segunda-feira, abril 30, 2007

Curral

C' est très simple: respeito e delicadeza perante o mistério de haver vida, os outros, as coisas, nós mesmos.

Espanto e tremor, a frágil e inanulável presença. Aqui estamos e nada mais, o fundamento dos fundamentos, das bases de qualquer edificação, de qualquer isto que haja. Sabedoria da pedra e dos ventos, silêncio de toda a palavra e inteligência. Coisa bruta. Aqui e nada mais, estar, haver. No pequeníssimo e primeiríssimo instante de reflexão, no fulgor breve da apreensão de si, primeira palavra sem nome, primeira e única inominável palavra de nós. Puf. Estás aqui, aí. O tempo atravessa-te com todas as coisas e acontecimentos, pessoas, doenças, injustiças, gestos de amor e interrogações, sempre, a cada passo e instante a vida sempre interrogante, que resposta tens, humanauta, para esta situação, e esta, mais esta e esta e esta, sem parar, pensas que estás aonde com as tuas distracções, porventura pensas que estamos a brincar?

Todo o instante e situação requer uma decisão, quer a tomemos ou não. Era o que os antigos reflectiam ao afirmar que a vida é uma questão séria que só a ironia pode resolver. A trágica comédia da vida, quase toda padecida, tantas vezes cantada e trambolhada sem ser embrulhada como na prosa do tio Camilo ou no feeling do desconhecido que se entristece ao nosso lado no balcão do bar, todos ali sentados com o nosso haver ser. Que fazemos?

É nas entranhas da alma que jazemos sentados, aqueles rasgados pela saudade do que ainda não viram, platónicos e românticos e cansados de esperar. C’ est três simple, quand même, lá no fundo e na superfície, todos gostaríamos que o mundo fosse amor e esplendor e no entanto que fazemos.

segunda-feira, abril 23, 2007

Virtù

Pequena flor, sabendo que a terra em que vives te tragará.

São as tuas pétalas que dão luz ao sol.

segunda-feira, abril 16, 2007

Luterana

Por interpelação

de
Bernardo Motta


Caro Bernardo.

Não faço a mínima que “intelectuais” iluministas anda a ler ou a ouvir, mas de Kant a Ricoeur, a actividade de esclarecimento da razão a partir de si própria, distancia tanto a ética da moral como a física da engenharia. Há uma distinção estrutural, isso sim, em que a ética corresponde, grosso modo, aos axiomas formais, e a moral à regras de conduta atinentes a estes axiomas (exemplo usual: o axioma de toda a pessoa ser um fim em si mesma, implica na prática regras de não manipulação nem abuso do outro em proveito próprio).

O que o iluminismo lhe poderá advogar é uma interpelação à religiosidade que extravasa os “limites da razão”, na sua relação com as determinações éticas. Eu considero que o que funda e orienta o chamamento ético é da ordem do supra-racional, se quisermos, ou melhor dizendo, que extravasa as categorias humanas, pelo menos no limite em que não estão ainda transfiguradas em Deus. A razoabilidade ética no seu limite, é como alguém a cair no vazio, que tenta suster-se agarrando-se a si próprio, para usar uma imagem do amigo Kierkegaard.

Na axiologia ética moderna, há evidentemente, como em qualquer actividade intelectual e época, uma catrefa de sentidos e tendências. Mas de modo nenhum há uma tendência geral à relativização axiomática, ou pior ainda, à consentualidade quantitativa dos mesmo (nem o Popper reduz a verdade a tal). Os axiomas não vão a votos, mas a debate e crítica intelectual. Embora hajam analogias e contaminações sócio-culturais em todas as áreas da sociedade, convém não confundir o debate espectacular orientado pela audiometria, com a actividade filosófica moderna e contemporânea.

O que se passa, parece-me, e talvez tenha algo que ver com o que preocupa o Bernardo na sociedade ocidental contemporânea, é que certas forças governativas se desligam gradualmente da actividade intelectual, e se orientam cada vez mais pelo espectacular, permitindo mais do que em quase todos os outros momentos históricos e geográficos, a produção de ilusões e mentiras com que certo poder finge dar voz àqueles e àquilo que representa ou deveria representar. O público torna-se publicitário. Nesse sentido, o referendo ao aborto corresponde evidentemente a um jogo viciado em que o que se pretende está ofuscado por uma representação e discurso do seu contrário. Aqui, estou formalmente de acordo com o Bernardo. Não sei é se, perante tal situação, devo ou não ir a jogo (isto é, votar).

