segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Nota

Há no haver; este atributo do deus em que havemos.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Vita luna


para o Pedro Paixão


A vida, é uma determinação densa, difícil de distinguir. No acontecimento que somos, na existência, a vida é total: enquanto seres vivos, todos os nossos momentos são momentos, precisamente, da vida, ocorrem no estarmos-vivos. Ela parece transbordar-nos no tempo e no espaço: tomamo-la como que presente e activa no inteiro universo, e anterior à nossa presença; surgimos dela e nela.

A vida acompanha o ser, sendo que tudo o que há se move e é movido, dos planetas e estrelas às células e aos electrões. É pensável uma não-vida, e é esse juízo negativo que nos ocorre quando pensamos na morte, nos mortos. Vazio que podemos preencher, como é evidente. Mas do morto a única coisa a que acedemos é a sua não-presença, ou se quisermos: a sua presença fantasmagórica, radical e fundamentalmente distinta dos nossos modos de vida. Aparece-nos aqui também a interrogação do corpo, do rosto carnal; qual a relação entre o corpo morto e a identidade viva com que nos relacionámos, no caso da morte de outrém; no caso da própria, qual a relação da nossa presença viva com essa possibilidade negativa e imensamente provável, de um dia na vida morrermos; de serem abalroadas, digamos assim, todas as possibilidades, todas as expectativas impossibilitadas, ou a terem que mudar tão radical e fundamentalmente como a diferença abismal ou fantasmagórica dos mortos connosco; qual a nossa relação com o nosso corpo morto, e inversamente.

A vida define-se pelo movimento, isto é, pelas relações entre o que há; e não pelo ser, pelo puro e estrito facto de haver algo; podia haver imóvel, digamos assim, haver apenas ser, sem modificação alguma, sem tempo e em todo o espaço; sem alteridade imanente.

Seja como for, o ser é algo a que nós acedemos no pathos absoluto de estarmos vivos; nós apenas detemos experiência do ser enquanto ocorrência na vida, quanto mais não fosse na nossa própria.

A conexão entre vida e ser exprime-se também na implicação de que uma desvitalização é uma retirada de ser, está gradualmente a desaparecer, já não é Sócrates, esse corpo cuja perna não adormece nem a boca interpela. Trata-se aqui do ser na sua modalidade identitária, e de identidade concreta, em presença viva, sendo connosco. É no elemento passivo de nós, ou feminino, que sentimos a morte do outro, e conforme a nossa ligação afectiva com ele nos pomos a soltar gritos e lamúrias como Xantipa; e é também no elemento passivo de nós que temos e teremos de confrontar-nos com a nossa, não obrigatoriamente em total exclusão do activo.

A vida caracteriza-se pelas forças, pelo vigor; há diferença entre a vida e nós, no sentido da anterioridade e universalidade da vida relativamente a nós; há também identidade, visto que uma das nossas determinações essenciais é precisamente sermos vivos, com mais ou menos forças e vigor.

Nós damos connosco já em vida, para dizê-lo de algum modo; isto é, a vida no sentido estrito é um puro padecimento de si; é um acto espontâneo, não decidido pelo próprio, um inanulável início cujo decorrer, é certo, se pode anular voluntariamente, ou se preferirmos: atirarmo-nos à diferença vital da nossa própria morte. Mas esta, pelo seu lado e enquanto possibilidade, também não foi decidida pelo próprio: decorre da própria vida, é-lhe negativamente correspondente; o sujeito vivo apenas pode decidir o momento, se as circunstâncias não impedirem.

A morte é um caso peculiar: de certo modo, ela não é um acontecimento da vida, não há "vida morta"; por outro ou pelo mesmo, ela é um acontecimento da vida, sendo esta a sua condição primeira: só onde há vida pode ocorrer morte. É por isso que, se não pensarmos na sua vida atómica nem em qualquer outro modo de animação, o inerte não é morto, nem é vivo: a pedra não deixa de respirar, pois nunca respirou. A peculiaridade da morte reside em ser uma fronteira absoluta, uma margem que ao fechar-se sobre nós não deixa escapatória possível senão ela-própria; e simultaneamente ser uma possibilidade extrema do puro pathos de si, que tal como o nascimento, toma o pathos de si integralmente.

A reflexão não detém nenhuma representação directa, isto é, que corresponda a uma apresentação visível e localizável, da vida (ou da morte); detém representações de seres vivos (ou mortais, ou mortos), reconhecendo neles a determinação "vivo" (ou "morto"), mas nenhum deles é evidentemente a vida (ou a morte); e também não é passível de ser extraída, abstraída, conceptualizada num conteúdo de que se possa dizer "isto" é a vida (ou a morte); a vida (ou a morte) não é da ordem da visibilidade, nem perceptiva nem reflexiva.

