segunda-feira, fevereiro 25, 2008

O que é o eco? Porque mora na palavra?

para o Tiago Gomes


10h15
Acordei com o som inchado de que a realidade, ou a concepção que dela fazemos, não é ampla ou aberta mas limitada a um instante – o do medo e desvario primitivos. Vivemos na estável construção que nos projecta no inexplicável, o rosto em congelado susto perante a escuridão das estrelas.

11h00
Olhei, como um túnel, um deslize caleidoscópico, eu andava, as cores eram formas que se expandiam e gritavam, só cores e eu era viva e andava, como uma respiração aquática. Levei a mão e acordei novamente, e novamente, e novamente. As paredes estagnavam na fluência, os corredores. Havia uma cor violeta que me arrepanhava toda. Eu andava. Eu olhava. Uma mosca passeava na janela. Entrou nas núvens que estavam imóveis no céu ao fundo. Troncos adormecidos jaziam na lareira fria. Uma ficha tripla esticava os seus machos para cima. Na mesa de madeira, a planta deixava cair as suas longas folhas como uma cabeleira. Uma camisa clara afundava-se no solo. A televisão crepitava. Ele estava esparramado no sofá. Respirava. Estão a ver, as paredes, os dois posters, a mancha de café na alcatifa e o candeeiro. Eu andava, loucura adulterada, era eu amanhecida e temível. Estão a ver. A televisão crepitava no seu adormecimento.

13h05
Estava com a sensação de ter a cabeça a ferver como se me fritassem batatas no cérebro. E reverberava nos meus membros tornando-os pesados como que semi-adormecidos, inclusive a língua que me parecia empastar-se pela atmosfera tornando o sol esponjoso eo ar denso. Um lagarto secando até à morte numa rocha do deserto. Levantei-me e caminhei um bocado, mas os músculos das pernas gemeram a tal ponto que tive de voltar a sentar-me. Um odor salino abria-me as narinas e sufocava-me o ar. Se quisesse cair, não poderia fazer melhor. Estava com uma vontade ardida de adormecer, de penetrar numa escuridão que me anulasse a existência, o tempo, como uma anestesia, mas como que o próprio corpo se recusava ao descanso, mantendo-se naquela vigília de extenuo, o próprio pensamento defendendo-se da inconsciência como que prevendo mais adiante um esclarecimento, uma revelação própria deste cansaço extremo.

14h10
A emissão iniciou-se em mim com uma locutora sorrindo azul. Os sons entraram e ergueram-me estática e tensa, era como se me doesse a cabeça, apenas isso, uma questão de coerência. As paredes liquefaziam-se, e eu conhecia o motivo, as faces que surgiriam sólidas e constantes como sonhos por vir, verdes e líquidas pelas paredes, líquidas e sólidas e as bocas abertas em riste, gritando. Ao princípio aterrara-me, os olhos, lisos como os das estátuas gregas que o tempo reconduziu à pedra, as vozes, o que diziam. Era um medo insustentável, um tolhimento que me enclausurava em mim própria numa total paralisia do corpo e da mente. Não tinha ninguém com quem falar, meu irmão como uma criança apunhalada num quarto, lençóis brancos, uma rosa, estava aterrada.

17h04
E rebentou, era como uma mão crescendo-me dentro da cabeça, empurrando dolorosamente as paredes do meu cérebro. Há algo que me desvia a direcção nas caminhadas para o que me proponho. Há sempre demónios que nos atiram das janelas altas de prédios insultuosos. As mesas de bilhar encarniçavam-se em sorrisos, pareciam esgares de esboço quebrados por sentimentos.
Estão a captar?
Ou provavelmente não. Provavelmente acreditam na nossa sinceridade verbal.
Eu cá procuro a palavra que tudo pergunte e tudo responda, a felicidade constante, é o objectivo.
Na medida da dor.
Seria levada a cair dentro da violência, implorando a vida na escuridão, um rosto que olhasse sempre branco e redondo e as cores movendo-se na escuridão e no denso lume.

18h55
- Paga-me uma bebida. Estou tão seca que cuspo algodão.
- Laranja. Como que uma parede negra surgiu súbita à minha frente, engolfante, não reflectindo em absoluto luz alguma. E era uma violenta sensação, pois mudara na totalidade o espaço que me envolvia e eu era. Levantei-me, sufocada, e dirigi-me à janela que abri ansiosamente.
- Tudo é vida e só a vida é eterna, dizia ela, a semente não morre assim como não morre a primavera, mas de resto não lhe apreendia o sentido, apenas as formas sonoras da sua fala que embatiam na minha boca, também negras.

