segunda-feira, março 23, 2009

Bazófia das cinco da tarde

Um suave terror em certas tardes sem melancolia, o ambiente em sussurro de tal grito, na estranheza da ideia do deus enquanto criador; o rosto do ser e da vida, a nossa própria morte; porque não apenas na anterioridade de tudo, deus é no abismo anterior a essa anterioridade; a ignorância pura, brutal e abissal, dentro do próprio abismo; o terror advém de que mesmo a nossa mais funda e volátil fé, não tem ainda medida nem substância do próprio deus; mesmo esse para lá de nós que se inscreve na fé, ainda é separação, cegueira; é portanto a fragilidade mais funda que é forte na fé, os olhos do moribundo depois de morrer, que são o mínimo abismado perante Deus, que são o mínimo disso que somos perante Deus; quando o entendimento, e a própria fé, estão soçobrados perante esse fogo tempestuoso da brisa suave, ou nem isso, nada mesmo talvez; a primeira inscrição da cruz é o nada, claro, uma espécie de misticismo atroz, o deserto de nada termos propriamente nosso perante Deus; e que nada absolutamente nada do que temos e somos está verdadeiramente esclarecido; a queda absoluta, eis a elevação da cruz, no céu que se rasga e na terra que se abre; o silêncio dos mortos depois de morrermos, e pouco mais, senão nada, eis o que temos e somos que seja nosso; a fé é essa inaudível escuta desse mesmo silêncio, e pouco mais senão nada; uma semente mínima como a chama da vela que não se quer apagada atravessando tempestades, uma coisa impensável, um soçobro no poço dos poços; é que na verdade, não há nada que possamos dizer ou ser ou viver sobre o assunto, esse o suave aterrador, a ironia mais funda; dialogamos e somos e vivemos em pura escuridão, eis o que seria um modo de o dizer à boa maneira fadista; palavra alguma temos sequer que diga a nossa própria morte, quanto mais pretender deter com clareza suficiente certas palavras do ressuscitado; não brinquemos, diz o fadista, no gume da sua própria navalha; aprende-se muito com a ignorância, é o que se poderia dizer no cenáculo de Deus, se alguma vez o tivéssemos feito; é por isso que ou a essência do diálogo e da comunhão é abissalmente sustida no próprio deus, ou não há igreja; enfim, é uma ideia estranha, é certo, um medo indolente e denso, a rede dos dias e das noites quando estes acabarem, quando estes acabam no próprio Deus e em tudo, quando estes acabam o que sobra, é isso a semente; é aí, diz a navalha depois de matar; o resto, ainda é conversa de compadres e comadres, ainda é política, ainda é negociação proveitosa; ainda não é a cruz de cristo.