segunda-feira, janeiro 29, 2007

Branco 2

Ele, que endureceu o coração do faraó, e lhe matou o filho - condena-lo-á?

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Agrapha 2

E no entanto, no horror e no degredo, na tortura e no desprezo, ele sorria, chorando e gemendo também, mas sorria, e era como se aquilo dissesse – este sorriso, é o maior segredo da existência, a verdade máxima da vida, o seu sentido primeiro e último.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Um pouco antes do sol desaparecer por trás dos prédios – em memória de Ayrton Senna

Não saberei precisar quanto tempo e distância caminhei, as estradas curvavam e estendiam-se enfiando-se na clara e branca neblina matinal onde boiavam pinheiros escuros e rochas e casas e nenhum ser humano nem animal, subi e desci ladeando e atravessando a serra, o sol subiu no horizonte e a neblina a pouco e pouco se dissipava como que rasgada pelos raios e a atmosfera se tornava amarela e viva e quente, carros passavam agora de vez em quando, era um som que se aproximava e afastava trovejando, eu não pedia boleia, era das últimas coisas que eu queria, sentar-me e rolar motorizado na companhia de alguém seja quem fosse, as minhas pernas atiravam-se à estrada como que por si próprias, pareciam-me imunes à vontade e que se decidisse parar nada aconteceria e seguiria aquele compasso rápido e de largas passadas com uma alegria e bem estar que me não eram próprios. Assim, sentia-me bem, a planície alargava-se após a serra, uma casa de madeira postava-se ao lado de um pequeno amontoado de árvores, naquela zona a neblina acumulara-se como que estagnada, dissolvendo-se no campo semeado, a terra castanha polvilhada de manchas amarelas, um casal arava a terra, o homem segurando a charrua atrás e a mulher guiando o boi à frente, pareciam lentos e serenos e era certamente um ritmo confiante e seguro, como as minhas passadas que prosseguiam no suor e no tremer do corpo com o cansaço e nervoso suponho, saudei-os erguendo o braço, ao que eles responderam executando o mesmo gesto ao longe e segui à medida que o asfalto aquecia e o número de carros aumentava.

Sem parar ia golando a garrafa que acabou por esvaziar-se e de que me desfiz ruidosamente na estrada espalhando cacos de vidro em toda a sua largura, um carro poderia furar os pneus, oxalá provocasse um acidente e até se ferissem ou morressem, talvez fosse o melhor que podia acontecer.

Entrei na vila pequena e ensolarada e devia ser hora de almoço, pois as tascas estavam cheias e tive de esperar um quente e largo e impaciente tempo até me sentar numa esplanada bebendo uma imperial fresca e dourada como o sol. O pessoal à minha volta bebia os destilados e os licores, dissolvendo o pesado almoço português do não-faz-nada-à-tarde e falavam uns com os outros em voz alta e sons de vidro e louça e portas batendo, perguntas fazendo-se ouvir por trás do falatório. Sentia-me mesmo bem, cada vez que fechava os olhos parecia-me ser uma mulher vestida de verde correndo numa extensa e invernosa praia ou então uma criança partindo pratos e copos e travessas, era mesmo porreiro, o sol declinava no horizonte e eu ia bebendo copo após copo amolecendo no calor que se esvaía, a esplanada foi-se esvaziando, os empregados encostavam-se ao balcão conversando e trazendo-me imperiais a um simples erguer de braço.

Era já madrugada e sonhaste que voavas por cima da cidade.

Foi quando me levantei que a coisa se abateu sobre mim, cinzenta como um corrimento infeccioso, a noite escura avançando no tamanho dos dias, a angústia pulsante e oblíqua dentro da alegria. Caí para a frente como se derrapasse, arrastando a mesa e algumas cadeiras, os copos partiram-se no solo e os olhos viraram-se todos para mim, é assim, todos caímos em queda livre, apenas que uns caem para dentro e outros para fora, os primeiros são mais espertos, apenas isso, defendem-se mais.

O que me parecia milhares de braços tocava-me e puxava-me, e as vozes, as frases, sarcasmo e reprovação, eu conhecia-os dentro e fora, eu, António Marques, sabia perfeitamente do que falavam e como e para quê, os vampiros que chupam a miséria dos outros para atenuar a própria, os carrascos da vida que não deixam a adolescência foder nem a infância brincar, merda, e sufocavam-me, ali todos à minha volta e por dentro como se me chacinassem, desatei aos urros e levantei-me ao ar com quanta força as minhas pernas permitiam, agitando-me como um possesso até saltar fora daquele nestum como uma rolha de champanhe e ficar encostado a um poste olhando a esplanada e as faces que me fitavam. Se tivesse uma pistola tê-los-ia morto ali mesmo como se desse um tiro em mim mesmo, estava a rebentar de raiva e ódio e sentia-me perdido e abandonado e sem faróis para guiar-me, foi mesmo assim de repente ou consequente, puta de zona densa e pesada que vive da luz e nos devora e confunde, desatei a vomitar como se o mundo se abatesse sobre mim e desandei, ninguém me disse ou impediu algo, devia estar fixe, a aguardente e a cerveja ajudavam também.