20h07
Qual o último sentimento da baleia ao morrer no oceano? perguntava ela azul.
Qual o tamanho dum corpo humano quando lhe tocamos por dentro? Sempre que o sol morre.
Quantos passos são precisos para chegar ao mesmo lugar? Existe uma eternidade em cada momento.

22h25
Não há ouvidos nos dedos repletos de bocas.
Como um cancro corroendo as intimidades.
Um ácido que anula os segredos.
Na clareza dos mistérios.
Um odor a feno que tortura as primaveras.
O sol nunca esteve tão baixo.
Os degraus servem de apoio.
Com o frio? eles? no olhar?
A cidade minada, cercada por dentro.
Os táxis.
Os prédios.
Os candeeiros.
A pálpebra dum olho fechado.
Não opôs resistência alguma.
Como um bolo oferecido à boca da tortura.
Um espaço de respiração e movimento.
O inimigo é nosso irmão, dorme connosco nas trincheiras.
Esse sono de entrega tão expandida.
A morte sem sobressalto, serena e aceite.
Húmida e cingida como um entremelar de línguas.
Como mãos nervosas e deslocadas.
Gemidos vários que cegam pelo próprio caminhar.
Aquele que nomeia os vivos.
Cada palavra uma faca.
A testa encostada à janela.
Como se um guincho se suicidasse na linha do comboio.
Como tambores primitivos numa inócua música de câmara.
Uma luz num recanto da mente.
Como uma histeria num embate quente com o silêncio.
Um beijo nas veias.
Os degraus não são o topo.
O som da porta do elevador, a camisola.
De ácidos sabores na boca.
Uma festa acesa.
Desmesurada.
A música e a gaiola.
Essa pele branca numa respiração redonda.
Força não é poder.
Chamo.
Como quando se vem de longe e a casa não acolhe.
Como um interno duplo.
Como ninguém por perto.

23h45
E essa fusão far-me-ia reencontrar.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

O espelho na janela

António está sentado no sofá. O gelo já derreteu no copo, o polegar percorre a superfície de vidro com força contida, lentamente. Os olhos fixam-se para além dos objectos, em nada, e ouve, a vontade ressoar abafada, sem nada em que possa reverberar, dispersando-se no infinito vazio em redor.

A luz da tarde refracta-se nas janelas empoeiradas, espalhando-se suave pela sala, colorindo o ar, silenciosamente laranja. António sacode a cabeça. As sombras escuras afundam-se laranja adentro. O som do frigorífico estende-se para o resto da casa, ressoando surdo no silêncio.

António levanta-se e bebe o resto do gim num trago.

Dirige-se para a casa-de-banho, fecha a porta, puxa o cortinado negro e acende a luz vermelha. - Depois fecha a porta! gritou-lhe Álvaro atirando-lhe a chave, e Solange sorri como calma. Foda-se, ainda não é desta, e acomoda-se à cadeira. António preparou outro campo, e outro gim. As provas deslizam e ondulam na tina do revelador, ele olha para o cronómetro, controlando o tempo. A prova. Dá-lhe sempre a mesma sensação infantil de magia, a imagem a aparecer lentamente, primeiro nublada e sem contraste, definindo-se gradualmente à medida que o revelador se agita. Foda-se, isto é como aquele sonho de mergulhar no lago, nossos olhos vêem debaixo de água como se fosse cá fora e se sobe num anseio de respiração, subir, subir, subir, vendo a superfície cantando ar por cima, esbracejar, esbracejar, sem tocar. Sufocar, inclina a cabeça para trás, soltando fumo para o tecto, esta boca enorme no centro do peito, clamando fome e sede, os ausentes alimentos nos nervos gritando solidão. Acordar, o rumor da água desaparecer, Solange levanta-se, apaga o cigarro no cinzeiro, olha-se ao espelho da entrada, ajeita o cabelo despenteando-o aqui e ali. Sorri, mas parece-lhe uma careta. A superfície situa-se invisível no infinito horizonte, lograr, sacode a cabeça, apetecendo-lhe de súbito não ser o que é, ou melhor, aquela que vê reflectir-se no espelho e lhe lembra tanta coisa, alegre e triste, tanto peso de nada, de superfície inatingida. Acontecimentos desfilando, sem vislumbre de eclosão, tornando o acaso aleatório, os momentos separando-se uns dos outros, destacando-se do todo, dessintonizando-me. Não é a mim que agem os acontecimentos, é à imagem reflectida no meu espelho, a estrangeira de quem eu assisto os pensamentos, os gestos, os sentimentos. Solange desce as escadas para a rua, Tenho ainda uma ténue lembrança de mim, desta que se quedou estática frente ao espelho, quero dizer uma vaga ideia da acção que antes de se tornar estátua muda este eu fazia existir em mim, Um canto, Mas essa lembrança esfuma-se na memória da infância.

