segunda-feira, janeiro 28, 2008

Bíblia 3

para a Isabel Sales Henriques



A primeira impressão que se tem quando se lê a Bíblia sem mais, que é afinal a primeira maneira de ler seja o que for, é uma espécie de multiplicidade disparada. Passa-se algo de semelhante ao que nos acontece com os grandes romances: uma série infinda de acontecimentos e personagens interpelam-nos, narram-se e são narrados, numa sucessão confusa de peripécias e sentidos. De Adão a Jesus há uma linha, uma genealogia, um trajecto; Abraão, Moisés, David, Job, Maria Madalena, e tantos outros, invadem a nossa casa e passam a habitar nela, como irmãos mais velhos que nos contam como a vida é, o que significa estar aqui sem mais, vivos, se é que significa alguma coisa. A nossa própria vida, claro está.

O personagem que doa unidade a tal panóplia é, como se sabe, o denominado Deus. Que ele se apresente sob diversos números e nomes, sentidos e modos, da sua pluralidade genésica à sua unidade mosaica, do arbusto em chamas ao trovão e à brisa suave até à humanidade de Jesus – ele é o personagem transversal, cujos inúmeros rostos e significados constituem precisamente essa transversalidade.

Deus é dado como um ir-a, um chamamento que ecoa de Adão escondendo-se à conversão cristã. Este referente faz com que os textos bíblicos sejam atravessados por uma peculiar remissão para fora de si próprios, isto é, para fora da sua leitura, assim como dos seus próprios conteúdos. Vai e faz, vem e escuta – é o estertor que os atravessa. São textos que dizem: isto é contigo que nos lês, é maximamente contigo. E isto que é contigo, não é algo contido nestas palavras e contextos, isto que é contigo é o Deus eterno que te criou e chama. Ele te revelará o que és na tua verdade e vida. É como se este personagem fosse uma intensificação da experiência geral da narração, e que a sua habitação em nós deflagre com tremenda presença e força no concreto da nossa vida. Quer abracemos a sua presença, quer a neguemos – nunca mais somos os mesmos. E há que dar uma certa razão aos que pretendem que o monoteísmo é perigoso, visto ser verdade que, na aceitação ou na recusa, pode enlouquecer qualquer um.

A dinâmica de tais textos, no seu apelo a um diálogo vivo, ao empurrarem-nos para fora das suas narrativas mergulhando-nos na nossa, dá-se também nos seus próprios conteúdos. Todos se centram em encontros e diálogos: pessoas, anjos e deuses, que mutuamente se transformam. Para clímax de tal indiciação, temos o próprio Deus revelando-se no humano, fazendo-se carne em Jesus, esse mesmo Deus que regateara com Abraão os justos de Sodoma e que debatera a existência de Job com Satanás, fazendo um trato com este. A inclusão, no corpo canónico do novo testamento, de uma alargada série de epístolas, confirma veementemente a dialogalidade originária do judaísmo; e a trindade cristã é outro eco desta estapafúrdia noção de que no princípio está o diálogo, a mútua palavra que escuta e é escutada.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Remissão

Sempre que caio no meu próprio solo e rezo, sou o próprio deus distendendo-se.

Avançasse assim, de olhos abertos e mãos em riste, cavaleiro seria.

Nada sou, mas entre mim e o ar, nada há. Cavaleiro fosse no gume afiado, no cálice sóbrio. O rosto que se toca, nunca mais se esquece.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Dínamo

Deus invade o nosso entendimento e transborda-o, orientando-o a partir de fora.

Isto parece eminentemente subtil, e é-o, mas depõe-nos igualmente no mais imediato e concreto.

Isto só vive da acção, daquilo que estilhaça as representações e as faz vibrar.

Isto apresenta-se, não no entendimento, não no estilhaçar deste, não na anulação de um ou outro ou ambos – mas na sua bipolaridade múltipla.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

O céu

em memória e agradecimento,
Olímpio Ferreira

A noção de espaço no tempo e a de tempo no espaço, eis a ideia a adquirir, disse o Homem-Rio. Óptimo, respondi enchendo a chávena de chá, Vou-me embora, ao mesmo tempo que ele corre as ruas e está frio e os transeuntes lhe parecem distantes. E no mesmo espaço o Homem-Rio acendia o narguilé e fechava os olhos pronto a vogar nos limbos da sua matriz.

Uma folha na água, gotejando o silêncio. António sobe as escadas com o seu corpo de cinzas, carregando atrás de si a escuridão dum monótono vazio.

- Sr. Marques! ouve dentro do som duma porta abrindo, a porteira surgindo como bolor num queijo, o som do interruptor e a luz bafienta acendendo-se para a madeira velha das paredes.

António carrega no botão do elevador como se suspirasse.

