segunda-feira, outubro 24, 2005

Catecumenato

Correspondentemente a não ter ainda efectuado o rito do baptismo, o que eu acho é que, no fundo, não passei ainda do grito de apelo, e o eco do anseio é longínquo e fugidio, ou eu é que sou fugidio a ele, e por isso tanta bazófia, tanta discursividade, é uma forma de falar com o quase silêncio, ou dele falar, do todo murmúrio.
E talvez por não ter ainda efectuado o rito do baptismo, penssinto que é semelhante para todos nós, cristãos, quero dizer, somos catecúmenos até à morte e ao purgatório, mas sei lá eu o que se passa com o murmúrio dos outros.
Enfim, não tendo ainda efectuado o rito do baptismo, tudo isto é dito num tom ligeiro – mas quem é que apreende real ou totalmente a revelação? É como uma música, de algum modo sempre igual mas tocando-nos de modos diversos sempre que a ouvimos, mostrando-nos dia após dia, aspectos de nós próprios que desconhecíamos.
Ou então não trata de Deus, não é a verdade que revela.

Quem tem fé? – é a pergunta evangélica mais terrível.
E que fé é requerida, que anseio suficiente – para dizeres sim, agora com mais força.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Ponto 2

Há Deus.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Diversidade

Talvez já nada no mundo tenha possibilidade de ser um campo unificado. Embora não se possa dizer que, por exemplo, os africanos se libertaram económica e politicamente, é inegável que em termos de validades discursivas das diversas culturas, um alargamento do “quadro de referências” ocorreu; por outro lado, este alargamento, embora ainda muito integrado a partir duma cultura “dominante” (a “ocidental”), contextos referenciais imanentes ao alargamento se introduziram no campo discursivo e cultural (assim o rock sem os blues e este sem etc etc). De modo similar, adentro da mesma cultura, o centro referencial multiplicou-se – deixando assim de haver centro. O que não significa que não haja “centros” com mais poder (meios, dinheiro, apoios governamentais, etc) do que outros. Significa sim que, aparentemente, uma libertação discursiva das culturas se patenteia mundo fora, mais aqui e menos (por vezes muito menos) ali.

(O “aparentemente” é muito importante, mas para o caso não falarei disso.)

É evidente que esta macro-generalização não dá conta adequadamente da realidade; serve no entanto para situar o que quero dizer.

Dá ideia que, estando nós continuamente confrontados com identidades diversas e sua colocação flutuante no todo em que pensentimos inserir-nos, em vez de nos abrirmos ao outro, executando a nossa singularidade em contacto e conivência com a do outro, nos crispamos e tomamos o outro como uma ameaça à nossa identidade – e isto, sem um gesto ou atitude prévia de agressão do outro. Desatamos aos gritos e desacatos como se a nossa identidade tivesse sido invadida e sacudida nos seus fundamentos. Consideramos a estranheza do outro como uma ameaça, e tornamo-lo inimigo. Este pânico generalizado tem consequências algo peculiares.

A busca desesperada de identidade anula totalmente a singularidade vivida (a minha identidade passa a ser a de membro do clube gay contra etc, do clube cristão contra etc, do clube desportivo contra etc, etc etc e dentro desses clubes da facção X contra a Y e por aí fora). E, como se sabe, só as singularidades pensam e reflectem, dado aliás que só as singularidades existem. Para haver comunidade, cada elemento deve ser uma singularidade e não subsumir-se completamente numa identidade colectiva que só se valida como segundo momento. Tanto as singularidades como as comunidades perdem vida, tornam-se mortos, e morte. Vivo, neste contexto, significa que a identidade é constituída por um conjunto de constantes, aliado a um conjunto de variáveis – e que estas permitem a interacção dinâmica com o redor. A tendência a tornar as variáveis constantes num suposto reforço da categoria identitária produz entes petrificados que só podem destuir o redor à medida que se movem e não respiram. E só as variáveis permitem o contacto vivo que permita “encontrar” ou “produzir” fundos comuns e diferenças reais, e não de mera representação sem esclarecimento. E o facto de se usar a torto e a direito um termo bacoco como “tolerância” é para mim indicação do mesmo disparate, só que aqui travestido de comunicação e inter-integração. Tolerar, é precisamente definir como inaceitável mas que por força das circunstâncias se “deixa estar”. Não é o que as pessoas a maioria das vezes querem dizer quando usam este termo, bem sei, mas de qualquer modo…

