veja, sem ser o que fôr que se viva, sem verdade alguma que se reconheça e dê rosto ao mistério da identidade concreta de cada qual.

Estamos todos mortos, é o que é, fantasmas de si que se procuram na própria fantasmagoria.

Pobres homens e mulheres separados, interiormente divididos, impossíveis de actualizar-se verdadeiramente: mijo-nos na palavra; e é esta a fala que aqui ruge e murmura, como um rio subterrâneo que fecunde os prados e os prantos.

Ainda é o mais lúcido que posso fazer.

É o falo que pensa falar no discurso da razão; e a cona que pensa florescer no silêncio dos olhares afectuosos. Mas o grito do orgasmo mostra o seu próprio e intrínseco desencontro.

Guerras, fomes, injustiças, assassínio directo e indirecto de milhares de crianças, violações sexuais, tudo isto e tanto mais a cada segundo, agora, mesmo agora enquanto teclo, enquanto me lês.

Saber quantas mortes estão por trás da gasolina que meto no carro, quantos assassínios e violações de corpos e direitos me permitem sentar aqui e beber uma imperial, escrever estas palavras.

Como gostaria de conseguir olhar-me de frente, sem abstracções conceptuais e charabiás.

Ver o mundo a direito.

Nous sommes tous fils d’ Adam et d’ Ève, disse-me um muçulmano lacónico e desconfiado. Sem dúvida. Não nos finjamos filhos da luz.

A trágica aporia é que aderir em sentido último a seja o que fôr que tenha que ver com a humanidade histórica, filosófica ou pessoal - é continuar a perpetuar esta merda toda. É continuar a crucificar Cristo.

Não haver homem ou mulher em Deus, não o assexua, esse de que somos imagem no ser e na vida, na verdade de nós a que não acedemos e de que nos separamos a cada respiração (nós pois, os tudo mentira e morte); Deus é o feminino e masculino em máxima e interna tensão e dinamismo, e daí a sua ilimitada fecundidade; e assim tudo o que há, na sua verdade primeira e própria, exprime Deus nessa mesma e essencial dinâmica de feminino e masculino. É assim, e só assim, que a Criação inteira, na sua totalidade e em todas as singularidades que fulguram – é verbo de Deus.

Mas eu não, oh nenhum de nós nem ainda nem antes; somos para Cristo sem ainda nele ser, sem habitação própria no verbo divino; nada somos, mais propriamente dito.

E assim abraço os seres da noite no seu grito e dança, e Deus é um buraco negro na minha alma. Mas reconheço os simulacros, são os próprios anjos que mo sussurram aos ouvidos. Faço da sua amizade o meu orgulho, terrivelmente, eu sei. É a única maneira que tenho de atravessar os fogos que me cerceiam.

Abramos os olhos ao caos, ele é a nossa verdade primeira. Talvez então possamos entrever respostas.

Saiamos.

No fim da noite está a resposta.

(Pois aqui quedamo-nos, orgulhosos, nós, os totalmente impedidos de escuridão: desesperados de luz, são as lantejoulas da ilusão que nos cegam; e sim, só o Deus criador, anterior a toda esta merda - nos poderá salvar.)

I have seen too much, wipe away my eyes, diz-se num filme, e também numa canção.

Uma cegueira que se conhece enquanto tal; é por aí que um dia começaremos finalmente a ver, e a viver.

Assim seja.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Trouxe-mouxe matinal

Deus corresponde mais à interrogação que move, do que à resposta que define.

We need more time, and less history, disse o tio Rauschenberg.

Chegar a algum lado, não chegar, nunca chegar a lado nenhum no lugar todo e chegar sempre.

Há os gritos do gato; apenas pardos para aqueles cujos olhos não se abriram à noite.

Há tantos fulgores fora e dentro, tanta escuridão e chamamento.

Plantar uma flor em meio de horrores, nem que seja para esta florir meio segundo e fenecer.

Deve dizer-se-lhes que nada é fútil enquanto não cai sob um olhar fútil.

O combate interior é a paz do cristão. Nunca ter a certeza de si, e toda de Deus.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

s/ título


à Lhasa


Eu te vi. Lembra-te: Beijei-te o sono e o teu corpo nasceu no meu. Imaginei-te abrindo os olhos de espanto recém-nascido, esticando os membros num balbucio de felicidade e desejo de eclosão. Espírito. Um rosto tão de prata e tão meu, tão homem e mulher e tão violência que me sidera e suspende e assusta. Levo a mão. Sou eu?...

(E vi um mar, um oceano calmo nascer da secura dum cardo no coração do deserto. Tentei pronunciar o nome do rosto mas apercebi-me pela minha afasia que esse nome se pronunciava em acções. Quedei-me então acesa e deixei o mar banhar-me as feridas.)

segunda-feira, janeiro 04, 2010

sim

não há (...). há o haver sempre e nada. o verbo. que nos dá na voz e no silêncio, infinito eco. a morte é nossa guardiã, e a vida sua vitória. o abismo é fecundo, é o que faz a voz, nas entranhas do coração. o próprio medo o diz. frágil é o barco, por onde pensas voar? deus navega connosco, aí onde nos afogamos.