A vida é algo como a potência ontológica em acto, temporalizada e temporalizante; e resiste ao conceito por dois polos: na sua omnipresença, tal como o ser; e no contínuo movimento que lhe é essencial, contrariamente ao ser, e sobretudo, contrariamente à fixação identitária que corresponde à representação. Denominar a vida ou o ser não é concebê-los mentalmente, detê-los numa definição esclarecida. O ser e a potência são ideias obscuras, nomes cegos que indicam pressupostos incognoscíveis; significam uma constatação de algo que empurra o que há a ser e a desenrolar-se, a acontecer; ou melhor: significam esse empurrão vital de tudo em tudo; e a existência é algo como a síntese obscura e densa da vida e do ser em consciência reflexiva; nós próprios, e nada; ou a dança que rasga a pétala na própria flor.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Potestade

Suspeita-se que é necessário voltar ao ponto zero, onde o deus nos espera, e que todo o resto é idolatria, pretensão de poder fechado, retido, alienado na sua própria posse.

A eternidade está à porta.

E toda a religião, ainda é separação.

Mas aí fulgura a unidade, ainda que perdida.

Deus salva, nada mais; a vida, de zero em infinito, sempre um, e nunca o mesmo.

Suspeita-se que é necessário voltar ao ponto zero, em qualquer ponto e espaço a ele remeter como uma respiração, uma alteridade imanente, uma contínua transformação.

Reunamo-nos, reunamos, acção sejamos.

Veni Sancte Spiritus.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Fazei o mar deflagrar nos rios, e não esboroar as suas margens 2

- O nosso pai é a culpa, a dilaceração confusa, dizia-lhe o amigo ao telefone, ainda ele mal despertara nem esfumara o sonho e o esquecimento do sono, olhava a janela e o céu lá ao fundo, entrecortado por dezenas de antenas de televisão, os pára-raios, a cruz da igreja no fundo azul, Ecumenismo e divisão demoníaca são movimento do mesmo acto, dizia-lhe o amigo, Pôr o problema de quem é ou não de Cristo, releva imediatamente da negação de fé, amor, fortaleza, e ele acendeu o cigarro estremunhado, semiergueu-se e bocejou e disse Vamos lá ver, Hervé, o melhor é eu acordar, e riu, ou sorriu, o primeiro fazendo que o amigo do outro lado do fio recebesse a ironia, e o segundo nada que se notasse pelo telefone.

- À tarde passarei aí, então, de manhã quero escrever, disse o amigo. Ele desligou o telefone que largado caiu para o chão emaranhando-se no seu próprio fio, e o cigarro durou o tempo de ele absorver a impressão matinal do sonho dessa noite, em que andara arrastando-se por estreitos tubos subterrâneos sem como nem porquê, apenas isso, rastejando por túneis apertados e uma luz amarela escura, intermitente, uma sensação de desamparo, de não-saber; e durou o tempo também de suspender as tiradas do amigo num eco silencioso, o tempo de beber o copo de água da cabeceira e levantar-se espreguiçando-se, Fumar em jejum é o pior que se pode fazer, lembrou ele o médico dizer-lhe há uns anos, Pois sim.

Os putos que vendiam cavalo e outros deslizes à porta do seu prédio já estavam no seu posto e ele cumprimentou-os o segundo cigarro do dia a fumegar nos seus lábios e entrou na cafetaria para tomar o pequeno-almoço. Tentou não dar muita atenção à televisão acesa, e muito menos tocar nos jornais espalhados pelas mesas. Era feriado, corpo de deus, coisa que já não se notava directamente nas ruas da cidade, ou melhor, não se exprimia tanto religiosa e publicamente, aliás as ruas da cidade eram cada vez mais neutras e abandonadas de vida e expressão, quase não pareciam já pertencer a ninguém, cheias de anúncios publicitários e transeuntes distraídos e cansados, alguns mitras e turistas e pessoal no desenrasque, no fundo andamos todos a cavalar, é o que é, pensava ele bebendo o café, a deslizar, cansados pois; era a mesma coisa no primeiro de Maio, sinos para um e anódinos panfletos para outro.

Quais de nós vivos, quais de nós mortos, era realmente dilacerante, quando somos ou não somos alguém, algo, nós próprios, vivos e respondendo, quais os dias de revelação e acção, quais os dias e as noites; qual o tribunal capaz de tal veredicto, qual o olhar, qual a lucidez; pagou o croissant com fiambre, os dois cafés, ainda fumou outro cigarro, eram nove e meia da manhã, feriado, já havia malta a beber digestivos ao balcão, à porta discutindo, um cão ladrava mais abaixo perto do videoclube.

Quando era pequeno gostava da escola, pensava enquanto descia a pequena avenida, gostava e ao mesmo tempo detestava, eram os dias do início, que afinal nunca mudaram muito, os dias da pergunta, a que não é enunciada e está no fundo de todas as que proferimos ou calamos, sentimos ou ressentimos; entrou no autocarro, era agradável descer até ao rio, o autocarro vazio sem a marabunta do trabalho, havia qualquer coisa na escravatura moderna que ribombava de violência e perdição, qualquer coisa de inagarrável que queria agarrar toda a gente e tomar o nosso lugar, as nossas decisões, e até o que sentimos e pensamos. Esticou as pernas e encostou a cabeça ao vidro; o autocarro acelerava, ia-lhe saber bem almoçar junto à água, com a cidade maior do outro lado do rio olhando para ele e os barcos passando, ia-lhe saber bem.