quinta-feira, abril 27, 2006

Água viva



Veneno. Veneza. Essas gôndolas de mesa. Os pratos brancos, brilhantes na luz fluorescente, por cima da toalha. As mãos tocando vidro, a boca quebrando-se num riste. Queres sopas, brados e bloqueios? Água, Vira-te, olha para dentro de ti em nós, Na luz fluorescente – Espelhos escuros, faces brancas, aguçam-se as facas – essas arestas: Não estás em ti nem em nós, Olhas dum espaço intermédio e impossível – O medo. Os objectos estão dispostos em cima da mesa, gagueja. A existência define a insegurança. O gelo irrompe dos nossos dedos, num soluçar de estado psicológico, rangem correntes nos espelhos, Gomos cerebrais, gnomos, Essa zona branca na imaginação – Um temor azul na memória.
- Em quê?
- Pianos de orquestra em mudas salas.
- Estes gajos vêm para aqui e sujam tudo.
- Não comeste frango coalhado da última vez que cá estiveste?
(O medo, os inimigos dentro do corpo) – Viste o último dia nascer na ponta do olhar?
- Pareces uma criança, qual é a tua?, com o tempo isso melhora?
- Quand on est au téléphone on ne discute pas.
- Mais, F F F, Tenho medo de ir à garagem.
- Queres ver a aparelhagem F F F comprou?
- Caranguejos, caranguejos empurrados pela maré.
- São rosas, senhor, são rosas.
- Isso é que já não cabe aí.
- A cidade entortou as ruas dentro do esquecimento.
- Não sei, se fôr muito tarde não posso ir.
- Já foste ao novo centro comercial?
- Babel Babilónia balbucio.
- Se quiseres um carro podes levar esse. Levantaram-no com um guindaste e puseram-no aí.
- Como é que se chamava a tua ideia?
- Há laranjas, os kiwis estão verdes.
- Tchau, foda-se!
- Tu viens avec nous?
- Os agudos dá-os bem, agora os sons graves parece que se estão a peidar... Leva a mão.
- Gostas de obstáculos?
- Não, o teu cabelo está mais comprido que o dele... Tira a mão.
- Não dá para confiar nos vendedores. Primeiro tentam impingir-te o que não conseguem vender, depois o mais caro.
- Leva a mão e pousa-la no joelho, uma criança lambe os dedos.
- A casa está viva e ataca-te.
- Mas Deus está lá a morar?
- Estive a lavar a casa-de-banho. O ralo do lavatório está entupido.
- O ofício: tudo o que prova estarmos vivos.
- Os outros, é necessário nomear?
- Entro azulejos contra, a conversa bebe humidades de cratera.
- Uma humana nebulosidade.
Inf Inf Inf fora fora fora Estás-te a Infantil pelo espaço fora Inflingindo um cair de rampa, um suave deslize como um sorriso Infantil. O corpo toca no corpo. A distância na procura. Toca-me, aproxima-te do espelho que há em mim. Mergulha. Respira fundo, entra em mim, entra em mim, veste o casaco, queres que eu te dê boleia?
A água sobe estrutura acima. Divide-te por 2 e percebe,



A PLANTA,



Ramificação ventre acima numa eclosão quadrada, vermelha. Um céu que se move, dentro da, explosão; como que ela, tu, ele, essa corpórea revolta, metamorfose, dentro da, cor. Na serpente da estrada, englobante, a alegria desesperada, de sonho inatingível, na contorção dos dias. A humidade dentro dum sorriso ou duns dedos, sabem o que é?, a maré enchendo e vazando. Olhando para cima numa abertura, uma esvaída oferenda de prazer, tristeza, titubeante sabor no amedrontado solo. A matéria da unidade sugerida, com a insegurança da voragem necessária, da morte que serve a ressurreição, do espaço de passagem cego de definições. A metamorfose transforma-te na entrega. O corpo aconchega-se nocturno ao lençol branco, a seiva canta numa alegria obscura, a força do desejo elevando a argila do mundo à nossa vontade. A unidade exige a destruição das estruturas?, um anjo. São da vontade do olhar as flores nascentes dentro da manhã, os lumínicos objectos apanhados em estradas ocasionais, o ritmo caminhante. A violentação de referências traz uma sensação de liberdade, a profunda respiração, activa. A vida abriu-se-te sangrando para todo o redor, na totalidade de tudo e de cada. Não tocamos, esbracejamos, violentando as superfícies, acendendo orifícios afunilados. A vontade?: sair da arquitectura do tempo soltando o ritmo na distância como os passos na direcção. Ponte primeira: o meu rumor que em ti ouço latejar, reconhece-te como o bebé o odor da mãe, a visão a luz exsudada. A noite é uma fogueira na tua face transformada, a fuliginosa noite avançando, a fulgurosa imagem nascendo entre as pedras do edifício.

