segunda-feira, outubro 01, 2007

Decerto

Dêem-lhes um deserto, aos corações ansiosos, que eles o regarão com água e sangue, na antevisão de inúmeros rostos vivos.

21 Comments:

Blogger joaquim said...

Bem regressado Vitor.

Até no deserto acontece vida nova...

Abraço em Cristo

12:55 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Olá, Joaquim.

Sobre-tudo no deserto… ;)

Abraço em Cristo.

6:55 da tarde  
Blogger Goldmundo said...

Um tempo para o deserto e um tempo para a floresta: é esta a pulsação do mundo.

6:22 da tarde  
Blogger Terpsichore E. M. said...

ola vitor!
foram boas as férias?
3 beijinhos: um da fada, um da musa e um meu... :)

2:04 da manhã  
Blogger Terpsichore E. M. said...

Sobre tudo no deserto! Haha! Este Vítorzinho! Começo impecável.

É verdade. goldmundo:

Não nos esqueçamos dos nossos irmãos Orientais, que se retiram para a Floresta... ou o nosso Frei Agostinho que se retirou para a Arrábida... ou os Monges dos Capuchinhos...

Parece que em Portugal... são mais as Florestas como local de retiro... (enfim, antes de arderem). Desertos, há os emocionais... os desertados de amigos...

2:13 da manhã  
Blogger Goldmundo said...

O deus da floresta, ao contrário do do deserto, é um deus sem majestade, Terpsichore. No deserto não podemos ver o nosso rosto, a não ser talvez na enganosa miragem.

(suponho que o vitor dirá que no deserto não precisamos de um rosto...)

3:03 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Huuuum... Junger refere-se à floresta como um passo para trás, um retiro do mundo, um retorno à origem de si.

Curiosa imagem.

Se se colocar o deserto como um passo para a frente, um lance para a finalidade de si.

O alfa e o ómega.

Entre ambos, a temporalidade acelerada, o mundo, a zona de agitação. Que por si, na sua incompletude, seria – a região da não-verdade, a possibilidade de ilusão, de irrealidade, de perdição.

PS: Abraço, maister.

PS 2: O Outono é um tempo florestal ;)

PS 3: 3 beijinhos também, Terpsichore, um da vitória, outro da mácula, e o terceiro do indizível de ambos :)

PS 4: Cristianismo: não abandonar o mundo, mas configurá-lo na tensão entre a floresta e o deserto.

PS 5: O rosto, pois... a ausência de rosto não será rosto?... Qual o rosto do extático?... Ou da miragem?... Huuuum...

PS 6: Gnomos e fadas na floresta, clareiras escondidas e tocas...

1:09 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Pois. Talvez não precisemos dos rostos, que levamos para o deserto (ou senão nem estaremos no deserto; mas este nos doa um rosto, ou transfigura os rostos abandonados. Huuuum...

1:20 da tarde  
Blogger Goldmundo said...

O Passo da Floresta, sim.

John Buchan, que talvez não fosse crente, e que detinha a chave de caminhos abissais:

"Os deuses só nos falarão face a face quando nós próprios tivermos um rosto".

2:54 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Certeiro Buchan.

Só se entreolham rostos. Um olhar que não dialoga com o que foca e desfoca é um olhar morto.

Caminho. As pedras e os prédios olham para mim com dor e furor. A cidade rasga-se, o sono desperta, continuo a caminhar. A reflexão é um momento indispensável à orientação, mas não é fundante nem primeiro, e também não é final. É um dos instrumentos de apuramento do olhar, tocar, interviver. A reflexão é a paragem do autocarro, o cais silente das viagens e visitas. Respiro, a cidade caminha em mim.

(Bom dia!)

11:37 da manhã  
Blogger Terpsichore E. M. said...

... por continuar... :)

1:53 da tarde  
Anonymous Kirilov said...

desejo e deserto sao incompativeis o asceta parte para a total aniquilaçao de si na procura de si, sem rosto ele transforma-se em anjo ou demonio
supra si mesmo
é esta a experiencia do encontro com deus?

6:24 da tarde  
Blogger Goldmundo said...

É essa a experiência do encontro com os deuses do engano.

12:25 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

… sempre, Terpsichore… :)

12:46 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Olá, Kirilov.

