segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Figura

O tecnocrata senta-se à mesa, e o sentido desta jamais será a comensalidade; nem os papeis pousados se dirigirão para a sabedoria ou para a poesia; o tecnocrata senta-se à mesa, dedicado à mais ou menos tranquila aniquilação de tudo o que é vivo, pulsa ou respira. A comida que houver será estrita e regrada alimentação; e as palavras que se disserem ou escreverem, assim como as relações a acontecer ou a suster, serão as de um jogo que não remeterá para nenhuma realidade senão a do próprio jogo, cuja ilegítima instauração será a pretensão de abarcar toda a realidade efectiva e possível, ou de ser a ordem interna desta. Assim, ao tecnocrata também corresponde o policiamento mais ou menos tranquilo de todos os elementos ilegitimamente identificados como desordeiros, e tudo o que à mesa não tiver uma função determinável será rechaçado com toda a violência requerida.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Anjo de guarda 3

Não te venhas meter com o divino, nem ao de leve, se não queres transformar tudo de fio a pavio, a começar pelo que te é próximo e te é.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

É o ciclo dos cios, passarinho


a J. D. Salinger



António dirige-se ao telefone que engole as moedas num estertor de fundo de túnel, - Estou?...


- Então? Já estou pronta há que tempos?

Um riso soluça. - Sim, eu sei, vi agora as horas... - No céu o sol ferve globo encarnado. - Estou aqui no Cais do Sodré, num instante estou aí.

- Espero que sim, é sempre a mesma coisa. Quando não me deixas pendurada e nem sequer apareces... - A voz de Marta sugere-lhe um fino fio de água, fresca. Sorri. - Não sejas parva, adoro-te...

Marta olhasse triste, - Num segundo estou aí, - O riso se afoga no sorriso, a liberdade no sentimento e na memória, - Até já, - Marta sorrisse.

A boca do telefone pousa-se no descanso afunilando o túnel. António escorre a cerveja até ao fim. Dá uns passos e atira a lata para o rio. O sol afunda-se no horizonte. António solta um soluço. Saca outra lata de cerveja e põe-se a caminho.

Marta olha o relógio da sala com veemência calculada. A campainha toca. Marta levanta-se e vai abrir a porta.

- Serves-me um gin?, e Marta move-se, devagar, como uma zanga. Seus olhos castanhos fixam os de António ao passar-lhe o copo para as mãos. Depois respira fundo como se suspirasse de cansaço ou tédio e vai sentar-se no divã.

Aquela sala pesada e fechada, estátuas, espadas, máscaras e toda a espécie de objectos coloniais dispostos ali em escura imobilidade, os móveis de madeira envernizada, grandes e coloquiais, as cortinas grossas e bêges nas janelas. Era uma casa onde toda a gente andava a medo, em sombra e silêncio. Sempre irritara António, toda aquela altiva subserviência de novo rico que o ambiente da casa lhe significava, como um suor emanando das paredes. No entanto ria para Marta, divertia-o aquele exercício de vontade que ela impunha à cena como um capricho, aquela necessidade imediata das coisas serem como ela as deseja, sem esforço de obtenção. Divertia-o e agradava-o, pois a subtil tensão desse jogo solidificava a beleza de Marta, definia-se-lhe o corpo no espaço pela intenção que a movia, tornando os seus gestos movimentos e suas palavras esboços de expressão profunda.

António escorregou para o sofá frente a ela, - Escusas de estar com esse sorriso trocista nos lábios, sei bem que te estás a cagar. Estás bêbedo. Desde há uns tempos para cá que estás sempre bêbedo, e estás-te a cagar para tudo.

Sufoco, Marta move-se num impulso de irritação, a pele branca no tecido negro, leve, - É verão, Marta. O leopardo avança dentro do seu próprio rugido. Como te tocando com as mãos, o teu corpo entranhando-se no momento com a clareza da minha tusa. Basta-me semicerrar os olhos esvaindo-me um pouco na respiração como um sorriso de cansaço.

- Estás-te a enublar. Derretes-te na atmosfera.

Levantou-se e sentou-se à pequena secretária com espelho junto à janela, fumando um cigarro. Acabei o copo. Gotículas de suor perlavam a minha testa.

