sábado, fevereiro 04, 2012

e o silêncio luziu.

domingo, julho 03, 2011

por vezes (tantas)

não sei que dizer-te

oh deus

nem como louvar-te

ou o que ansear

de ti para mim

de mim para ti


e em silêncio fico

oh meu deus

em silêncio oro

como se respirasse

por ti clamasse

em ti clamasse

sem estertor


Nota: como é veraneante hábito, suspende-se aqui este palavrear; se o silêncio maior não me vier cobrir com a sua asa, regressa-se no início de Outubro.

Até lá, bons voos e jornadas.

domingo, junho 26, 2011

Nunca mais

ao Pedro Hestnes

O sol nos olhos, o Homem-Rio roda a cabeça semicerrando os olhos. Céu. Topo de prédios. Copas de árvores. Um sorriso sereno nos lábios. Desprendidos os movimentos, lentos. O solo, focando e desfocando. O Homem-Rio caminha, como se fosse caindo e a velocidade aumentasse gradualmente. Os pés cada vez mais pesados quase arrastados, as botas levantando pó e sons. Os braços arremetem-se para a frente, protegendo dos obstáculos que a vista não capta, fixa no solo que corre em traços cinzentos, pretos, brancos, agarram-se a um poste, o tronco gira, a cabeça embate, pára, arfando no sorriso quase riso, leva a mão, o sangue nos dedos, no poste onde a mão se poisa, respira, respira, um olho na estrada, o branco raiado a veias, a íris escura, a pupila dilatada como num tremendo espanto, redondo, do tamanho de um punho, na estrada. O Homem-Rio fixa o seu olhar no olho, aproxima-se, deixando-se cair em redor do olho, girando, os olhos fecham-se acendendo a escuridão, os pés batendo no solo com violência, compassados, o corpo reagindo como se fosse água e os passos pedras atiradas, cada vez com mais força e maiores, agitando as águas até vagas tresloucadas, o olho na estrada cresce, em espasmos, secos movimentos de retracção e expansão, como se a tensão do espanto aumentasse dolorosamente ou fosse rebentar num abuso de esforço. O Homem-Rio pára com lentidão, como se algo o contivesse. Abre os olhos, serenos. O olho na estrada tem o tamanho duma cabeça humana, queda-se, congelado no esbugalhamento, fixo. O Homem-Rio pega no olho com as mãos seguras. O olho frio, gelatinoso, suficientemente denso ou em tensão para manter-se redondo. O Homem-Rio caminha, olhando o olho, os passos guiando-se confiantes como se fosse um trajecto por demais percorrido. Estradas, passeios, candeeiros e muros projectando sombra. O olho imóvel, sem mácula de tempo.

O Homem-Rio entra no prédio. A porta fecha, escura e rangente. As alcatifas silenciosas andar a andar. O topo em abóboda, de cimento nu, limpo. Abra a porta metálica com um pontapé irrompendo sol, transpõe o limiar, pára, na varanda circular também de cimento que rodeia a abóboda, coberta exteriormente por ondulados arabescos negros que se interligam confusamente num fundo azul claro. Daqui vê-se a cidade inteira expandindo-se em redor, avista-se mar, longínquas montanhas, florestas. Daqui pode-se gritar como se nos chamássemos a nós próprios, como se fosse o centro da cidade e do resto.

(Eu olhei. Peguei no dicionário e olhei. Arabescos. Sorri, fechando os olhos.)

Ele avança, no pó, na gesta, dias depois, um cão olha junto a um caixote de lixo, chove. A rua curva, anoitece, ele senta-se num passeio. Pousa o olho no chão e olha em redor como se estivesse à espera. O seu olhar calmo fixa-se na cidade que virasse cinza quando a mão se erguesse – um espaço cresce, num desvio que o situa fora e englobante, algo que o olhar não reconhece possuindo, mas entregando-se. A cidade virou cinza, o olhar expande-se no espaço crescente sem dentro nem fora, o vazio, Os meu olhos boiam em estado líquido, como se esperasse o vazio olhar de volta, Estou farto, é como se me desintegrasse em câmara lenta, ou então ser atingido de tal modo no epicentro do pensamento que a concepção do todo se estilhasse em estonteamento e se aperceba o ser transbordando a orla da nossa existência, a gaguez da nossa consciência, Isto é como morrer aos poucos agora, o organismo respira, o específico e total número de batidas do coração, as chuvas, as vinhas, Ah, agora, túneis de cimento e betão, luzes, sorrisos, copos tinindo e enchendo-se, discussões, reconciliações, satisfações de desejos despoletando outros desejos, gritos jorram de solidões, jorram de solidões nunca mais, nunca mais, Estarás perto de mim quando o que me arde me construir?