Uma planagem entra a multidão, olhar-te e nomear-te na palavra, imagem. Despir-se, olhar a superfície dos lagos.
Uma folha gotejando, uma pétala, os círculos da água.
Um insecto lactoso irrompe vermelho sobre azul, simples, uma violentação enchendo as veias, uma faca cravada inofensiva na parede, o riso que tapa os olhos, espirálico, branca, parede. O desejo desliza desvio adentro. A criança lembra-se do corpo e sente medo, atingível de dor, feliz.
As coisas giram equilibradas pelo centro.
Uma placa de cortiça, o sonho que explode numa sugestão.
O animal acorda vital na madrugada da beleza.
Para a criança, o mundo é velocidade de embriagantes odores.
O insecto enche a casa toda, o corpo responde medo, entrega.
A alegria nase no estertor da larva.
A confiança necessária para segurar o leme.
O guerreiro transforma todo o objecto em arma. Assim, em luz.
Sentas-te dentro duma ansiedade englobante, explodes no vermelho tremendo. Arrepios surgem na imagem.
A película do céu rasga-se num rebentar de quedas.
O inimigo espreita fora da casa, as ruas enchem-se de silvos.
O som anda na cabeça, hipersensível, caminhas pelas raízes duma força que nasça da fraqueza, da reacção.
Os prédios vivem nos seus rangeres.
É a cidade que se aperta, agressiva e tensa.
O ladrar dos cães arrasta-se como que gelatinoso, pessoas assobiam calmamente à porta de casa.
O desejo enche os músculos duma força inaudita.
É o teu próprio som que na casa ressoa.
Nascem sombras dentro dos olhos, fugindo pelos cantos para as zonas escuras.
Observa a superfície.
Avançarias?



Nota: Baptizado na vigília pascal. A conversão – continua, como na revista Tintim.

terça-feira, abril 11, 2006

Cântico de fé – para a madrinha

É a noite que surge com o anseio da pureza. As trevas recuam, as trevas que indistinguem a noite do dia, e o esplendor destes refulge na clareza.

São altas estas montanhas, e em intensidade abrem-se até ao abismo. Largos vales em que surgem infindas presenças. Onde a vida inteira se apresenta, e como que toda cabendo – nas tuas mãos e olhos e coração.

Esta fé é a mais intensa libertação que a estória de qualquer vida alguma vez pode entrever. Mediação alguma te tolhe, é Deus ele-próprio que se faz sempre possível e acessível. E que te revela tal como és perante ele – tal como és obscurecido e obnubilado, confuso e destroçado, uma opacidade entre ti e ti que te mostra que sem Deus ninguém se percebe como é e vive na verdade, ninguém se conhece.

E que o amor de Deus directamente te purifique, esta a acção da fé – toda de Deus, evidentemente. Uma chama que te abrasa e revela e te devolve ao mundo na inteireza do coração e do espírito.

É absoluta, esta libertação. Mas que te obriga por evidência, a escolheres-te, e tudo assumires perante Deus. Tudo te é devolvido, e absolutamente livre, por tudo respondes – perante Deus. É terrível, e aqui começa a ética, fundada na verdade da presença, nunca antes, nunca antes da vida ela toda- o resto é merda contratual de poderes e instâncias regionais da vida sufocada e desconfiada. O resto é o mundo com todos os seus principados e potestades – de que Deus, precisamente, te liberta.

Pega nas tuas coisas e abre-te à intensa vida que te serena, à fé que te move e abrasa inteira alma – esse movimento que te renova por dentro. Peregrinação sempre, que fiques onde estás ou que mudes bagagens – é na alma que se peregrina. Sempre onde estás e fores – busca a Deus, no lugar amoroso de ti.

