segunda-feira, junho 25, 2007

Palavras do desertificado

O ponto revelador, é que Deus é Deus, e põe simultaneamente o puro nada. Só o ateísmo que se confronta até ao fim, e o crente enlouquecido com o que o extravasa, se abrem propriamente à presença de Deus, e à verdade de si. Todo o resto é, teovitalmente, uma ilusão. Que, como quase tudo, pode ser grau ou degrau de ascese, ou o seu contrário. Mas os olhos que arderam nas mãos que se esgotaram, sabem que o ser de Deus escapa à própria existência.

E aqui ficamos sós, que o desertificado já cá não está quando chegamos, nunca e sempre. E o lugar que em nós guarda a sua voz, branco. Aqui e agora e na hora da nossa morte.

segunda-feira, junho 18, 2007

Meios buracos 2, ou a porta estreita

É verdade o que dizes, muito verdade.

E por outro não o é, tanto muito não o é.

Só o fio do funâmbulo, detém o sentido.

segunda-feira, junho 11, 2007

O sol, do outro lado

Um tom esfumado de cicatriz na carne da memória, os fatos sufocantes em que a mamã te enfiava como que para te significar que a existência é um peso nas costas, um pouco-à-vontade nos membros, o céu, mana, rasgaste-me os calções, rasgar-te-ia todo, pequeno, desvendar-te-ia brechas e brechas e brechas enquanto corríamos nos campos e nos bosques junto à aldeia da avó e a mamã não existia, desaparecera como uma nuvem no céu encarnado, esse céu, tenho sede parecia ter dito, tenho sede, que venha o azul da tarde e eu já aqui não esteja, a avó reagiu com a sua habitual placidez de planta, contrastando com o nervosismo agitado do papá na sua mudez de estátua móvel que o seu corpo seco como um cepo sempre me revelou, que quando me tocava sentia um arrepio de repulsa no corpo atar-me toda, até os meus pelos se eriçavam e meus lábios tremiam quando me beijava e afagava na sua presença sem palavras que se derretia no algodão dos dias, Vou-me embora gritavam os olhos da mamã rebentando desanuviados, as lágrimas correndo-lhe pela face, Para onde não me reconheçam. O olhar da mamã, sabes, sempre foi pestilento, carregado das cinzas que a sua atitude reprovadora em relação à vida desde há muito tempo forçara a acumular, pesando-lhe num mal-estar, numa irritação permanente, lembras-te como ela nos batia à toa sem sentido pedagógico nenhum, ao sabor dos seus caprichos e estados de espírito ou como tratava o papá rebaixando-o ao nível de escravo na intimidade, isto é, entre ti, mim, o papá e ela, contendo tudo numa tensão mal um estranho entrasse na zona, sorrindo e fingindo, e o ar tornava-se eléctrico e pesado, fumegando nos seus olhos, na sua recusa a todo o movimento de inserção do corpo no mundo, de respiração, uma ferida pulverosa infectada pela contenção e pelo medo refulgia nos seus olhos e aterrava-me. Tu olhavas para o chão como se tentasses desaparecer, sentado na cadeira, as pernas suspensas imóveis e o cabelo escuro comprido caído para a fente, as tuas mãos pendentes revelando um desamparo que me enlanguescia de ternura e posse, E é de crer que essa repulsa que amarrava a mamã ao leito doentio donde negava a vida tenha atingido o seu limite, transcendendo-se por dentro, talvez assim uma vontade explodindo como contraponto, uma sede de imediato como se tudo fosse novo e pronto a conhecer, pois a sombra que sufocava seus olhos tinha ido, seus olhos molhados de lágrimas olhavam para mim e eu reconheci-a, ou seja, vi-me a mim própria nela, e ela decerto percebeu que eu compreendia, pois dirigiu-se a mim e abraçou-me como se nunca mais me fosse ver ou me visse talvez pela primeira vez como eu a ela desvendada, a tua cantiga de menino abandonado sussurrava-se na minha aprovação, e o papá fazia exactamente a tua cena, de abandono e desencontro. Sabes, vejo agora como reconheci a mamã nesse momento, como a vi mulher reflectindo nos meus olhos a minha própria feminilidade, e soube então sem ter consciência como os homens são, como tu, como o papá, sempre crianças abandonadas, bebés cheios de medo que se escondem por trás de máscaras, guiando-se por símbolos separados a que chamam verdades, Sei que nesse momento então nasceram os sinais flamejantes que guiam a minha dor, esta fome, A mentira é o lado perigoso da verdade.

