segunda-feira, fevereiro 28, 2011

no abismo do abismo

o teu rosto

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Solange 2

Larguei o meu irmão na cozinha e fui pôr a mala ao quarto. Atirei-a para cima da cama comigo com ela. Sentia-me fria, como se o tempo por momentos deixasse de crescer dentro de mim ou o orvalho fervesse na primavera. O céu escurecia no horizonte da minha janela, cortado pelo lenço cor-de-rosa que me servia de cortinado. O quarto escurecia com ele e eu também. Um arrepio parecido com o desejo mas estabilizado na sua ascensão boiava-me nos nervos e uma depressão sem raiva abatia-se sobre mim, como um desgaste. A imagem duma criança surgiu na minha retina, esfumada sorrindo, como quando se está meio acordada no calor do verão e o sonho ainda ou já nos arrepanha os sentidos. Fechei os olhos e concentrei-me, quero eu dizer virei o olhar para dentro sem fixar a atenção na imagem da criança para que ela não desaparecesse mas se delineasse e falasse.


Perdi gradualmente a consciência de orientação, para que lado era a porta ou a janela, o tecto ou o chão, depois a própria situação espacial, como se flutuasse num espaço que era eu mesma ou então nada fosse mas que também nada existisse para além desse vazio em que eu me não sentia existir.


E deslizei, numa liquidez sem ruídos, esta reconhecida sensação de queda para cima, a criança lá estava sorrindo, como que triste ou perdida numa espera indefesa, apetecível como se se afogasse no licor da panaceia. Não fazia mais nada senão girar sem se mover, como uma vertigem desmaiada, e sorrir, ao que respondi tentando agarrá-la mas os meus braços apenas tocavam o horizonte em que eu a via, distante como um vislumbre.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

onde é
onde não é
além do há
tu hás oh deus

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Almada Negrume


para a madrinha
para a Antígona, a da meia-noite

Pim Pam Pum!

O Pai matou o Filho, e a sua soberania brilhou e adensou-se até o seu próprio peso lhe minar as fundações; e o Filho morto ergueu-se do fundo da fragilidade paterna, e feriu o Pai de morte; por breves momentos, quedados ficaram no seu terno e mútuo extenuo; e na fragilidade de ambos, ergueram-se a Mãe e a Irmã, prontas a renovar o reino numa feminilidade por descobrir.

Ratata trás paf paf!

Um certo quedar então de tudo houve, como se a apocalíptica humanidade, por breves momentos, se distraísse da sua própria narrativa; ou porque o lepidóptero falsificou esta na sua mecanização e mercantilização do mundo; mas até os menos atentos podem ver, pelo menos desde a última década do séc. XX, que a tensão antropológica atingiu suficiente intensidade histórica para o mundo (voltar a) estremecer; o que desde então tem vindo a mostrar-se cada vez mais consequente e infalivelmente.

Trum pás tás tatatatatatatatatata!

Oh a Igreja: dada a sua peculiar formação histórica, assim como o seu papel na configuração narrativa da humanidade – ela é o lugar onde as tensões antropológicas sempre se mostraram com mais vigor e radicalismo: qualquer platónico ou idealista é um menino perante um gnóstico ou um cátaro, e um cientista moderno um racional hesitante perante um tomista; assim como qualquer despótico ou libertário não passam de pálidas imagens de um inquisidor ou de um mártir. A Igreja é (um dos) lugares onde se revela o mundo; e tantas vezes, por gerar no seu próprio seio, a visibilidade maligna de ocultos terrores mundanos. E é assim que as interpelações cristãs mais dinâmicas, se apresentam hoje conflitualmente no integrismo e nas heresias libertárias, pois aí se revelam com mais acuidade, os sentidos e não-sentidos que rasgam as entranhas do mundo; e que a maioria dos discursos magisteriais ou paróquias pequeno-burguesas, nos fazem adormecer de tédio e lassidão de sentido.

Taratata tum tum puf!

Há quem não perceba isto, oh lepidóptero; e mantenha a tentativa ilusória de interpretar a História pelo prisma da paz podre: a do seu pontual e pequeno conforto pessoal. Pobre cretino: confundiu a suspensão do movimento histórico com uma elisão das suas tensões antropológicas; esqueceu-se que toda a soberania se paga com sangue de outrem, que mais tarde ou mais cedo banhará o reino.

Taratantantam! Pantapantapanta tufa!

Agora aqui e aqui e agora: há quem perceba isto e afie a espada, ou se prepare para sangrar; e há quem perceba isto e afine o riso e a distância, na preparação de crónicas e reflexões; como também há quem perceba ou não perceba isto, e com armas e desarmamentos, com riso e lágrimas, com aqui e ali e antes e depois - continue a trabalhar e tudo adentro do reino sem soberanias.