segunda-feira, maio 25, 2009

Humanautas 3

1. O sentido da voragem move o animal. São os dados imediatos que o alimentam, o contacto directo correndo-lhe nas veias percepção a percepção. O mundo come-o e alimenta-o.

2. O animal suspende-se no vazio da sua consciência – é o espanto do mundo que o olha. A própria limitação da percepção afirma a existência do não-percepcionável. O animal olha aquilo que não vê e cega de frémito contente.

3. Brechas abrem-se no corpo do animal, por todo o lado. Olhos despontam nalgumas, noutras espelhos. Na sua imobilidade se dinamiza o seu despertar, letargia de sabedoria. O animal não espera, e queda-se.

segunda-feira, maio 18, 2009

À boca meia

para a Rita Só


Olhou para a cebola que lhe enchia a mão como uma palavra reflectida preenche um acto. Não, não a compreendia. A sua mão quieta tentava sentir a cebola. Mas não, nenhum pulsar lhe acudia à pele. A cebola imobilizava-lhe a mão como um esquecimento bloqueia um discurso. Era estranho. Difícil de apreender. Como algo sendo sem nada ser. Nem miragem nem sonho. Algo indeterminado pedindo definição, um orgão imóvel clamando estímulos. Tão estranho como uma foto do seu rosto futuro.

Como é costume quando se tem uma cebola na mão, na outra estava uma faca. Uma faca que ele aproximou da cebola. Esta não reagiu, estava cega, como o bêbedo que se aproxima do precipício, o animal da ratoeira. Quase tanto como eu, disse ele, e cravou a lâmina na cebola. Uma tira da primeira camada soltou-se da cebola, ficou um momento presa à lâmina da faca e desprendeu-se rodopiando até ao chão. Descascou mais uma tira, e outra, e ainda outra, e mais uma, e parou. Não percebia bem o que estava a fazer. Era um gesto banal, costumeiro, já o fizera muitas vezes e tantas outras vira outros fazê-lo. Mas sempre com sentido, na cozinha, confeccionando um prato. Não era esse o caso naquele momento. Ali, naquela enigmática situação, o que ele queria era comunicar com a cebola, que ela com ele comunicasse. Era como se perguntasse à cebola: Quem és tu?, e isto sem lhe perguntar: Para que serves? Curiosamente, a faca não lhe suscitava interrogação. Mas a cebola, da cebola ele algo queria saber, algo que não apenas o seu sabor.

Convicto que aquele desajustado gesto lhe mostraria o que fazer para comunicar com a cebola, continuou a descascá-la. Porque sempre era um gesto de contacto com a cebola, e não tinha mais nada por onde começar, não fazia a mínima ideia de como se falava a uma cebola. Ela haveria de reagir, dar um sinal qualquer ao seu contacto, era essa a sua esperança. E então descascava a cebola, à medida que os seus olhos se enchiam de lágrimas, fungando cada vez mais do nariz, quase espirrando continuava a descascar a cebola.

Devia ser uma cebola especial. A cebola das cebolas. Pois o chão enchia-se de tiras da cebola, um monte que crescia bem para além do tamanho da cebola. Um monte que crescia à sua volta e ameaçava soterrá-lo se ele não fosse mudando de lugar sempre que o monte lhe chegava à cintura. E cego ficava ele. Cego de lágrimas e ranho e espirros e tosse. Teve de instaurar paragens, pequenos pontos de descanso como quem faz uma longa caminhada. Paragens cujo único significado é o de poder-se continuar, sem parar, até à meta. Neste caso, a desconhecida meta: a gramática da cebola.

É possível que nestes intervalos para descanso, pessoas lhe aparecessem. Amigos, inimigos, indiferentes, familiares, sabe-se lá. E que muito provavelmente lhe dissessem que estava doido, que aquilo era uma perca de mente e de acção. Que pensasse bem, algum equívoco se infiltrara na sua compreensão de si. Até porque nunca mais com nenhum deles convivera, desde que se lhe enfiara na cabeça comunicar com aquela cebola. E é certo que, assim sendo, ele teria replicado: Que sabem vocês disto? Vocês não são cebolas!

O certo também é que continuou a sua talvez infinda tarefa, chorando e pausando e comendo e dormindo apenas o necessário. Até ao dia em que algo aconteceu. Não numa pausa, mas num momento de descasque. Ouviu um ploc!, quase inaudível. Um pequeno ploc!, muito distinto do chteít! do descasque. Parou imediatamente, de ouvidos em riste, naquele silêncio peculiarmente significante que se instaura depois de um som. Pousou a cebola no chão. Da sua direita, fôra o que lhe parecera, um pouco atrás de si à sua direita. Cautelosamente avançou para lá, ansioso e vagarosamente. E lá estava, mesmo no topo dum monte de tiras da cebola, lá estava como que triunfante, pousado no monte, pequeno como uma timidez lá estava, como que olhando para ele: um dente de alho.

Ele sorriu.

Não, não choviam dentes de alho do tecto da sua casa, nunca na vida. Aquilo só podia ser uma palavra da cebola, um gesto qualquer, um trejeito no olhar.