O sopro encarnado que anima o impossível, a nuvem no céu, A avó nada dizendo, apenas um ténue brilho para quem quisesse olhar de fundo para os seus pequenos olhos cansados desejosos de se fecharem, libertando-a de olhar, de sentir, de viver, A porta bateu na cara do papá que expandia o seu desesperado e desajeitado personagem pela casa fora em grito e em soluços escondidos, então olhei para ti e assustei-me, pois me olhavas e reconheci nos teus olhos a sombra terrível da culpa, como se a da frustração da mamã tivesse passado para ti no momento em que ela se libertou, assim um contágio psicológico, um exercício natural de equilíbrio, o mesmo olhar ácido e torturado brilhava na tua expressão assustada, toda eu tremia ao abraçar-te, como se estivesse a dar as boas vindas a um demónio que se houvesse ausentado e tivesse voltado e nada mudasse nunca nada de nada a não ser talvez quando algo cresce em nós a tal ponto que nos transformamos de súbito e de verdade, como a mamã, cujo cadáver se alojou nos teus olhos, como eu tremia e aos poucos deixei de tremer, o teu corpo inseguro encaixando-se no meu em busca de calor e conforto, está tudo bem, maninho, está tudo bem, ficou tudo metade em mim metade em ti, nunca nada de nada, mano, Esboçaremos o gesto, A avó pegou em nós e levou-nos para a cozinha, o papá embebedava-se na sala, ouvíamos os copos tinir, objectos cairem, portas bater, a avó descascava legumes, cenouras, alhos, beterrabas, nabos, e sorria para nós, eu sorri-lhe e abracei-a, sentia-me feliz ou melhor contente, tu não sorrias, procuravas um refúgio porque te sentias perdido, estavas ansioso por aninhar-te no líquido da fêmea, e então a tua boca abria-se para mim e para a avó exactamente como nos nossos gritos quando ainda mais pequenos queimávamos baratas no solo cinzento de cimento na garagem e as ouvíamos crepitar num prazer angustiante de medo e culpa, quero eu dizer consciência de estarmos a fazer algo que o papá e a mamã ou seja o mundo e nós nele, não aprovavam.

Uma relação plana com as coisas, masculina.

E o papá, felizmente que incapaz de pegar o touro pelos cornos deixou-nos por sua vez entregues à placidez da avó, indo tentar a sua sorte de inactiva desinserção para algum lugar que é sempre o mesmo, palco de projecção do seu modo de ser desenhando um destino mecânico como um relógio, lugar que agora os teus olhos projectam em mim, inseguros, o teu corpo pequeno como sempre que me seguiu quando vim para a cidade, o signo submissivo que subjuga o presente ao passado e ao futuro e obriga a noite a separar-se do dia.

- ‘Tás com a cabeça cheia de vidro, mano, digo atirando-te com água, e tu sorris pesado e encolhes os ombros, ou seja, os de todos os supliciados que te habitam há centenas de anos, cada vez que te moves o teu cérebro sangra cortado pelo vidro e a dor queda-te na imobilidade, - ‘Tou é com a cabeça cheia de estudo, dizes sorrindo então, e eu repito – Vidro, e tu ris, - Amanhã depois do exame irei buscar a minha irmãzinha ao emprego e levá-la a almoçar, ris como se dentes crescessem em mim, ou lamentos. E reparo como desde o dia em que a mamã partiu, nunca mais nos sentimos à vontade um com o outro.

segunda-feira, junho 04, 2007

Que te diz

Deus ama-nos nas nossas imperfeições, e não apesar delas, disse ela. E é essa sua acção nos nossos limites, que nos vai completando.

E ele, não soube bem o que responder.

Vou pensar nisso, disse.

E nem sequer sabia, se tal faria, ou conseguisse. E apercebeu-se, suspenso, que essa mesma limitação, ecoava o que ela dissera.