Desejo de deserto e deserto de desejos… Não sei se se trata duma total aniquilação de si. Trata-se sem dúvida duma aniquilação de determinados modos de apreensão de si: a auto-representação, a auto-análise, a sociabilidade, a construção cultural de si etc etc etc etc O reencontro consigo em Deus é uma violentação do encontro espontâneo que temos de nós próprios; mas o sem rosto é uma fase do exercício, não a sua finalidade. Pode também haver um regresso à representabilidade de si (auto-representação etc) mas que passa a orientar-se e situar-se a partir do encontro em Deus.

Sem rosto somos uma ausência, uma espera, uma busca ou uma morte morrida; os anjos e demónios possuem fulgentes rostos.

O nosso problema ocidental é muitas vezes pensarmos em termos de mútua exclusão, e as transcendências imanentes fazerem-nos confusão no discurso (porque na prática da paixão amorosa, por exemplo, ou da experiência estética, executamo-las na boa…;) X é em Y, Je est un autre…

Um abraço

12:47 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Maister, fizeste-me lembrar a liminar afirmação de Lutero de que fora de Cristo é quase impossível distinguir o divino do demoníaco... Acrescente-se que só da mentira se chega à verdade (senão já lá se estaria, não?) Mas há enganos ou confusões que não constituem caminho mas sufoco. Somos um misto de verdade e mentira em construção. Oriento-me para e a partir de qual dos polos, eis a questão... Abraço

12:52 da tarde  
Blogger Goldmundo said...

Vítor, deixa-me dizer uma coisa muito importante. Só há um pólo :)

Parece uma lapalissada, mas não é. E tanto os antigos pagãos sabiam isto que ainda hoje se fala no "árctico". Arctos: o mesmo nome que foi dado a Artur-o-rei. O demoníaco não é um outro pólo, mas a inversão do Único.

Também me faz hesitar esse uso que fazes de verdade-mentira. A mentira não é todo o imenso campo da quase-verdade, a seta disparada ao alvo que falhou e caiu ao lado: o mundo. A mentira é SÓ a inversão: a flecha que tem como alvo o próprio coração do arqueiro.

Curiosamente, Set, o deus que inventou a cruz invertida, era também do deserto...

abraço

4:49 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Sim. Um. Em "si". E mesmo assim...

Para ti, humano que caminhas, constitui-se em dois polos de tensão: o eco e a dissonância.

O mesmo assim: cristologicamente, a unidade primeira é dinamicamente tripolar. A criação não é uma emanação directa duma impassível divindade.

Seja como for lá para os lados do divino, é muito difícil para o nosso lado distinguir concretamente a quase-verdade da inversão, ou do caminho para esta.

A seta directa e totalmente invertida, sim, essa é o sufoco, a morte.

(Um coração outro que se meta entre o teu e a seta, um coração outro que não soçobre à seta invertida. Ou então estás feito ao bife, se pensas poder distinguir com clareza o sentido da seta. A miopia é lixada ;)

O nada não é simples e formalmente uma ausência pacífica de ser - mas um vórtice que suga, uma atracção. Daí a terrível vertigem.

Em suma confusa: o facto de as rectas se cruzarem no infinito, não anula que no quantitativo não se separem.

Em suma confusa 2: da quase-verdade podes tender para a verdade ou para a mentira. Tens a certeza para qual concretamente tendes? Ou melhor, tender, tendes para ambas, mas para qual apontas o teu esforço?... O mundo, essa quase-verdade, na tradição apocalíptica, orienta-se pela inversão de si, por exemplo.

Em suma confusa 3: A vida é movimento. Não há a verdade, a quase-verdade e a mentira, fixas e separadas num sereno ecrã. Pelo contrário, o que há é o combate.

E sim, somos um misto de inversão. Mesmo se a renegamos (que raio renegaríamos então?...) Quem detém a conversão finalizada?...

Mas sim, absolutamente: só há um polo ;)

Abraço, ó faz-pensar!

5:32 da tarde  
Blogger Goldmundo said...

Há a bússola e há a estrela polar. Não as tenho senão pelo que os meus olhos virem.

Ao Pólo, nunca ninguém o viu.

Rosa my(s)tica, ora pro nobis.

Mas sim, o fogo que trazes é o do leão do deserto. E ainda bem.

6:30 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Dêem-nos os nervos da gazela, a ligeireza e o susto que invadindo a fortaleza e o rugido, nos salvem da dureza cega.

(Mulher do deserto
e mãe do renascer,
ora pro nobis.

Mulher do presente
e mãe do regressar,
ora pro nobis.

Mulher da terra
e mãe do amor,
ora pro nobis.)

Bom fim de semana!

1:53 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

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2:06 da tarde  

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