O Homem-Rio abriu os olhos, como se adormecesse.

segunda-feira, junho 20, 2011

(este deus que é imediatamente outro)

segunda-feira, junho 13, 2011

por vezes

vejo um fantasma à janela, contemplando melancolicamente o mundo, esse lugar de vida e movimento a que ele já não pertence.


mas algo o agarra, não sabe bem o quê, e por isso abeira-se da janela, passeia pelos corredores, espreita os vivos a dormir e a sonhar; talvez lhe dêem uma impressão de ele também respirar, e esperar o amanhã com uma esperança de inesperado.


por vezes um anjo visita-o, talvez sempre até, como de certa maneira fazem os anjos. mas ele não vê o anjo, pois está sempre de costas para este, ou de olhos escondidos na melancolia. em certos momentos, traz até os olhos cegos por uma raiva sem lágrimas, uma raiva de que não sabe o exacto sentido, se a raiva de estar fora do mundo dos vivos, se a de esse fora ainda tanto ter que ver com o dentro. são assim as suas correntes, a sua prisão sem nome. talvez por isso não veja o anjo, não o queira ver, mais propriamente dito. ainda há tanto por fazer que não consegue fazer, é o que grita o seu silêncio, a sua brancura e leveza.


em certos momentos o anjo poisa mesmo junto ao fantasma, como um sussurro ou um beijo sem toque. o anjo chora, com a lentidão das pedras, mais pacientes do que a morte.


oh esse infinito vazio que antecede a criação do mundo, se tu o soubesses, fantasma, se ele te soubesse, pensa o anjo. não há palavras que descrevam o pensamento do anjo, as infindas imagens e palavras do que os seus olhos contemplaram desde o primeiro movimento de Deus, desde o primeiro sopro de vida, a primeira palpitação. também o anjo conhece toda a tristeza do mundo, e muito mais, pois conhece a tristeza de Deus, o abismo em que este se perde na sua solidão única. Deus precisa de nós, sussurra o anjo, não sabe se para si ou para o fantasma. sem nós, Deus morre de amores como a pobre Julieta, diz pirosamente o anjo, e o fantasma sorriu


(para a Gotika)



domingo, junho 05, 2011

Berit 2

para a Rita Quintela


O sentido cristão está na relação viva com Deus - viver-com, viver-em, viver-de – e não no estrito viver, que por si e tantas vezes – é absurdo ou escandaloso.


O sentido cristão é a tensão interrogativa na relação com Deus, e que confia nesta sem soçobrar numa resposta resolutiva. Sabe que nenhuma palavra ou obra de justiça e amor resolve o problema do mal, mas tão só o enfrenta; e pensar este como uma desordem ontológica, como uma tendência imanente da criação para o nada donde proveio, é interessante psicologicamente, mas teologicamente nulo: também o nada provém de Deus, mesmo que negativamente; o nada é o que permite o movimento, a mudança, todos os espaços vazios que a transformação das coisas vai ocupando e desocupando. Os momentos esvaem-se para dar lugar a outros, como uma história que cresce para a sua plenitude ou para a sua desorientação. É certo. Mas nada disto sequer nos indica qual o sentido da história, e qual o sentido de se perguntar pelo sentido, afinal.


O sentido cristão é o acto de viver a pergunta pelo sentido da vida sem ter uma resposta cabal para tal; de viver tal incompletude de resposta num enfrentamento constante e concreto com a sua própria história pessoal: os eventos, as pessoas, os actos e palavras e omissões; e num enfrentamento constante com Deus, presente em todos os momentos da vida – esta vida que de Deus brota, e que em Deus se cria e crê.


Dizer que não há resposta prévia ao quesito de sentido da vida, é também dizer que a este quesito corresponde um movimento para a sua realização, uma paixão deflagrada na carne da vida, da nossa própria vida. O quesito pelo sentido da vida não é um ideal abstracto, clara e conceptualmente enunciado, e indicando lucidamente os seus mecanismos e conexões; ele é dado confusa e obscuramente quando o amor se torna horror, quando a doença nos sufoca em próprio ou em alguém que amamos, quando a criança de três anos morre por acção humana ou inumana: qual o sentido desta merda afinal? E também nos é dado no esplendor de uma positividade qualquer, quando o amor se torna mútua revelação e desafio de beleza, quando a doença se reveste de uma alegria resistente, quando a criança ri com toda a vitalidade da sua espontaneidade: Meu Deus, será este o sentido afinal?...


Uma alegria sem quê nem porquê; e o desespero de não haver quê nem porquê.


O lamento e a acção de graças são as formas primeiras da pergunta pelo sentido da vida, do encontro bruto com tal pergunta que nos vem, por assim dizer - de fora: sem que saibamos muito bem distinguir os termos com que nos rasga as entranhas do sangue e do pensamento; sem que saibamos muito bem de que modos se põe ou procura; sem que saibamos muito bem a que corresponde (a tudo, é o que pensamos).


A relação com Deus é revelação que mostra caminhos de encontro e desencontro em todo o evento e momento, de Thabor a Getsémani, do amor ao isolamento, da aliança à traição; mas o sentido só se revela no instante concreto em que o evento se dá, e por isso extravasa qualquer pergunta ou resposta que se traga da véspera: abrir-se à surpresa da própria vida, é no que consiste o modo interrogativo do ser cristão. Pai, que cálice novo é este, que vinho me dás, que sangue e alegria, que abandono e morte? O próprio Deus, ao lançar-se na aventura da incarnação, se lançou na obscuridade do devir até ao abandono total; e, devemos dizê-lo, este Deus que se mostra em Cristo, não traz muitas respostas, e às perguntas que se lhe fazem responde muitas vezes de modo desconcertante e interrogativo, ou nem responde de todo.