Pegou no dente de alho, cuidadosamente. Olhou para a cebola. Voltou a sorrir, e disse então: Tu e eu, temos a boca cheia de pouco.

E começou, lentamente, a descascar o dente de alho.

segunda-feira, maio 11, 2009

num pequeno instante o todo, agora

segunda-feira, maio 04, 2009

Isso e mais

Medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo a luz medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo a dor medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo nada medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo arder medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo deixo ir medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo por dentro medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo minha mãe medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo grito medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo sufoco medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo medo a mão, tu, entrego.

Viu-se um fogo o céu nas máquinas a bondade na senda o deus. Escuro fio escutou-se em vala o narrar saco rasgo costas sim navio fogo faça-se. Agarrou-se fundo maca leite sem talha risco vivo. Mala posta saca dextra na costura dentro diz deus dias. Ergueu-se porta tanto vaso parra lama no estertor. Água deu-se terra néctar fruta véu no canto cisne. E sangue vinho colheu-se viagem mar terra tanto. Numa manta sono desperto palavra dada dedo secura. Não balde poço mulher casada. Grupos espanta ordem côr chão veneno assim. Varre estrelas aço invenções. Pétala carne arde estaca peito costas. Chão crava ri e coisa urra mal o bem brinquedo morte. Templo pedra joeira tijolo cima baixo isso mel gafanhotos deserto coração o rio as gentes chicote indústria girassol agora. Volta gaze fechadura tresvario três dias. Sempre. Mas diferente metal sonoro duas mais caminho unha mola dente elástico. Corda pulo buraco dorme barco agita volta catástrofe árvore clama. Tremura flores barra vozes sem fome tarefa doada. Um milho. Choques cruz já dissera dia sempre abertura veias chá desenho lua. Mocho arrebata neve raposa trilho lobo. E serpente mundo jaz sempre fecho. Virá lento contraste combate veloz tropel e não galope duas mãos apertam. Olhos rasgarão fenderão humedecerão. Haverá mesa estrela ternura tantos todos. Galo dois lembrado será foi nascido saberão ler dizer fazer viver. Não mais separação faca cega pancada mole testa inchada. Não mais. Não mais pûs amêndoa. Não mais palavra menta. Não mais inchaço tarde. Prado pássaros flores no vale corpo maior todo alma sexo. Anjos perto dentro dizem esfera vê-se o cima o baixo. Tudo amor tudo une tudo conecta vê-se escada cave horizonte vermelho azul branco e mais. Dançam céus areias rostos desejos cal diamante vagas poeiras ideias fumos e fontes. Agem paixões tensões chispa clarão anelos remissões ecos silêncios faunas oceanos e olarias. Deus disrupção.

Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiih cretmeras rangargolimanenenenenenenenenenenene, poutepatarrrrrrravsca tlê tlê tlê, rat mã facht. Titititititititititititit plarro. Bomp nac dôva nalhamir, don don ton. Vlencor najta bam bam bam. Pirromalhe drafta mej, ed drec ol ed drec o ma. Er. Reta vu. Jatenpzê difalhençar. Ttttttttttttticalhlhlhlhlha mintapro. Blentrrá. Mirinsita deletarra, jistaporre elimatrassa, drunvatê drunvana. Vvvvvvvvvvvvvvvvalêta! Brintalhê! Nic nic naito, brin da tê. Briche! Drivimolamginô, drinvacô rtantovi, baltradó drafzengori driz du driz da, pelenti. Do do dô ladfenchacu, vlasta! Nê nê nê, alpencô, u u u. Jna volmique na tun draiêia, varromil lante nade cromalhe. Jnac jnac jnac. Dintu lhena drajagrosa, sassassassassassassassassassa prantol. Sésséssésséssésséssé! Nuntro! Jadornique? Prantol. Janordique? Brentil. Vintômar drufte. Jardoquine drufte. Brintalhê, brintalhê, dramojdalha. Vindiquê, dddddddddddddddadô dadê. Barnaquê, drinvacô: vate vita vindalhô.

E não abandonáramos a cidade, como os incautos juízes declararam. Soubéramos sim, que no coração de cada qual habita o inimigo mais feroz, e que a luz do mundo é um estertor da escuridão, sua potência um avatar do vazio. Que a traição atingiria o seu esplendor amiúde, com toda a aparência duma vitória terrestre, que fecha o céu na medida do seu orgulho; isso, também o sabíamos, e directamente o dissémos, para quem se quisesse escutar. De resto, o mundo havia de seguir o seu caminho, quase como se nada fosse. O que houver a fazer o aceitamos e tentamos. Rezamos no escuro, e esperamos enquanto agimos. Amanhã já chegou, e mãos sujas já não nos assustam, nem a mais funda ferida nos assassina. Como as folhas que secam passam os outonos. Virão sempre outros, e sempre o mesmo há-de murmurar: vem, enterra o tempo e não olhes para trás; vem, a noite é o arbusto que não tolhe e fala; vem, eu serei o tempo e tu o vento, eu serei a luz e tu a noite; vem.