Não há muito a fazer nestes estados senão deixar-se ir numa espécie de espera caminhante, para o fundo como se de cima se tratasse, aliás estava mesmo a precisar duma garrafa de vinho, ou qualquer coisa mais forte, whisky ou gin ou melhor ainda tequilla, entrei num supermercado e aviei-me, porra, era a única coisa que me apetecia, tinha de viver, tinha de morrer, não era mesmo nada porreiro, era uma confusão do caralho.

Se andasse, as pessoas, sentado, portas, janelas, sacos de compras e cigarros acesos, esquecia-me que éramos todos feitos do mesmo, a mesma pasta de merda e maravilha, não era eu, as faces não me reflectiam nas ruas em expressões e gestos, não era eu, só ódio, só raiva, um corpo estranho, abri a garrafa e golei-a a fundo, eram três, tequilla sierra, mesmo á maneira.

Eu próprio era o esquecimento, não sei mesmo o que se estava a passar, como uma pedra que caísse no fundo de um poço e os sapos olhando, o carro ali estava, esta ferida que sangra para dentro, a noite escura, a rua estreita e vazia, a zona obscura, eu sabia, era só ligar o fio encarnado ao preto, alguém gritou duma janela, arranquei embatendo nas paredes e abatendo caixotes do lixo, a estrada abriu-se, era toda minha.

As garrafas estavam no banco ao meu lado, a vila ficava para trás, pronto, aquilo já era qualquer coisa. Não guiava muito confiante, não, parecia-me que a estrada afunilava e que eu não guiava mas estava a ser sugado incontrolavelmente, as luzes passavam à minha volta como se rodopiassem e me envolvessem, golava a garrafa e deixava-me ir com o acelerador a fundo. A estrada era toda minha.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Agrapha

Vaidade, é tudo vaidade. Vaidade e medo da morte.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Barro de burro

No entanto, manter a expectativa aberta ao impossível, abrangendo este – será algo que consigamos.

Nem pensar, precisamente. Quem sabe, escutando. Os frémitos das asas dos anjos, a brisa de Deus fora do sono e do sonho.

Quem sabe.

Ninguém precisamente. A flor se fosse pássaro, ou o espanto desejo. Quem sabe.

Depois do dia e da noite, raia a aurora que rasga os céus.

Aí mesmo, mesmo à frente, e atrás, e de todos os lados e por dentro e por fora.

Aí mesmo.

A voz que ao escutar-te, te diz. O teu nome, é sempre pelo nome mais próprio do que aquele em que te pensas ter – que o desejo de Deus em ti ocorre. Nada mais é, aliás, que o próprio Deus desejando-te por dentro e por fora, desde há eternidades antes do existir, antes da noite e do dia e das velozes constelações, durante o sangue e a dor do primeiro parto, do único surgimento de todas as coisas.

Trauma primeiro, coisa que não podes olhar e te precede e te é profundamente no limite de ti, na doação de ti a ti e ao resto, às coisas e às forças e ao outro e à morte toda. Deus é o que esquecemos com mais veemência e continuidade. Violência amorosa de tudo, que nenhuma vida criada contempla sem morrer. Pura presença para lá de todo o nada.

Disto só a oração sabe, o lugar onde até os anjos fecham os olhos.

Mesmo aí um pouco á frente de ti, estrita e imediatamente aí.

A morte é uma laranja que se descasca. A morte é o estar aqui, a casa onde todas as pequenas vidas se sustentam no silêncio de si, a vida somente nada mais antes de toda a palavra, o primeiro frémito e nada mais. Onde tudo é belo e bom simplesmente porque é, antes de todos os actos e momentos. Antes dos animais falarem e dos humanos se assustarem.

Onde todas as respirações estão suspensas, as respirações de todos os hojes e amanhãs desde sempre.

A morte é o útero da vida plena, imediatamente agora e nunca. Mas quem o poderá dizer? Sabe a criança isso. Como podemos nós saber isso, porquê que o dizemos, como o dizemos, porque raio inventámos Deus e o chamamos?

Onde Deus se inventa em nós.

A resposta, soa no fim de cada qual. Mas não se diz, não se diz o que está antes da palavra, o nome antes do nome dito. Aí, onde somos, não nos podemos dizer uns aos outros, apenas darmo-nos no silêncio maior da doação. O amor é o silêncio de todas as palavras, um simples olhar mutuamente acompanhado, um sorriso e uma lágrima e a boca que se entreabre sem ser para falar.