segunda-feira, maio 05, 2008

Hedwig' s tune

Relativamente à esponsalidade entre um homem e outro, entre uma mulher e outra, e evidente e precisamente, entre uma mulher e um homem – não há que tergiversar, e a sua presença sagrada pode ser enunciada à papo seco: os seus frutos são a bondade e a beleza. Misturados, digamos assim e naturalmente, com perturbações negativas e conflituais, como tudo na temporalidade desajustada da vida aos trambolhões em que nos debatemos e abraçamos.

Quanto aos juízos de fora, e seus ressentidos, desviados e compulsivos argumentos – apenas um teremos, nós, os da tristeza deste mundo, os da alegria do coração, os que na rosa finalmente compreenderam que a dilaceração é a liberdade desconhecida e eternamente reencontrada. E este único argumento, a saber: a verdade mostra-se a si mesma.

Isto é, o mal não pode ter como frutos a bondade e a beleza. E juízo que nisto não esteja assente, não tem, perante o amor, nenhuma legitimidade.

E é tudo, sem mais papo nem mel. Agora, pegue-se lá na metafísica do feminino e masculino – e configurem-se as decorrências necessárias, visto que a polissexualidade é, ontologica e entitativamente falando, uma dinâmica transversal e universal.

Nota de rodapão: A polémica da polissexualidade divina, e suas decorrências teológicas, antropológicas, eclesiais e pastorais, foi debatida no primeiro Concílio de Berlim, em 1973, no qual também se matizou a compreensão dos Concílios Vaticano I e II, visto estes não terem tratado e perspectivado as questões a partir do aprofundamento das dimensões místicas e mistéricas da criação, da incarnação e da santíssima trindade, e até se terem indirectamente afastados de tal. Não cabe aqui entrar nos pormenores da trissexualidade, da transexualidade e outros detalhes teológicos e antropológicos, mas cabe lembrar o dístico do concílio, que expressa a sua orientação geral: Com a senhora do dia, e os homens de boa fortuna e pobres inícios, a chama da vela do pequeno café, transformará os muros em pontes. Dadas as perturbações e divisões que se sucederam, equivocadas e contrárias ao espírito do concílio, em 2001 deu-se o segundo Concílio de Berlim, no qual se dirimiram as arestas relativas a estes assuntos. Um dos documentos deste concílio que mais eco teve, foi o “Da comunhão como sacramento de escuta”, em que se declarava a inequívoca comunhão com aqueles que “não aceitando Cristo como seu salvador pessoal, amam a Sua obra”, terminando com uma ampla análise comparativa de Is. 42, 1-4, Mat. 16, 13-23 e Marcos 9, 38-40. O papa David II, de santa e saudosa memória, presidiu a ambos, tendo aberto o primeiro com a declaração “Da esperança como dúvida de si e circunferência de amor”, em que citava evidentemente e com certa abundância, Paul Valéry e Simone Weil, e fechado o segundo com a “Saudação à estranheza do reconhecimento de si em Cristo”, dez dias antes da sua glória celeste. Pela primeira vez na história da Igreja, e por sua expressa vontade, um papa foi cremado, e suas cinzas espalhadas aos ventos a partir do local onde outrora se erguera o muro de Berlim. As peregrinações ao local foram religiosamente invalidadas, embora acorram ao local muitos cristãos e outros, para deparar com a última e lacónica sentença de David II, gravada no solo: Ide com as cinzas.

11 Comments:

Blogger Klatuu o embuçado said...

Que pirotecnia retórica... para não dizeres claramente: condeno!

Mas esses assuntos de quem pendurilhaca com quem... não diz respeito a Deus mas aos homens. É evidente que entendo perfeitamente que a Igreja Católica não queira atribuir o sacramento do casamento a homossexuais, entendo, e nem é relevante se discordo... as religiões não são coisa pública e civil - mesmo se os cristãos o ambicionam - são uma espécie de «clubes», com regulamentos próprios.

Aos homossexuais deve bastar o casamento civil... e aos que forem religiosos, bom, o melhor será procurarem o «clube» certo.