Poderás sempre rezar e falar-lhe, mesmo e sobretudo nas maiores securas e opacidades, quando tudo te parecer real menos ele. Sobretudo aí, nas trevas envolventes, na confusão de ti – verás a alegria na tristeza que te rasga. Pois o rio que te abrasou, não deixará de correr no silêncio e obscuridade, e viverá sempre em ti o seu rumorejar.

Que Deus te proteja, em todos os confrontos que com ele tiveres. Toda a vida ele te quis, toda a vida ele te deu – toda a vida lhe entregas. E nessa liberdade assim, tudo nas tuas mãos tomarás.

Ámen.

sexta-feira, abril 07, 2006

Com paixão – para a amiga

Uma amiga minha sei lá se ateia disse, num dia em que se sentia triste até à morte disse, numa melancólica confusão de inaceitação e desmotivos totais disse: Tenho a impressão de ter o coração fora do peito, à mercê de todas as feridas, minhas e do mundo… E acrescentou: Deve ser assim que os cristãos se sentem.

Pudesse eu tal coração.

(Deus, do céu que é a tua morada, dá-me um coração assim, um coração assim do céu que é a tua morada – mesmo ou precisamente se sei lá se creio.

Ámen.)

segunda-feira, abril 03, 2006

Ciência – para o António Franco Alexandre

O foco judaico-cristão é sobre o nada, e toda a ciência moderna sobre o algo. Nada pode esta dizer de Deus, esse nada de mundo, e é esta pretensão que constitui uma das ilusões da modernidade. Que torna o próprio humano num ídolo, uma imagem vazia. Um logro nadificante, uma mudez do nada – e na oração, a escuta do nada tem um eco e uma voz, uma presença.

Há um outro permanente, que luz no mais profundo deserto e desespero, não um algo mas um tu omnipresente, e que doa de imediato um eu, a mutualidade que até a solidão abraça e abarca. Ora, nem um eu nem um tu são fenómenos, pois são da ordem da parte de dentro das coisas. Não são da ordem da ciência do objecto ou do sujeito, mas da vida da pessoa. Da vida a viver-se em nós, conscientes desse imediato decorrer em que nos estilhaçamos de espanto por estar aqui no caudal das ocorrências, a batata que frita na frigideira, a dor da morte e a luz da tarde que reverbera na água do rio, o som do eléctrico e a voz de quem nos ama a acolher-nos. Nada contém ou exprime a vida em ocorrência bruta, nenhum conceito, nenhuma palavra, nada de essencialmente analisável, indizível directamente por representação alguma – é da ordem do eco, do silêncio, do sugerido e indicado, do indirecto.

A aragem duma poesia, o silêncio ecoado na música, o espanto da consciência a olhar para fora de si – sem visão directa e só anseio interior, aberta à voz que vem de fora.

O cristianismo é um acrescento, não é uma descoberta. Onde não há nada ele põe, modus ponens ilegítimo, sem esgrima e sem dedução, a alegria do improvável evidente.

Toda a noite cantei e meu amor silenciou, calou fundo a sua voz – revelando-me assim a sua presença.

E todo o resto daqui toma fonte, da viva voz da vida, do coração da vinha e da sede, da aliança e do abismo, do amor e da separação – de toda a noite o canto sobre o medo no sol do meio dia.

É um trabalho de cigarra, também. Da profecia como presença que me implica – e a que digo sim, ou não, mas nunca tanto faz, nunca, nem a mais miserável cigarra, a mais desconsolada formiga ou fossilizado besouro. Esta indiferença é morte – distracção, evaporação. Como poderá cantar quem não escuta a música?

Só o sim de Deus e dos que o acolhem, ou o não dos anjos caídos e dos humanos em desespero – tocam o âmago da vida, o estertor sagrado de haver coisas, o espanto da vida que se vive e fala. Só Deus ou o diabo e as almas são verdadeiros, porque precisamente – são o sentido da realidade, o seu aspecto interior e anterior.

(Senhor Deus do universo, dá-me um coração puro, do céu que é a tua morada, dá-me um coração puro, dá-me a vida somente nada mais.

Amen.)