segunda-feira, junho 28, 2010

Anjo de guarda 5

Bebe o cálice todo, até ao fim, e só então soçobra e reza, reza para lá da morte e da consciência, ergue as mãos apenas, caminha, assim pois.

segunda-feira, junho 21, 2010

Do acto e do eco

Desde os primórdios da reflexão viva, os homens estranham o incessante escoar do tempo, e o interrogam. Não tão só na dor insana dos amores lapidados, ou na própria morte em pânico entrevista, mas sempre e em toda a parte, na densa tessitura do vivido: funda é a fugacidade de todo o instante, e toda a memória apenas cinza à espreita do vazio.

O estarrecimento nasce do excesso de si em que seja o que fôr, em instância e instante, se constitui: todo o ente é mútua e essencialmente participativo: tire-se a animalidade ao cão e ao gato, e ambos nada são; assim vai também a concretude: tire-se o oxigénio ao mamífero, ou o sol à terra; e assim também a própria singularidade: das células às ideias, não há ente algum que detenha exclusividade originária daquilo que o constitui; tudo é trânsito e travessia, do pó das estrelas às palavras cadentes.

Onde vais, ó infindo escoamento, que em nada se detém?

A alma humana estarrecida não se reconhece. Maior que si mesma, é no rasgo e na abertura que pronuncia os seus alvores: ela sabe que cada momento seu e da vida não acaba em si, mas remete intrínseca e dinamicamente para todo o resto; totalidade esta, que a alma humana reconhece, mas não apreende. Ela sabe que para apreender cabalmente esta árvore com o seu pássaro e a sua sombra, estas palavras neste papel escritas com esta mente e caneta e todo o resto deste momento – teria de unificar as origens e os fins vitais da árvore, do pássaro, das palavras, de si, da natureza, e assim por diante até à totalidade do universo. E neste anseio ela se rasga, pois carrega em si as primícias e vontade de tal apreensão, um estonteante desejo ontológico que a abre cegamente a algo que ela, por si, não apreende: O que é este momento? O que é isto? O que sou eu? Resposta humana alguma esgota estas pequenas perguntas; e a alma balbucia pois: eu sou este incessante movimento de busca e encontro; eu sou um universo cantante; sou o amor de todas as coisas quando se conhecem em profundidade e integralidade, o que eu, ínfima estrela de palavras e corpo – não posso.

Ó vida infinda, movimento de tudo em tudo, onde te originas tu? E quem te pode apreender? Eu não de todo e modo nenhum, pois qualquer momento meu, é de ti que o recebo. Melhor seria dizer que tu me apreendes, como a música apreende a nota, a linguagem a palavra, se pensassem; e eis precisamente que ao pensar-se, a alma humana se tem a si mesma num frágil e tenaz segredo: o de distinguir-se, a partir do seu próprio movimento de busca e interrogação – de todo o resto, com o qual é relação interrogante; e de igual modo consigo mesma, enquanto eu que em si se estarrece, duplicando-se na sua auto-interrogação. A alma humana dá-se como excesso de si e da vida, duplicação que permite o diálogo com tudo e consigo, na consonância ou dissonância; canto da vida e de si, que no interior destas vibra e se ergue até às margens de tudo, e aí se dilacera no extâse dos seus próprios limites.

segunda-feira, junho 14, 2010

(Vem, entre mares e perdições, torturas e sensações. Antes: uma ave florida, estridente catatua. Frutos, cores, prazeirentas dores, criações; a morte na cabeça, fulgurante e serena – adivinhava-se no olhar, suspendia, poder-se-ia dizer: esta coroa branca de madrugada arde noite fora.)

segunda-feira, junho 07, 2010

Nisto reside a doença: a dissonância do eterno com o tempo, a nossa terrível surdez; e por decorrência, a do ser com a existência.

Não somos no que existimos. O que permite a famosa pergunta pelo significado: Quem sou eu? ou: O que é isto?

Somos por ausência, no alvo falhado da nossa própria tensão; que é aliás por onde a luz pode entrar, como diz o cantor canadiano.