segunda-feira, julho 10, 2006

O deserto

O sol é um rasgo redondo num céu totalmente branco, destacando-se pela intensidade de luz, ardendo como um olho fulminado. O ar fervente entra pela garganta de Jaafar arrastando-se pela língua seca e inchada e abatendo-se na fornalha dos seus pulmões. A brancura do céu confunde-se com o solo, de giann, argila branca e fracturada e como que imóvel desde sempre e rasgando-se por dentro, fundindo-se num horizonte em fumo que Jaafar sabe não querer fitar. A ravina está perto, Naga, diz, e as patas da camela lançam-se para a frente naquele permanente ritmo que como um sonho custa a existir, as patas arqueando ligeiramente e levantando nuvens de pó branco, a cabeça bamboleando para cima e para baixo como se o pescoço fosse uma alavanca.

Jaafar tirou um pedaço de carne seca de carneiro e levou-o à boca. Cuspiu-o quase imediatamente, a boca seca de saliva sufocando-o. Esticou as rédeas e a camela parou aos solavancos como que em câmara lenta. O silêncio cresceu à medida que assentava a nuvem de poeira em seu redor, tornando-se tão imenso como a distância entre ele e o horizonte redondo que o envolvia. Aquela contínua impressão de estar no centro afundava o tempo num morno decorrer que rastejava na sucessão dos dias e das noites sempre iguais. Um vazio cresce dentro de nós, e amplia-se até nos encher por completo. Jaafar desejou naquele momento o céu azul e estrelado da noite, o céu gélido como uma lâmina que maldiria quando visse surgir.

Desceu da camela que se sentara e deixou-se cair no silêncio junto a ela. Dentro dos seus olhos pequenas luzes como pontas de agulha acendiam-se e apagavam-se em mudos gritos e lamentos.

- Shamal, disse ele tirando uma fina cana do bornal, Temos shamal pela frente… E enfiou a cana na boca da camela que pingava baba branca e amarela pelos beiços descaídos, Bem sabes que nos temos que despachar, e remexia a cana na boca resfolegante de saliva, a camela teve dois ou três soluços como se fosse vomitar e Jaafar levou à boca à extremidade exterior da cana e chupou com força. A sua boca encheu-se de um líquido espesso com pequenas bolotas consistentes que se desfaziam na boca porosas, um líquido que se espalhou pela sua boca ávida e deslizou para a garganta aos borbotões, morno e ácido mas desalterante.

Jaafar fechou os olhos. Movia a língua que se tornara momentaneamente viva, e esse gesto dava-lhe um prazer tão subtil como que sugerido ou lembrado, um prazer que se queria sentir sangue a correr nas veias transbordando de humidade. Um prazer que o descontraía, e sacudiu-se em risco de adormecer naquela sugante geografia, seria deixar-se morrer do mesmo modo que o silêncio o assusta e cresce e apela o olhar ao horizonte numa vontade incontrolável de terror e aniquilamento.

Jaafar pôs-se em pé e olhou o horizonte. Apenas a sua respiração se ouvia, grave como o ronronar de um motor. Os seus olhos extenuados de luz e pó não conseguiam focar-se sem nenhum objecto onde poisar, apenas branco estilhaçando-se em sombras que se moviam indefinidamente no fundo dos olhos. É como olhar para trás, pensa Jaafar, como olhar pelas costas dos olhos. E são tantos mortos por trás, tanta morte pelas costas, que Jaafar não sabe se lá estão ou se existem dentro dele e da sua vida respiram e se alimentam, afinal o que é a morte?... Jaafar sorriu, com uma veloz e involuntária sensação de segurança, e subiu para o dorso da camela que se ergueu sacudindo-o e se pôs a caminho com uma indefinida convicção.

terça-feira, julho 04, 2006

Lamento

Deus, dá-me a força de lutar até ao fim com as armas do amor, até ao fim dos dias com as armas do amor.

Doem-me tanto e tão pouco todos os momentos em que Te nego, no cego orgulho e grito, como Te ofendi eu?

A noite não chega para abarcar o meu deslumbro, assim mesmo.

Não saber nada, absolutamente nada.

E Tu.