Marta poisou o cigarro no cinzeiro e tirou o gancho do cabelo.

- Já não vou à festa, disse despenteando o cabelo. Serve-te de gin à vontade, é oferecido.

E é a irrupção do fado, pensei – como o desejo de fechar os olhos, só por um bocado, o tempo de.

Cantarolas, irritante, como um disparate, e cais como num deslize por cima da pequena mesa do telefone e das pequenas cabeças de pau preto, djinns do vazio, da inexistência, que se espalham pelo solo à tua volta, e ris rebolando sobre ti próprio.

- Olha lá o que fizeste!, exclamou Marta aproximando-se. Semiergui-me apoiando o cotovelo no tapete macio.

- Não sou eu o realizador do filme, passarinho.

Marta ajoelhou-se a meu lado, mostrando as pernas.

- Esse sentimento de pena pelos dias perdidos, comecei, e depois não recordo o que disse, falei um pouco, me lembro, e levei as mãos às pernas, redondas, - Tira as patas!, gritou Marta num empurrão de consentimento, e deixei-me ficar encostado à parede, olhando-a rasgar-se num esgar de força e fraqueza, alegria e ressentimento.

- Serves-me um gin?, pedi.

- És um filho da puta, disse ela, Um grandessíssimo filho da puta, e desatou a chorar em soluços convulsivos como gritos.

Não consegui sentir nada. Como se o sofrimento dela fosse um reflexo ou uma projecção. A representação de algo e não a sua existência. Uma coisa morta. A vida. O choro dela embatia no riso que me impelia para o mundo e dissolvia-se na memória como se já fizesse parte do passado.
Um súbito enjoo enredou-me todo. Deixei o vómito escorregar pela boca.

- Merda!, articulou Marta nos soluços, Olha para isso, és nojento.

- Quando te conheci também desatei a vomitar, disse eu levantando-me a custo com a ajuda da parede.

- Cuidado com o espelho!, soltou ela levantando-se.

- Desatei a vomitar, Marta, tinha de te foder até te matar. E agora estás morta por outro modo, percebes?

Ela rebentou, e desatou a agredir-me de mãos fechadas, acertando-me no rosto, não me magoando muito com os seus gestos contidos como que significantes do conflito sentimental que eu lhe provocava. Acho que me queria pelo amor que vivíamos e odiava-me pela saturação das formas desse amor. Era como um desespero de existência. Empurrei-a, ela caiu por cima do sofá. A sua queda despertou o desejo em mim e eu sorri.

Ela levantou-se e ficou em pé no meio da sala, passando a mão repetidas vezes pela cara com gestos nervosos.

- Que se está a passar connosco, António?, choramingou.

- Nada, respondi. Não é connosco.

- És um cabrão, soluçou ela no choro que recrudescia como um comboio desgovernado, Tudo o que vivemos foi para nada, nada... António, baliu ela de rompante, Que se está a passar connosco?!... E aproximou-se de mim em tremores como se fraquejasse tremendamente e ali fosse morrer. Abracei-a com todo o meu corpo, agora não lhe importava o vomitado, e apertei-a com força contra o peito.

E despoleto os desastres na incongruência do meu desejo de aceleração. Empurrei-a, peguei na garrafa de gin e saí porta fora. Desci as escadas num spide, quase aos trambolhões. O ar da noite estava quente como o bafo dum animal. Sentia-me dessintonizado por causa do gelo que percorria o meu pensamento e desatei a correr animal adentro como se fechasse os olhos. Hei-de beber à saúde dos mortos, ou desmaiar de cansaço. As luzes da cidade pulavam à minha volta como que descomandadas, acompanhavam a minha respiração cada vez mais ofegante. Era como se uma multidão me envolvesse e se fossem afastando de mim as pessoas, histéricas e rápidas, à medida que corria. Era bom. Acabei por encalhar num poste e o enjoo final abateu-se sobre mim com todo o seu peso. Vomitei tudo o que comera e não comera em convulsões que me sufocavam. Por fim, deixei-me cair no chão aliviado. Golei o gin até ao fim e acendi um cigarro. A noite caiu por cima de mim.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

deus é o veneno que cura.