António passa a prova para a paragem, depois para o fixador. É a fotografia duma bicicleta abandonada num jardim, uma floresta de relva e prédios em último plano. Vira-se, seca as mãos e tira o negativo do ampliador. Coloca outro; a imagem surge negativa no marginador de réguas.

Solange senta-se na esplanada e pede um absinto, com vontade dum sabor que lhe defina o esgar que sente nascer dentro dela. As provas estão a lavar. António prepara outro gim e deita a garrafa vazia para o caixote. O rumor da água repande-se no silêncio, ressoando pela canalização velha. Solange deixa o gelo bater-lhe nos dentes enquanto sorve o líquido amargo, as pernas cruzadas, pele com pele por baixo da saia. Deixa-se olhar por um homem de bigode, suado dentro da roupa, abafado, Preso nas suas próprias convenções, pensa Solange sorvendo o absinto. Não, hoje não há engate, acende um cigarro, acaba o absinto. António põe o copo vazio no lava-louças, Solange paga e levanta-se. Ele encosta a cabeça ao armário, E aqui estou como que a digerir algo indigerível, um nada num estômago ulcerado, Havia de levantar-me e caminhar rumor adentro, uma cabeça rebolando por de negro ladeados caminhos e estradas e cidades e algum murmúrio chegar nunca e sempre ao lugar que finda o princípio, Um canto, Um riso, entrechocando-se, reflexo um do outro, bloqueando, O pensamento, A acção, Esta ferrugem nos dedos. António fecha a torneira e espera como se lágrimas se dissolvessem no silêncio e se acumulassem em nada, sufoco. O ar ardesse, Solange caminha pela avenida que fura a tarde acima como se rasgasse o tecido da noite. António põe o rolo na máquina, roda o manípulo, fecha a máquina, dispara, uma, duas, Solange caminha ao lado da noite cujo céu se apresenta limpo de nuvens ou estrelas ou lua, A máquina ao ombro, olha para as provas que boiam na água estagnada. Um sorriso aflora-lhe os lábios, É tempo de ir perguntar ao mundo onde estou e que farei, A porta fecha com um som seco postando António no escuro frente ao botão que pisca intermitente anunciando a vinda do elevador.

Solange prime o botão e sente a campainha tocar lá no terceiro andar, interrompendo os movimentos que lá se esboçam ou não, o sorriso e os gritos, o silêncio contido ou expandido, nervoso ou sereno. Um estalo mecânico abre o trinco da porta e ela entra. Provavelmente nada, apenas a sordidez habitual. Desde a mãe, escura, sobe as escadas tantas vezes subidas e descidas, empurra a porta encostada e desemboca na cozinha, Mário, já cheguei! Pousa as compras na mesa, os legumes espreitando curiosos para fora dos sacos, 'Tás sozinho, mano? António pára, fica uns minutos olhando a rua oca, os braços pendentes, um cigarro apagado entre os dedos. Ouvem-se os autocarros que giram perto da igreja, muito longe mesmo ali ao lado como uma despedida, Os olhos do meu irmão, sempre com a expressão nervosa de quem é apanhado em flagrante, pequeno e culpado de fraqueza, Que estavas a fazer? Nada, folheava umas revistas, Deixava passar o tempo, O crepúsculo tinge de encarnado o baixo céu no horizonte. António acende o cigarro, dá meia-volta e começa a andar, os passos ressoando contra as vivendas silenciosas. Desde que tenha trocado para meter na máquina das cervejas, nada de simbolismos ou sequer referências. Um túnel de imagens.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Paráfrase

Deus entende a nossa evasão e contém-na, orientando-a a partir de dentro.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Nota

A morte vem de fora, não a trazemos na bagagem, e também: a morte, é a própria bagagem.