segunda-feira, março 26, 2007

Agrapha 3

E Jesus disse: toda a busca, no seu anseio, traz a semente da sua recompensa.

segunda-feira, março 19, 2007

Herética

1. Se atentarmos à história da heresia, e respectivos concílios que se confrontam nela e com ela, reparamos que um dos polos de confusão é o mistério do deus-homem (no fundo, é o que passou a significar o epíteto “ungido” no cristianismo) e a tentativa de domesticar esse mistério dando primazia a um dos polos, humano ou divino. O pelagianismo escapa à primeira vista a esta tensão, mas numa problematização mais aprofundada, notamos que o facto de a natureza humana não poder salvar-se (comungar com o divino) a partir de si própria, se conecta intrinsecamente com a questão de Jesus ser também inteiramente humano. Esta apreensão histórica dá um sentido à etimologia da palavra (escolha) pois tem que ver precisamente com a escolha de um dos polos da tensão cristã.

Continuando a atentar, vemos no conteúdo herético, um dos polos da conversão contínua a que somos chamados. Se debitarmos os paradoxos da fé (inteiramente humano e inteiramente divino, para o caso) sem balançarmos dum para o outro, não é na carne da vida que estaremos a viver o cristianismo, mas tão só no discurso e na representação, o que não faz muito sentido pois o cristianismo pretende deflagrar estes para lançar-nos no transcendente e trazê-Lo à vida. É a tensão entre ambos que permite e instiga o movimento da conversão. Ou então estaremos a usar os mistérios da fé para os nossos interesses de grupo, ideológicos etc etc etc ao arrepio total do comportamento, precisamente… de Jesus.

O anti-cristianismo duma heresia não reside tanto no conteúdo humano ou divino focado, não se funda no seu estertor inicial – mas na pretensão de resolução da tensão numa adaptação a um ponto de vista ainda por transfigurar.

2. « Jesus é Deus ».

Ora se o « é » significa uma igualdade estrita, teremos de dizer, das duas uma :

- Jesus não é humano, pois nada humano é criador do universo ;

- Jesus não é Deus, pois Deus não nasceu numa noite qualquer num qualquer estábulo.

É a tensão entre ambos que permite e instiga o movimento da conversão.

Mistério que move.

A fixação do mistério em conceitos, numa tentativa de entendimento e inteligibilidade dos mesmos, e que constitui um dos movimentos da procura e do anseio, não pode anular a tensão, visto que é nesta que está a dinâmica.

É a igualdade irreflectida dos termos « Jesus » e « Deus » que obriga a fixação (só Deus ou só humano) ao contrário do que dizem os nosso preconceitos mais apressados.

É evidente que nós gaguejamos o mistério da relação de Jesus com Deus, em infinita diferença à nossa : consubstancialidade, da mesma natureza que, absoluta transparência e por aí afora confusamente.

Jesus é da mesma substância divina como eu sou da mesma substância do universo criado.

Em Jesus habita a presença total do divino, tenha ou não consciência disso em todos os momentos da sua vida, tal como eu sou totalmente habitado pela minha natureza, mesmo quando não penso nela ou a/me vou descobrindo e encobrindo continuadamente.

Jesus vê o divino com a mesma transparência com que eu vejo o meu habitat natural.

Mas tudo isto, obscuro está - é um mistério.

Chama-nos a mergulhar nele com confiança e terror, amor e segredo, e darmo-nos no mundo a partir dessa estilhaçante luz.

3. Podemos também reparar na questão da canonicidade dos textos neotestamentários. Lendo os apócrifos na sua radical diversidade entre si, não sou capaz de deixar de notar que estão no entanto imbuídos duma tentativa (natural, e que todos fazemos à luz da nossa personalidade, época e lugar) de tornar o paradoxo do humano-divino de Jesus categorizável, tal como aliás ocorre também nos evangelhos canónicos, mas dada a sua maior proximidade com o facto Jesus (tanto cronológica como eclesial ou apostólica) esse elemento é tratado de outro modo, isto é, mais conivente ao mistério. Isso não significa que os apócrifos sejam livros cristologicamente errados em todos os seus enunciados, a não ser no sentido que todos nos vamos errando no trajecto. Significa que correspondem à tradição, à longa caminhada de Deus no interior de cada um de nós, e que os textos neotestamentários, têm uma proximidade que mais nenhum outro texto nem memória têm.

4. Porque há uma rosa.

« Eu e o Pai somos um », e qualquer um que ande – tropeça perante tal afirmação. Que Deus nos pegue pelo colo nesse movimento (graça infusa) é outro momento do tropeço, ou outra questão, quero dizer – é posterior, em termos da dinâmica de conversão.

Isto leva-nos a notar também, que a heresia e a distância apócrifa têm uma certa correspondência nos enunciados apostólicos sucessórios, que tal como Pedro antes do galo cantar, ou enfrentado por Paulo em Antioquia – se retiram tantas vezes do que lhes dá voz e palavra.

Ó Deus do céu e da terra, do mar e dos infernos e dos soçobrados ventos e marés, eis os que na escuridão de si por Ti clamam, os que ainda vamos a caminho do que já chegou.

Até porque ninguém que não divino – pode estar mais perto ou mais longe do inquantificável.

Jesus é um inagarrável que nos arrebata, as mãos vazias e dolorosas erguidas à noite, no dia da invisibilidade do mundo, na sua completa opacidade.

Convém não esquecer o esquecimento. Convém não esquecer, que a Deus – ninguém detém.

Lembra-te. Como reconheceu Madalena o jardineiro?

segunda-feira, março 12, 2007

Nota

Cuidai: o cristianismo, é passar a ser-Te directamente.

segunda-feira, março 05, 2007

Hóstia

Quantas vezes me quedo orando e não comungo as espécies, unindo-me a todos os cristãos que canonicamente não podem fazê-lo (e poderei eu ?)

Que grito este, em que àqueles que feridos anseiam por Cristo, lhes é reoferta a fenda dessa mesma ferida.