segunda-feira, maio 29, 2006

Pequena flor – à memória de Guy Debord

O que se passa é que não se sabe se o que primeiro se passa serão ideias. À partida, não parece. Está-se na vida como um tiro e queda, não temos bem a impressão de ter existido antes de vir à luz da terra, nascemos para aqui de súbito, mas esta impressão e suspeita de ser – é confusa e obscura. Não faz perguntas, e nesse silêncio interpela, porque é a única porra que não está lá, porque é a única coisa que é tudo – acompanha-nos sempre, quero dizer, o estar aqui, agora, o inacessível estar aqui e agora. Antes de lá chegarmos, já passámos – e ficamos com a representação do que passou no passe de nós passando. É passados de passar que ficamos, vivemos sempre – sur le passage de quelques personnes, à travers une assez courte unité de temps.

E como é evidente, não tenho bem a certeza se viveste ou to viveram, pobre eu, foi a passar de te passar, de te escorrer, que viveste agora pois, mesmo agora.

Onde vais, pequena escuridão?
Vou para a luz, ver a minha noite.

terça-feira, maio 23, 2006

Desabafo apocalíptico

Este deus que se revela em Jesus Cristo é completamente doido. É tão louco de amor, que abraçará no seu seio os anjos caídos. E estes, só não se deterão lá, se não o quiserem e desejarem. E ele os deixará ir, por puro amor – para não violentar-lhes a liberdade, esse bem supremo e divino.

E tudo isto e infinitamente mais ele faz, continua e eternamente – por dentro das coisas e histórias, como é sua essência. Nós não notamos, mas a luz resplandece por dentro de todas as coisas e seres.

Que Deus seja louvado e amado e vivido, no céu e na terra, na amizade e na inimizade, no desespero e na alegria, na dor e na serenidade.

Aleluia, aleluia, aleluia!

Seja feita a Tua vontade.

Ámen.

quinta-feira, maio 18, 2006

Beijo

A Sua exterioridade, é a nossa interioridade.

segunda-feira, maio 15, 2006

Cor nostrum

O que és tu, meu Deus? Sei que és o infixável, o sussurro que percorre todos os momentos e coisas e por vezes, oh quão tanto e apenas por vezes – mal me tocas e eu fujo. E sei quão pouco és dessas fugazes impressões da minha carne anestesiada, que sugerem mais a tua ausência em mim do que a tua presença viva nos dias e nos sentidos.

O que és tu, meu Deus? Sei que estás substancialmente nas espécies eucarísticas, e que és o laço que fulgura em toda a abertura amorosa que nos dilacera perante um céu estrelado ou um rosto humano, uma mancha ocasional na parede ou o som do vento agitando os cortinados. Sei que és a beleza negada do mundo, e sei também que és na morte que me contempla e acolhe desde antes de eu sequer ter nascido. Sei que és na incarnação e no corpo místico. Mas tudo isto são formas incompreensíveis de te saber. Sei que te sei sem te saber. Porque e como me chamas não sei, mas sei que não o fazes directamente naquilo para que me dirijo, igrejas e sociedades, clubes e ideologias, identidades e confrontos, saberes e poesias, tecnologias e contratos. Como e porque me chamas não sei, meu Deus, a mim que de algum modo – de ti, certamente – amo a vida e nem por isso, o aqui estar no escorrimento dos dias e das noites, na deflagração e soçobro em que tudo acaba por se nadificar, sem antever sequer um pequeno motivo ou horizonte que a tal dê sentido.

O que és tu, meu Deus? Sei que podes tão marcadamente afirmar-te na tessitura das coincidências e discordâncias, e tão mascaradamente indefinir-te nessa mesma tessitura. Que podes em viva voz penetrada na minha revelar-me sinais e sentidos e nunca te esgotares neles. Que podes em ocorrências mostrar-te e guiar-me, numas simples palavras vindas do televisor no café e recontextualizadas em mim tão gritantes e confusas, ou num texto teológico trazido à minha ansiosa mente numa conferência ou pousado a meu lado no banco do autocarro onde me sento. Que te mostras e apelas nos confirmadores e contraditores e indiferentes – mas que mal volvo a atenção para te fixar, te propulsionas em suspeita e procura e desejo. Sei que te realizas em mim em toda a ternura e força com que me disponho a acolher a vida e a morte, em todo o esquecimento e consciência com que me disponho a crescer com os outros, com as plantas, com os animais, com as coisas, e sobretudo em todas as disposições que me cindem em bem e mal, justiça e injustiça, beleza e tédio, merda e maravilha – e em que cegamente toco a carne de que sou feito e assim chamada a trabalhar-se, a edificar-se, a reunir as asas e a queda nessa indizível linha que ambas supera.

O que és tu, meu Deus? Sei que és a resposta silenciosa à muda pergunta de que fujo mal sou e existo, e que não descansarei enquanto a minha vida inteira não assentar no teu mistério.

segunda-feira, maio 08, 2006

Bazófia

Ele não sabe doutrina, teologia, exegese, pastorícia, coisa nenhuma.
Tenta olhar para as coisas de frente – apenas porque lhe doem.

O problema dá-se na própria consciência dessa vontade, que ao duplicar esta na reflexão e na interrogação, anula irrevogavelmente a execução plena e directa dessa mesma vontade. Sente que tem de projectar essa reflexão para algum contentor, nem que seja o discursivo. No fundo, trata-se de se libertar dela, como dum escolho, duma hesitação, um adiamento do estar e da acção, uma distracção.

E então parece que fala, que acede a qualquer coisa, mas ele sabe, isso sim, que o vento, se sopra – é lá fora que algo fustiga.

(Mas mesmo isto dizer – não passa da mesma treta. Por outro lado, a verdade é que não tem outra hipótese que lhe seja oferecida. O único perigo é confundir os sinais com o próprio caminho, e imobilizar-se neles pensando que caminha.)

quarta-feira, maio 03, 2006

Etimologias 3

Deus – não é a verdade no sentido do seu conteúdo ser verdadeiro. Não se trata do enunciado “Deus qualquer coisa” ser verdadeiro ou falso. Deus é a verdade no sentido em que é aí, e só aí, em Deus – que se dá qualquer verdade.

As coisas não mudam na consciência mística, mostram-se tanto só iluminadas por dentro a partir do seu fundamento.

A verdade dum enunciado qualquer depende da coincidência com o verbo divino, explicita ou inexplicitamente – e torna-se anunciação deste.

Deus não é um conteúdo – antes um revelador de conteúdos.
Cristo é o humano revelado na sua inteireza de sentido.
O sentido do verbo divino não é o de ser um enunciado – é sim o que enuncia as coisas, tudo o que há e pode ou não haver.
Jesus é simultaneamente o verbo revelado, e uma singularidade própria e única.

Luz verdadeira de luz verdadeira – tanto só. Pura possibilidade de sentido, pura evanescência para lá do ser. Por isso incarna sem elidir nem destruir o humano singular em que incarna. E no fundo quase diria: sem lhe acrescentar nada, pois que é na sua inteira humanidade e singularidade, que se mostra o rosto de Deus, uma humanidade como a de outro qualquer, tão pequena e imensa como a de qualquer samaritano ou fariseu com os seus nomes próprios.

Deus - é o que dói no inacabamento de seja o que fôr, uma relação de amor ou uma descoberta científica, um pequeno almoço ou uma sublime obra de arte. Porque todas as coisas se buscam a partir de si próprias, e só encontram interrogação. Lá no fundo, lá no fim - onde dói.