Bem, e quanto ao Rousseau, que eu nem aprecio grandemente, o seu discurso de modo nenhum tem que ver com o que faz dele o pensamento audiométrico contemporâneo, no seu recalcamento e repressão das forças vivas, e perversão de sentido típicas duma estratégia de manipulação que, em conivência com os seus métodos, representa-se combatendo aquilo que efectivamente está defendendo – neste caso, a ilusão ou mentira duma aferição histórica e filosófica e, o que é mais sério, de aferição real de si próprio. Na ordem filosófica, trata-se de não se deter projectado e alienado em representações desvitalizadas, que impedem o acesso e produção duma autêntica e vivida tomada de consciência de si. (Aqui ecoa algo de a-histórico, e que não se reduz às desvitalizações contemporâneas. Também no uso de representações religiosas pode haver uma inadequada subsumpção da vida. Pôr a carroça à frente dos bois, só serve para bloquear o andamento de ambos. Do ponto de vista cristão, caberia aqui e também, falar do acesso às espécies eucarísticas. Sabe, cristológica e vitalmente, nós somos todos doentes existenciais – isso é a realidade do pecado – e a Igreja é o lugar onde nos curamos, ou não é nada. Requer-se não uma saúde espiritual asseguradamente efectivada, mas a interiorização do factor contrário – isto é, o pecado – e o cuidado em julgar seja do que fôr, que decorre precisamente da tomada de consciência da doença existencial de base. No limite, não nos valemos de nós, mas de Deus.)

Mas voltemos ao menos sério, isto é, deixemos o religioso para depois. O “selvagem” de Rousseau é uma figura conceptual que se configura numa antropologia fundamental, e não nalguma etnografia ou etnologia. Corresponde ao pressuposto (e aqui é que o meu achaque e suspeita se levantam) dum conceito de hominização pré-contratual, isto é, formalmente anterior a uma sociabilidade organizada (formalmente, e não concreta nem dinamicamente, visto que na realidade, a hominização e a sociabilização são evidentemente simultâneas). E o que essa figura de pressuposição de sentido traz ao pensamento, é a liberdade como fundadora do humano. Não se trata de afirmar que a bondade primeira é reprimida e destruída pela sociabilização (embora naturalmente isso possa acontecer, e a tomada de consciência constitui também, como é evidente, uma chamada de alarme), mas da evidenciação de que a sociabilização deve tender a orientar-se para o desenvolvimento mútuo da liberdade (e aqui afloramos o aspecto ontológico ímplicito nos textos de Rousseau, e de que Rousseau raramente fala directamente). Ou, se preferirmos, de que a pessoa é anterior, formalmente, a qualquer organização colectiva que a partir dela se constitua. Um pouco como o outro, que dizia que o sábado era feito para o homem e não o contrário.

(Esta perversão de sentido do essencial dos textos de Rousseau, quase nada é, quando comparada com o que as forças da repressão e do recalcamento fizeram da obra e imagem do ilustre Niccolò Machiavelli. “Entre outras coisas que mostram o homem tal como ele é, não é negligenciável ver até onde podem ir, por um lado a sua credulidade, por outro a sua astúcia em forjar estórias com que quer persuadir outrém.”)

Acabo – et pour cause - com uma remissão religiosa. O pecado é algo de muito fundo. Não basta o tribunal da razão ética para lhe fazer o cerco. Muito pelo contrário, ele escapa-lhe por entre os dedos, tornando a própria razão pecadora, juíz que sufoca a vida em que o pecado se dá, sem libertar deste nem o detectar claramente.

Porque o pecado não é a quebra da lei ética – esta é um dos seus sintomas, digamos assim - mas o motivo e motor obscuros dessa quebra e fuga. E aqui fulgura a estonteante questão: quais são verdadeiramente as forças e obras de Satanás.

Um abraço.