Todas as “áreas” se podem fechar ou definir como um “mundo”, um conjunto. E adentro destes crisparem-se facções num processo de totalizarização duma parcialidade com pretensão a subsumir em si a totalidade do conjunto. Trata-se aqui duma inversão da dinâmica da vida, em que a parte se sub-ordena ao todo. Como se orienta e determina esse todo sem despotismo parcial, é uma das questões das questões – do cancro biológico às ditaduras e fundamentalismos e etc e etc.

Pode-se suspeitar que é neste contexto que o Magistério Vaticano é teologicamente mais fechado e dogmático do que o era no séc. XIII. Agora, que algum poder político lhe foi retirado e que o mundo se pluralizou local e globalmente (comunicações e transportes) a identidade católica sente-se nalguns sectores ameaçada e solidifica a sua identidade numa assustada contraposição às posições ou identidades diversas. Ao lermos o catecismo “católico” é curioso encontrarmos repetida e insistentemente remissões para os Padres e Doutores da Igreja, com especial relevo para Agostinho e Tomás de Aquino, e muito poucas para teólogos contemporâneos, assim como quase nenhuma para as ciências naturais e humanas modernas. É evidente que Agostinho e Tomás são referências ímpares e incontornáveis na cristandade, mas dá-se aqui uma anulação das referências, visto que a confrontação e discussão com as diversas teses e posições filosóficas, científicas e religiosas do tempo em que viviam lhes é fundamentalmente característica. – e que tal atitude é quase nula no discurso do Magistério. Digo bem confrontação, e não concordância ou discordância. Não se trata de ser “mundanamente” do seu tempo, mas de viver nele e nele se situar, ser contemporâneo de si próprio vivo.

Por outro lado, sendo a adesão religiosa uma adesão a uma concepção da vida e de si-próprio que passa a orientar os nosso pensamentos e actos, ela é de algum modo totalizante da pessoa. Não há – no limite – parcialidade alguma da pessoa que fique “fora” dessa concepção. E mesmo a sempre presente e mais ou menos saudável dúvida e questionamento reside dentro dessa concepção que interroga e questiona. Qualquer coisa do género. A atitude religiosa é algo de fundamental – não se trata de ter uma opinião, de lançar hipóteses para discussão, de definir interesses temáticos etc, mas de algo que nos implica sempre pessoalmente e nos situa no pensamento e na acção, com uma abrangência existencial que se quer total. Ora, evidentemente que numa implicação deste género, o que está em contraste nas posições diferentes tem a tensão intelectual e disposicional que corresponde à implicação pessoal que está sempre em jogo. Daí ser sempre um tema “quente”. A paixão e a violência andam sempre de mãos dadas.

Ainda por outro lado, passa-se muitas vezes que a estrutura pessoal é projectada societalmente, ou se preferirmos a subjectividade (não no sentido que por vezes se dá hoje de relatividade e aleatoriedade, mas, pelo contrário de algo que diz respeito e ocorre no “fundo” e totalidade de si próprio) é objectivada em instâncias gerais. Aqui dá-se uma não-separação entre variáveis e constantes, particular e geral, etc.

Mas isso não se passa apenas na religião.

Esta coisa da multiculturalidade é, para além de um lugar comum, algo de autentificante, sobretudo quando aliada às possibilidades tecnológicas e culturais de comunicação e informação. Imaginemos que esteja a ser dado e construído e defendido um espaço de liberdade em que do fundo geral das diferenças e semelhanças genéricas brotem as concretas e particulares diferenças. Para ficarmo-nos pelo “exemplo” do cristianismo, sempre houve diversos modos de ser e viver-se cristão (dentro de um núcleo constante de identificação), mas hoje a assumpção e visibilidade da realidade vivida e pensada de cada um torna-se um pouco mais possível ou visível. Acrescente-se que o recrudescer da paleta de expressão e representação também permite mais expressões e representações que cubram o vivido.

