segunda-feira, março 31, 2008

Adeodato

Toda a alegria pulsa e tem, na temporalidade, a sua própria perda.

A sua fugacidade, a nossa.

E aqueles que retêm na própria perda, a presença de si, são os trágicos e transfigurados – bailarinos do tempo cantante.

O seu canto dá-se no rasgar de todas as coisas.

(De todas as alturas em todos os séculos e distâncias, não retenho senão ruínas, e eu mesmo igualmente, perdido no abismo do meu próprio presente. Fugazmente, por vezes com certa raiva, canto o silêncio todo que escuto no fundo do nada, onde só a voz do divino se consegue fazer ecoar.)

Há quem tenha renascido por menos, é caso para dizer. Pois essa retenção esvaziada, é o esplendor das coisas que passam. O excesso de si, que de algum modo comportam, e as faz ser.

(Só aquele que canta na sua própria morte, pode dizer que é a própria vida a dar-lhe voz. O que do fundo e da superfície de si, brota totalmente gratuito e injustificado. O segredo dos dias, e da eternidade que os comporta. E entre esta e aqueles, entre o que há e o excesso de si, é caso e rima para dizer – há uma porta aberta que chama à reabertura.)

Acende a luz acesa, foi dito, e do esquecimento jamais sairá. Acordarás no sono das próprias coisas, foi acrescentado, mas já com muito menos convicção. Entre a esperança e o susto nascem as flores deste canto, entre mãos que agarram e soltam no mesmo estremecimento.

Há um sopro, é certo, mas não te vires que não é nada. Esta seria a voz do demónio: não vale a pena, já passou. Não percas tempo, trata mas é dos teus assuntos. E assim chamar-nos a cair na única e própria perda de tempo: fechar-nos entre as ruínas da memória, e projectos que se escoam no fugaz futuro. Que assuntos temos, que propriamente sejam nossos?

Quase tudo o que é considerado sério, tradições e construções do amanhã – orientado apenas por e em si, é do reino do demoníaco. Já o sabia o evangelista, que chamou mundo a esta alienação de si no tempo, a esta fuga da vida que ressoa no concreto e no imediato, a este discurso que justifica o que há com o que não há.

(Ou inversamente.)

No eco do concreto farei a minha casa, é caso para dizer, e ruínas e projectos por esse silêncio se medirão. Pois assim se dá, entre infindos outros modos – o mítico equívoco de Colombo.

segunda-feira, março 24, 2008

Laudes 3

à senhora da capela
mas isso tu já sabes


Louvada a noite que o uivo dos lobos silenciou, louvado o céu que a mão de deus rasgou. Louvados os anjos que com a sua espada cingiram a criação inteira e a focaram no deus frágil e indefeso. Louvado o coração que no seu ventre o acolheu.

Louvadas as mãos que o ensinaram a trabalhar a terra, a domar as árvores e a transbordar de pequenas ternuras e mágoas. Louvada a alegria que lhe mostrou a dracma reencontrada, louvada a palavra que lhe foi ensinada.

Louvados os que o levaram a ver o mar, a sentir o vento na face e a puxar a corda que estica as velas. Louvados os que lhe deram o peixe e o pão, a tenda e o agasalho, a fogueira e o diálogo.

Louvados os que lhe cuidaram dos joelhos feridos em infantis pelejas, louvados os que lhe contaram estórias cheias de magia e imaginação.

Louvados os profetas que o iniciaram, louvados os pobres que lhe mostraram a verdadeira riqueza. Louvadas as águas do rio que o seu fim fecundaram, louvadas as margens da cidade que para o templo transbordaram.

Louvada a morte que o levou, louvado o pão que ela rompeu, o vinho que ela derramou. Louvados todos os que à sua mesa e até ao fim do mundo se reúnem e recolhem, caídos e erguidos, esfomeados e repletos, louvados sejam.

Agora e na hora do nosso deus, ámen.

PS: Louvados sejam por me chamarem e alertarem.

segunda-feira, março 17, 2008

Na pétala depõe 2

Pega na tua convicção e faz dela matéria de interrogação, e nada mais.

segunda-feira, março 10, 2008

Intolerância

Tolerar seria como que aceitar um mal, o que na decorrência acontece, nem que seja pelo senso do mal menor, mas por princípio não. O mal é por definição o intolerável, no limite.

Na guerra santa, para dizê-lo com bazófia, We take no prisoners.

O mal em mim, quero-o ardido na pira do amor divino. Assim como o bem, evidentemente, que nesse fogo é revivificado e transfigurado - no próprio espírito divino.

Que é para misticamente dizê-lo.

segunda-feira, março 03, 2008

Do post anterior

Veio-me parar às mãos uma corrente, que me pedia doze palavras de eleição. Enfim, parecia uma corrente, mas na verdade era um beijo no coração, quero dizer, tal como o telefone traz a voz amada, indiferente ou inimiga, apagando-se a si enquanto veículo ou pretexto, também assim o são estes jogos de net-conexão. E esse beijo era uma flor carnívora a rebentar de ternura. Também, da MC, não se poderia esperar coisa menor. Quanto ao telefone afogueado, qual é a dele? Palavras? Ora merda, ainda por cima doze. Doze é o estuporado número do tempo cíclico, e eu cá se não fosse cristão, até seria budista, mas no movimento da incarnação atravessa-se e habita-se o tempo cíclico fecundando-o e contaminando-o da sua própria superação, que é afinal a sua origem e sentido. Que eu próprio não perceba a pirataria que fiz, onde então as doze palavras? Ora estão aí, tal qual para fora, nunca estiveram ou estarão, talvez um dia, um único dia.

E sopro a corrente para o ar, para que poise nas mãos de:

- à mana sophia, que o amor todo que não há no mundo e o invade, te seja força e alimento, chama e refrigério;

- ao bispo de erewhon, que o anjo da luz te seja protecção e a sua queda elevação tua, nos mistéricos caminhos da máxima luz;

- à senhora gotika, no enfrentamento do terror quotidiano, que a lucidez e a virilidade te abrasem a alma com que vives e contemplas o mundo, na dignidade que este não tem;

- ao si-próprio acrobata, que agora abre portas de barbacã, que a serenidade e gentileza te orientem a inteligência com que caminhas, e que o teu amado seja parte inteira desse caminho;

- à senhora da ínsua, que o silêncio do oceano te doe as palavras com que dás voz aos impossíveis nomes e actos, para tanta beleza e bondade que deflagras quieta, veloz e sabiamente.

Na dita, desdita ou redita de no entretanto aqui passarem, recebei a corrente, que mais do que for, é sobretudo modo de vos agradecer o tanto com que já me iluminaram e alimentaram com os vossos blogues e comentários.

E lembremos agora o Christopher Walken, que uma única vez na vida tentou realizar um filme, não o conseguindo acabar porque, segundo as palavras do próprio, o que lhe parecia conforme à situação a realizar no plateau era: Do whatever you want. E afinal, há coisas bem mais importantes do que acabar filmes, quanto mais não seja e precisamente – não acabá-los.

Deus vos abençoe, caríssimos, como só ele sabe.