segunda-feira, março 30, 2009

Nota

Na igreja ou vimos sempre de fora, ou dentro não estamos.

segunda-feira, março 23, 2009

Bazófia das cinco da tarde

Um suave terror em certas tardes sem melancolia, o ambiente em sussurro de tal grito, na estranheza da ideia do deus enquanto criador; o rosto do ser e da vida, a nossa própria morte; porque não apenas na anterioridade de tudo, deus é no abismo anterior a essa anterioridade; a ignorância pura, brutal e abissal, dentro do próprio abismo; o terror advém de que mesmo a nossa mais funda e volátil fé, não tem ainda medida nem substância do próprio deus; mesmo esse para lá de nós que se inscreve na fé, ainda é separação, cegueira; é portanto a fragilidade mais funda que é forte na fé, os olhos do moribundo depois de morrer, que são o mínimo abismado perante Deus, que são o mínimo disso que somos perante Deus; quando o entendimento, e a própria fé, estão soçobrados perante esse fogo tempestuoso da brisa suave, ou nem isso, nada mesmo talvez; a primeira inscrição da cruz é o nada, claro, uma espécie de misticismo atroz, o deserto de nada termos propriamente nosso perante Deus; e que nada absolutamente nada do que temos e somos está verdadeiramente esclarecido; a queda absoluta, eis a elevação da cruz, no céu que se rasga e na terra que se abre; o silêncio dos mortos depois de morrermos, e pouco mais, senão nada, eis o que temos e somos que seja nosso; a fé é essa inaudível escuta desse mesmo silêncio, e pouco mais senão nada; uma semente mínima como a chama da vela que não se quer apagada atravessando tempestades, uma coisa impensável, um soçobro no poço dos poços; é que na verdade, não há nada que possamos dizer ou ser ou viver sobre o assunto, esse o suave aterrador, a ironia mais funda; dialogamos e somos e vivemos em pura escuridão, eis o que seria um modo de o dizer à boa maneira fadista; palavra alguma temos sequer que diga a nossa própria morte, quanto mais pretender deter com clareza suficiente certas palavras do ressuscitado; não brinquemos, diz o fadista, no gume da sua própria navalha; aprende-se muito com a ignorância, é o que se poderia dizer no cenáculo de Deus, se alguma vez o tivéssemos feito; é por isso que ou a essência do diálogo e da comunhão é abissalmente sustida no próprio deus, ou não há igreja; enfim, é uma ideia estranha, é certo, um medo indolente e denso, a rede dos dias e das noites quando estes acabarem, quando estes acabam no próprio Deus e em tudo, quando estes acabam o que sobra, é isso a semente; é aí, diz a navalha depois de matar; o resto, ainda é conversa de compadres e comadres, ainda é política, ainda é negociação proveitosa; ainda não é a cruz de cristo.

segunda-feira, março 16, 2009

Anjo de guarda 2

Dar-te-emos uma alma universal, da-la-ás à carne na dor maior, essa: a de todo te entregares e rasgares.

segunda-feira, março 09, 2009

Estações

Oh irmão divino que enfrentaste a palavra humana nos seus rechaçados juízos, que para ela olhaste nas suas boas e más vontades, essa confusão que a afasta da verdade, ensina-nos a simplicidade na justiça da vida funda, dá-nos a ironia e a ternura que abraça e desvela, liberta-nos da nossa prisão pior que a morte oh divino.

Oh irmão divino que afrontaste a escuridão humana com a luz do silêncio maior, que rechaçaste o rechaço da palavra que fecha e se nega, dá-nos a vida que não foge do medo mas o sustenta no terror vital, no amor criador que em tudo será vilipendiado, destroçado, aniquilado, e que mesmo no seu apagamento que escurece os céus possamos manter-nos na sua dor e lamento, na flor que dá ao fruto na sua própria morte, ensina-nos a entrega oh divino irmão que nos abraçaste até ao fim e ao fundo que todos rechaçamos.

Oh irmão divino, essa a força da tua queda, por nós e em nós para que contigo, para que contigo possamos até ao fim dos tempos, para que contigo sejamos na verdade de que fugimos em susto sem fim, os nossos infernos e terríficas cavernas visitas no teu próprio sangue e desfalecimento, amor nosso que desconhecemos, terramoto da vida que rasga os céus e ressuscita os mortos, entregaste o teu espírito para que nós oh divino, para que nós oh deus a ti próprio retornas para que nós sejamos.

Oh meu deus, salva-me da minha cegueira, deste fechamento atroz em que te nego ou à distância contemplo, na tua queda ergue-nos, na tua sentença de amor crucifica-nos, apazigua-nos oh irmão divino, aqui estamos em tua negação, clamando por ti na nossa própria cegueira e susto atroz, nós os que te cospem na face, os que dizemos na última hora não te conhecer, nós os que te desprezamos, os que trazemos o teu nome na boca e o orgulho no coração, nós os cobardes, os traidores, os vaidosos do templo, perdoa-nos oh irmão divino, perdoa-nos e salva-nos, salva-nos a tempo, salva-nos a teu tempo, não nos abandones, não nos deixe abandonar-te, nós os que te vimos cair e não nos movemos, nós os das falas vãs te pedimos: transfigura-nos para que nós oh divino, para que nós não mais te neguemos em nenhum átomo da nossa alma, para que nós contigo caíamos na nossa pequenez e no teu sangue floresçamos, na tua água renasçamos, e nos reergamos na tempestado do teu sopro oh coração infinito e rasgado no peso do mundo soçobra-nos no teu amor.

Por ti, em ti, contigo – assim seja oh nosso deus assim seja, para sempre e em tudo assim seja, assim seja até ao fim e ao fundo, assim seja até ao fim do mundo e nós.

Ámen.

segunda-feira, março 02, 2009

O LEOPARDO
AVANÇA DENTRO
DO SEU PRÓPRIO
RUGIDO – ADIANTAS-
-TE E OFERECES
um dia
algo.