Mais possibilidade de realidade vista também serve para encobri-la – em modo de exemplo e papo-seco, mais liberdade de expressão permite mais mentira e desinformação e demagogia.

Num mundo globalizado, não há exílio possível – já dizia o outro.

Nota específica de papo seco: Dadas umas reacções bloguistas (inclusive minhas) relativamente ao “tema” homossexualidade lançado por “aí” penso que pelo Timshel ou pela MC ou pelos Dois dedos de conversa ou pelo CA ou “whathever”, digamos que “percebo melhor” agora o uso do termo “fracturante”. A questão cristã que se levanta é: essa tensão e crispação constitui batalha jesuânica ou divisão demoníaca?...

terça-feira, outubro 18, 2005

Bíblia

A leitura directa dos enunciados bíblicos - isto é, sem exegese histórica, temática e estílistica ou, se preferirmos, muita humildade, oração, reflexão e diálogo- para além dos problemas teológicos que põe, impediria qualquer execução da “doutrina” que deles se pudesse retirar, dadas as inúmeras contradições em que se cairia – e nem é “preciso” ir ao Novo Testamento, basta “comparar” certos textos proféticos (como o segundo Isaías, por exemplo) e os textos jurídicos. A ciência, a política, a mitologia, etc, usadas nos textos bíblicos são as da época e regiões. A “novidade” ou especificidade judaico(-cristã) é a de passá-las pelo crivo do Deus único através da oração e da reflexão. É nesse sentido, entre outras “coisas”, que a inspiração em jogo é relacional e circunstanciada.

No caso do Novo Testamento, tratam-se de textos pastorais de comunidades vivas e dialogantes dos primeiros cristãos assim como de cartas dirigidas a essas comunidades. Não se tratam de textos de inspiração mágica em que a singularidade da pessoa inspirada desaparece e Deus ou o que for fala directamente em linguagem humana. Trata-se sim de inspiração dialogante e livre, em que havendo arrebatamento ele é consciente e não anulador da consciência. É o humano que escreve inspirado pela sua relação com Deus.Tratam-se de textos pastorais de comunidades vivas e dialogantes dos primeiros cristãos assim como de cartas dirigidas a essas comunidades. Não são textos mágicos. São textos de pessoas que se relacionam com Jesus vivo e com testemunhas directas da vida pré-ressurreição de Jesus, ou perto disso. São, digamos, discípulos de primeira mão, e daí a sua importância. São textos fundadores, e nós, como discípulos de segunda mão, devemos considerá-los como constante fonte originária de renovação. É aliás deles e a partir deles, equivocadamente ou não, que as críticas mais pertinentes à cristandade têm surgido.

A Bíblia não é nenhum preceituário. É Deus que é “omnisciente, omnipotente e omnipresente” e não os textos bíblicos nem as nossas visões parciais de nós-próprios e do mundo. O erro e o mal são “preço” da liberdade outorgada. A Bíblia não é a “lei de Deus: é o relato e expressão da relação histórica das leis humanas (o Decálogo não “caiu” dos céus directamente…), e de todas as outras determinações naturais e culturais, com o Deus vivo que nos quer conscientes e livres (enfim, mas quem conhece a Sua vontade?...)

Isso não significa que possamos “retorcer” as implicações da fé e da tradição como nos “apetecer”. Significa que determinadas e diversas contextualizações e horizontes de sentido são requeridos, pessoais e culturais.

A Bíblia é sagrada, precisamente por tratar-se do “resultado” da relação de indivíduos e culturas com o Deus invisível, indizível e inesperado.
Nesse sentido, a sua sacralidade dá-se na relação e através do humano enquanto espanto, anseio e terror amorosos.