Não é insignificante que a única coisa que Cristo escreveu tenha sido na areia que o vento apaga, mesmo antes de reagir a uma pergunta devolvendo esta à sua própria interrogação: O pecado? Que pecado? Quem não pecou? Qual o sentido desta merda, afinal? O que estamos nós a fazer? O que é um juízo? O que é a verdade?


E a resposta bíblica não tarda em intensificar a interrogação numa estonteante tautologia: Ego eimi. "Eu sou aquele que sou", ou "que é", ou "que é o que vai sendo"; e esse "que é" constitui "a verdade, o caminho, a vida". Isto simplesmente nos indica que há uma urgência de sentido no ser, e no ser-se; absolutamente nada diz de um conteúdo de sentido que haja ou não haja. O facto de Deus advir no chamamento, não doa conteúdo a este: o que é revelado é que o encontro com Deus se dá na interrogação pelo sentido do que há e se vive; que o encontro com Deus se dá nessa peregrinação inquieta da interrogação; e a nossa própria confusão na obscuridade da interrogação, mostra que mal ainda começámos sequer – a interrogar, precisamente.


Note-se que a resposta pelo sentido da vida inclui-nos pessoalmente; responder ao sentido da vida é responder-lhe em forma de vida, digamos assim; afinal, é a vida ter sentido que é requerido na interrogação; e é aí também que esta, como vimos, se dá e esconde - no embater confuso da consciência com os acontecimentos que a despertam e adormecem.


Que a última sílaba seja vida e alegria, em detrimento de todos os males e horrores da existência, é algo que constante e constitutivamente se nos escapa no frasear da própria vida, e que nesse mesmo escapar se nos revela como uma fome, um clamor, algo que nos chama do fundo da própria vida: toma-me, estou aqui, basta dares apenas um passo, apenas uma palavra. Procura o sentido: eu sou.


O sentido não tem identidade nem forma, é como a brisa que arde e o silêncio que ecoa: facilmente se apaga a primeira e se ensurdece o segundo; tão frágil e evanescente como o sorriso da criança antes de morrer, como a mão de qualquer mortal a acolher a nossa: porque raio uma vida frágil teria de ter um sentido forte? Deus é forte na fraqueza, na minha, e na sua própria fraqueza: é ao tornar-se mortal, que Deus mostra o seu próprio caminho e ser; é no abandono de Deus que se consuma a paixão de Cristo; é no desânimo dos discípulos que se ergue a ressurreição; e a interrogação é reposta na sua intensificação máxima, a sua conjugação temporal passa a ser - a eternidade: qual o sentido desta merda se isto fôr desde e para sempre e para nunca, e nada se perca nem o mínimo cabelo ou palavra por mais vãos e insignificantes que sejam?


Eu sou: vem e segue-me.


A fé cristã é este confiante e inseguro movimento, esta breve pergunta que se repete no eco vivo do poço: Há sentido, mestre? (Não sei, subamos a Jerusalém e procuremos, aí mesmo, onde encontraremos a pior das mortes e o maior dos desalentos. Vem, não ouças a palavra dos homens e vem, pega na tua cruz e segue-me. Alegra-te: iremos até ao fim. Tens de ser capaz de caminhar pelo vale dos mortos e navegar no mais tempestuoso mar; tens de ser capaz de te abrir a diferenças máximas, e de amar o inimigo sem anular adversidades; tens de ser capaz de não depender de nenhum grupo identitário: família, profissão, política, religião, etc, e de nestes executar livremente a palavra secreta de Deus contigo, em ti, de ti; sim, é evidente que soçobrarás, mas enfim, essa não era a tua questão, não vinhas em desespero pelo sentido da vida, afinal? Como queres tu estar à altura da interrogação se não lhe desenhas os limites e os ultrapassas?) A pergunta pelo sentido da vida é necessária e essencialmente repetível e insistente, pois ela é da ordem do vivido, e nunca se dá nem opera do mesmo modo; a pergunta pelo sentido da vida é chamada a fazer-se no contínuo irrepetível do vivido, em todo e qualquer momento que haja e que pode sempre calá-la: o mesmo gesto, a mesma palavra, podem já perder-se no sem-sentido e na vacuidade do sem-interrogação, podem já nada ser de sentido ou não-sentido; e nenhuma resposta esgota a pergunta, porque nenhum momento enquanto tal, por mais magnífico e feliz que seja, pode ser a plenitude dos outros, e que essa é precisamente a questão: a questão a ultrapassar.


domingo, maio 29, 2011

ensina-nos o desejo para

o outro

o tu que nele refulge

e em ti nos faz ser

e abrir

oh deus