Nota: Na releitura deste texto reparei numa coincidência do termo “espectáculo” com o blog do Bernardo. Que fique clara a equivocidade de contextos: a noção de “espectadores” que está em jogo no blog do Bernardo é a de observador da realidade através da análise e da reflexão. O que evidentemente, não tem nada que ver com a noção de “espectáculo audiométrico” que está em jogo neste texto, mas precisamente o seu contrário.

segunda-feira, abril 09, 2007

O halo, por trás dos prédios

Para Dennis McShade

Era uma porta de madeira e abriu-se, eles desciam a escada, mão na mão, o cigarro apagara-se-me nos lábios, alguém olhava a chuva através da janela; a festa era mesmo uma merda do caralho.

O portão fechou-se, eles caminhavam pelo passeio, rentes ao muro, eu lembrava-me do vice-cônsul virando-se e sorrindo.

Melancholia, os lábios. Sim, lembro-me ter pensado, Os cavalos assustam-se ao aproximarem-se da fogueira, e relincham. Agora chovia também e Nahabi crispava as mãos no volante numa subtil tensão. Eles aproximavam-se. Nahabi destravou o carro e deslizámos. O sono do mundo era agitado.

- Merda, Nahabi, é ela?

- Claro. Ele é doido como todos.

Sleeping assim saímos, como um bar perto dum beco, um animal enraivecido, trata-me da saúde. O vice-cônsul tinha uma barbicha pontiaguda que parecia mover-se nervosa. Os seus olhos pequenos fixaram-nos com as suas pupilas negras como se nos espreitassem. Cheirava a água tépida, um cigarro molhado em azeite. Causava asco.

O outro surgiu como que do nada, surgiu assim, sacudia-se todo, como se os músculos lhe funcionassem em sacões nervosos. Fremia-lhe uma agitação na pinha, via-se bem, e com o gancho de talho que tinha na mão não era nada boa combinação. A miúda tirou o véu e pôs-se a olhar para ele com uma expressão de indiferença. O vice-cônsul deu dois passos para trás e encostou-se ao muro, calmo e morno, como se sorrisse e sorvesse um gole de licor.

Naifa eu não tinha. Rezei na certeza que Nahabi teria uma e dirigi-me ao frenético. Ele investiu logo, como uma máquina numa reacção imediata. Atirei-me para trás e embati no carro. Rodei sobre mim, tinha de mover-me rápido até readquirir posição em que pudesse olhá-lo. Estatelou-se contra o carro, atirei-me para a frente, tropecei e caí, Merda, pensei, o gajo tem uma convicção de tarado, de completo obcecado, continuei a rolar, saltei, e da sua imagem na minha retina ao pontapé pelas costas foi um ápice de receio, um instante imperceptível. O gajo abateu-se no chão, mas de imediato se pôs em pé com a mesma agitação. (Foda-se, aquele fanático ia dar cabo de mim, era desta, merda de sonho, mas a morte surgindo à nossa frente, mesmo que apenas na falaciosa intuição do instinto e do hábito, pois ainda assim previsível e provável como o rodar de um volante, porra, sabem, barrando-nos a passagem, que o medo na imaginação a torna facto, é assim um medo violento mas em mesmo lugar alegre, como uma excitação, porque nos apercebemos que nunca foi morte o que tocámos mas apenas concepção projectada, reflexo de si, e que é algo que não conhecemos de forma alguma, em tempo nenhum, estão a ver, tem o mesmo espanto que uma revelação, que algo que nos transforme completamente. É uma percepção muito rápida, um balançar num abismo, um instante de respiração cortada e tortura em que a escolha entre cair ou não parece estar fora da nossa vontade e controlo, é outra coisa, como o reino do acaso.) Atirei-me para trás e gritei, o gajo já estava de costas, era o milagre da reza a acoplar-se à minha decisão fora de mim, Salam alaikum, disse Nahabi, e espetou-lhe a navalha nos costados. O bruto caiu devagar e aos sacões de soluços como um animal chicoteado. A miúda tapou a cara com o véu. Deen die Todten reiten schnell, disse o vice-cônsul, os cavalos relinchavam que nem doidos, a fogueira acalmava-se assustadoramente.

Respirei fundo. Estava completamente estonteado, os dedos dos pés e das mãos dolorosamente crispados. Sentia-me frio, como um pedaço de metal, a mente atirada ao chão como um fruto à parede.