- A reunião de inquilinos de hoje ficou marcada para amanhã, sr. Marques.

Olhei para cima, a janela acendeu-se e soprei, uma chama branca e tremeluzente, com inaudíveis explosões nervosas que despoletam danças. Parecia-me que este oceano era o mar dos afogamentos. A janela abriu-se, eles sorriam numa vazia partitura, no fumo azulado que invadia o ar da sala.

Uma folha na água, gotejando o silêncio. Ele bebe o gin-tónico e saboreia o cigarro. Todo o movimento que o rodeia é inacção, toda a cor mero tom; acabou de cortar os cordões umbilicais que o ligavam à mãe-terra e agora só existe o surdo eco do vazio ressoando no ventre do seu cérebro; é água, pedra morta inacabada. O Homem-Rio acendeu o narguilé que se apagara e desatou a rir. Contemplei o brilho dos meus próprios olhos e bebi um gole de chá. As cores brilhavam como sonhos por vir, um violento contraste de dinâmica serenidade.

Uma folha na água, gotejando o silêncio. Ela está deitada no sofá, respirando como se o ar lhe pertencesse ou fosse uma extensão do seu corpo felino. Descansa da sedução, vermelha, enquanto o momentâneo silêncio da hora do almoço lho permite. Logo, chegarão os outros e o escritório encher-se-á de corpos, solidões e jogos de equilíbrio. Respira, como um jogador de boxe preparando-se para o combate, a fera descansando após a caça. A superfície lisa do lago espelha-se até ao horizonte explodindo laranjas e encarnados sombrios.

Estava entupido de chá e fumo. Vim para a varanda, olhar para o deserto branco como a noite, e enchi a chávena com tequilla que me ardeu o pensamento. O sol no céu nocturno está hoje silenciosamente histérico, como um corpo imóvel de tensão acumulada.

- Grande é o deserto, disse o Homem-Rio, mas maior que o deserto é o pequeno oásis com a sua água e frescura. Solange sentou-se, ajeitou a saia e passou a mão pelo cabelo, e como que silenciou a respiração numa adaptação à situação que mudara com o som da porta de entrada abrindo, e fechando. Solange sorri aos passos que avançam corredor fora, aproximando-se, leves na alcatifa, os passos seguros do corpo que conhece o espaço onde se move por dentro, as paredes, portas e móveis. Solange levanta-se e acende um cigarro, os corpos quando seguros na psicologia do espaço podem eclodir à luz dos sentidos e atraírem-se numa força ilusória de vitalidade, sentimento, Então, Álvaro, foi bom o almoço? O corpo inseguro de Álvaro senta-se no sofá. É um engano, a luz esvai-se com a morte? Solange fixa os seus olhos em Álvaro e age-os brilhantes como punhais, sorrindo cruéis, sentindo no enrijecer dos seios o desejo surgir etéreo, imbuído duma vontade de subjugar aquele homem que parece esquecido no sofá, com o seu melífluo sorriso de falso sedutor, o onanista disfarçado, De te ter em mim pelos nervos, pelo sangue, pela mente. A tequilla escorria das veias para os sentidos com uma ferina alegria. O deserto olhava para mim num agarro de pânico, como um corredor branco a estilhaçar. Algo me pressionava a fronte e os meus olhos engoliam o céu encarnado que me feria como uma chama entrando líquida. Eu girava. Dum modo estranho, pois girava sem referência, sem centro de gravidade ou eixo de rotação, como se planasse num espaço de que os meus sentidos não recebessem sinal que eu reconhecesse e pudesse descodificar, espaço esse que se fundia com uma expansão explosiva no que me rodeava. Deixei cair a chávena para a rua e abri a boca num esgar de riso. Voltei-me, o Homem-Rio sorria-me como uma imagem fixa, envolto em fumo, distante. Estou-me a esvair, disse-lhe eu, Estás-te a transformar naquilo que vês, pareceu-me ouvi-lo dizer antes de tudo escurecer.

Solange senta-se no beiral da janela e aninha-se no sol que refulge contrastando com a sombria luz fluorescente em que Álvaro se encontra, O parvo do Simões, vê lá tu, é mesmo velha rés, até as borrachas de apagar lápis conta, o sacana do velho. Os outros vão chegando, a quente imobilidade da sedução dissolve-se lentamente no movimento sincopado do inútil trabalho. Solange fecha as cortinas abafando o sol, senta-se à secretária, A guia de marcha afinal é para onde? Álvaro ri, Para Sueste! Solange estremece, Não percebi, pareceu-me ter ouvido… Como se tirassem as flores do sonho duma criança, Álvaro, passa-me aí o corrector, O sol, Álvaro, o sol, Uma folha na água, gotejando o silêncio.