A Bíblia é um conjunto de textos muito diversos escritos com Deus – contra Deus, em “favor” de Deus, distorcendo Deus, definindo Deus e sobretudo, desejando Deus. E em tudo isso, mostrando Deus indirectamente, chamando-O e chamando-nos a Ele.

A Bíblia, é o meu livro de ilha e cabeceira.

quarta-feira, outubro 12, 2005

Recordação

A primeira vez que rezei, tinha cerca de nove ou dez anos. Foi evidentemente bastante estapafúrdio, de algum modo vergonhoso segundo a etiqueta comportamental do mundo e da razão, pelo menos relativamente ao parco conhecimento que tenho dos seus modos de acontecerem e “funcionarem”. A mim, Ele não precisou de dizer para fechar a porta.

Aconteceu que um colega de escola, que tinha sempre notas acima de 14 me disse quando o inquiri acerca do seu “método”: Na véspera dos testes, rezo e peço a Deus que me dê sempre boa nota.
Não me falou de estudar, ou reflectir, ou assim me lembro eu: pois então rezo, peço ao Senhor do universo, é evidente, para quê perder tempo com circumnavegações, vou a corta-mato, directo ao assunto, então pois… rezo. E foi o que, sem fazer a mínima mas com a audácia e disponibilidade da infância, me dispus a fazer pela minha parte, e pelo mesmo assunto, não fosse alguma improvisação afectar a “verificação” da Sua existência - digo eu agora, algo indiciado pelo toque absurdo de, gostando eu na época de estudar, conversar e reflectir, obter “naturalmente” as notas a pedir ao Improvável e Totalmente Desconhecido. Nem sequer usei o mediador Jesus, penso eu, não tivera catequese “oficial”, e além disso não se tratava de ir a corta-mato directo ao assunto?... Lembro-me de pôr-me de joelhos junto à cama, fechar os olhos e “concentrar-me”, falando e escutando no profundo silêncio da Sua ausência.

“Imaginemos” agora, visto que se ressente o passado na configuração do presente, que “funcionava” – enquanto pedido, obtenção, requisição. Pois nada disso ressinto eu agora como fulcral na recordação – a não ser como instigação à suspeita da Sua improvável mas interpelante existência. Até porque acabamos por perceber que o que se obtém e não obtém por aqui tem o valor da efemeridade, varrido e disperso como quase nada pelo nosso amigo tempo. E recordo-me como confusamente desejando não essencialmente os pedidos específicos, mas a esperança e anseio indefinido de algo que “vencesse” a efemeridade, a existência à mercê dos dias cegos. Qualquer coisa que não tem nome por aqui.

Rezar serenava a violência melancólica da minha infância, depondo-me noutra violência em que a melancolia se transmuda em busca e apelo.

Não se trata aqui de relevar o que de supersticioso e egótico e ilusório e preguiçoso e cobarde e etc e etc pode haver nas orações como em todas as nossas atitudes e actividades, mas sim de entrever o Algo que pode surgir nessa actividade da oração, na atitude religiosa, e que vem pôr em interrogação essa actividade e essa atitude assim como todas as outras. É nos nossos gaguejos humanos demasiado humanos que acabamos por tropeçar para “fora” de nós, onde uma mão nos agarra ou o nada nos dissolve. A que corresponde a actividade da oração e a atitude religiosa – as respostas são tantas quanto as concepções de realidade.

Lembro-me que acabei por deixar de rezar, aquilo assustou-me, era por assim dizer demais para mim – acabei por deixar de rezar, durante cinco ou seis anos.

Isto tem sido uma difícil catequese.

Até porque com Ele nada funciona sempre da “mesma” maneira, não estamos de todo no reino da necessidade e do automatismo.

E o barco prossegue, puxado pela graça e pela confusão.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Decisão

Gostaria que todas as minhas palavras fossem depósito de Deus. Mas não sou nenhum apóstolo. No fundo, mal sou um discipúlo sequer. Tão só um pobre catecúmeno, e talvez dos mais nhurros, dos menos certos e fieis. Falarei no entanto, esperançado que entre outras coisas é isso que Cristo me “pede”, e me possibilita.