Pessoas apareciam das janelas e portas, enfim, acabávamos por conseguir conversas bastante comunicativas, o cabrão do vice-cônsul podia apontar-nos uma pistola e gritava Lupo! Lupo! Lupo!, metemo-nos no carro, o chiar dos pneus, a chapa batendo, as chamas e eu pensei Merda, estes gajos falam demais, nós. Era o que dava as ideias à toa no feeling, por mim tra-la-ia já connosco, a sua mão parecia necessitar da minha, mas Nahabi recusou-se e basámos dali enquanto a multidão se aproximava, a ressaca acabava como sempre começara, a pausa, corríamos pelo sol enlouquecido e as janelas dos prédios abriam-se e fechavam-se estalando à nossa passagem, corriam à nossa volta, uma confusão de gritos e passos, já não podia mais, estava a rebentar, Nahabi, que se foda, vou parar, porra, é como se caísse em passos largos contra uma parede, escorrego até ao chão, é a cabeça a rolar completamente perdida, tonta, o chão molhado, o coração como um martelo batendo.

Estávamos sós.

A rua era escura. Os poucos candeeiros que ainda alumiavam mostravam portas e janelas fechadas com ar de abandono. Havia um silêncio que parecia esmagar-me de encontro ao solo ou era uma discrasia total, no corpo destrambelhado, exagero. Nahabi sentara-se a meu lado suspirando como se morresse, a pouco e pouco focavam-se os olhos, a consciência voltava ao pensamento, redefinindo a pouco e pouco o espaço, nem dei importância, era mais uma chaladice, mas às tantas enquanto me recompunha e já estava melhor aquela imagem rebentou-me nos nervos, pois era a miúda que eu via olhando-nos, era ela, estava sentada no umbral duma porta e quedava-se num estatismo que a mim parecia extático. Desta vez é que estalara tudo.

Estávamos sós e ela olhava-nos. Cada vez percebia menos as desembocaduras da realidade. Afinal, tínhamos ido ao suk comprar café, entretive-me numa conversa de olhar com uma mulher que tinha uma pistola na mão e ma apontava. Há três dias que era tudo um sonho, já percebera. Sorria como o mundo a nascer.

Nahabi aproximou-se da miúda e ajoelhou-se à sua frente. Ela rodeou-lhe o pescoço com os braços e fechou os olhos. Era um belo modo de não questionar o acaso.

- Vamos embora, disse eu já recomposto do medo, urgia agora encontrar um sítio para descansar, um espaço qualquer que se fechasse e nos permitisse parar.

Metemo-nos à estrada. Era já noite cerrada e a criança adormecera.

segunda-feira, abril 02, 2007

But there’ s method in his madness

A ideia de que a dor não é propriamente um mal, inverte e confunde toda a nossa tendência de orientação, na violência com que o critério de prazer e desprazer é interrogado e interpelado, sacudido.

Padecer de outrem – da pequena vibração do átomo ao assombro do olhar de outrem, da alegria que freme num sorriso à ameaçada melancolia com que olhamos o tempo devorar todos os seus filhos, nós e tudo o que acontece.

Dito de outro modo – estar vivo, mortalmente vivo.

Unir o acto à existência, é a dinâmica anterior, a acção com que a realidade seja do que for – se constitui e acontece.

A tensão entre poder ser e não ser , é a vibração de todo o intenso átomo de tempo, a força com que outro seja em que situação for – nos fita com os seus olhos vivos e despertos, olhos que um dia se fecharão como que para sempre.

Que loucura, Senhor, poderá enunciar a morte sem soçobrar?

(A dor, afinal – uma das filhas dilectas da liberdade.
Revela-se que toda a dor é primeiramente – uma decisão.
Nenhum olhar humano consegue contemplar e contemplar-se, nessa incalculabilidade profunda da vida, que a nossa razoabilidade, prenhe de causalidades e confundida nas casualidades, não consegue abarcar, mas por ela é abarcada e transportada, e até – fundada.)

É com voz nunca ouvida que a realidade diz o seu sentido, esse sentido em que nada morre e se esvai mas fica pousado no olhar que o sustenta e mantém, vivo como no primeiríssimo momento agora e para sempre.

Ámen.