Abraço.
P. S. «Isto é, o mal não pode ter como frutos a bondade e a beleza.» - pode, pode... aliás, a beleza é a sua maior constância, e a bondade também é frequente.

Espero que estejamos a falar do mesmo: «mal», como conceito teológico. Claro, se falas dos males humanos, ah, pois, a humanidade é uma trampa, e nem precisa de fazer o mal para não poder gerar a beleza e a bondade - raramente as geram!

6:04 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Ó gó, Hedwig’ s punk business ;) mas não há fuga retórica nem condenação, ou não percebo muito bem a que te referes.

Tudo diz respeito a Deus, ou melhor: para um cristão, tudo – da pequena gota de chuva aos indiferentes lugares onde se bebe ou não café, destas palavras pequenas às grandiloquências históricas – remete intrinsecamente para uma relação com o divino. Outra coisa será a pretensão da relação com Deus ser do âmbito público, religioso; tal como em muitas outras delicadas e intensas coisas – da actividade poética à amorosa – certas zonas e momentos sim, outros não.

Também entendo, claro, que não haja casamento canónico homossexual; releva duma moral da procriação, concatenada com negócios de forças sociais (mau ou bom grado o Romeu e a Julieta, a conexão amor/casamento é burguesa e moderna; Ricardo, o famoso coração de leão ;) era homossexual público, e isso não o impediu de casar, embora após a sua morte a rainha tenha pedido à Igreja anulação do casamento por evidente e pública não consumação, o que foi dado sem escândalo de parte a parte, nem privado nem público). Por outro lado, põe-se o problema da completude antropológica: se vires como intrinsecamente diferentes o homem e a mulher, a totalidade do género dá-se na união de ambos, e a homossexualidade releva assim duma incompletude genérica (esta é a posição do magistério Vaticano, que coloca problemas relativamente ao celibato); se vires a completude genérica realizada integralmente em cada individuo, sendo este sempre uma concatenação de forças masculinas e femininas, o argumento antropológico soçobra, ou pelo menos é directamente interrogado e deslocado para outra concepção da completude humana (é este o debate dos Concílios de Berlim ;)

Os clubes privados são públicos. Queres dizer que podem ter regras específicas que não obriguem os de fora, e que simultaneamente não vão contra as leis de base gerais (nenhum clube específico pode sacrificar legalmente humanos em Portugal, por exemplo). Percebo a ideia. Mas agora falta ver qual a fonte de sentido do clube (eu sou como o Groucho Marx, por exemplo, e só sou sócio do Judo Clube de Portugal porque é a única maneira de poder lá treinar ;) Relativamente ao cristianismo, e no meu caso, a fonte de sentido é mística (relação directa e indirecta com Deus); alicerça-se depois em tal a reflexão ética, filosófica e teológica; e finalmente, alicerça-se em ambos a comunhão com os outros cristãos temática, litúrgica e vivencialmente. Esta tríade não é uma hierarquia mas uma dinâmica, isto é, cada pólo vai esclarecendo e fazendo crescer ou decrescer os outros, e sobretudo, eles não são entitativamente distintos: Deus fala através e dentro da comunhão, assim como esta é matéria e processo de reflexão, a presença directa de Deus abre o seu silêncio e palavra em tudo isto, etc

Relativamente aos homossexuais, há uns quantos com fé cristã; tu e muitos cristãos acham que eles devem procurar outro clube, como se a religião fosse uma questão ideológica. Põe-se o problema teológico da configuração mística com Cristo, cuja negação é a única base para não ser-se Igreja. Aqui, o Vaticano até hesita muito mais do que vosotros (e não me refiro aos Concílios de Berlim ;)

Quanto à bondade e a beleza, estão em jogo como fulgores do divino; a da bondade não percebo, a não ser que estejas a medir a coisa pela contingência dos resultados (género assassinar um assassino é salvar vidas); a da beleza, não sei se percebo, mas a beleza do mal ressinto-a sempre de forma revoltada ou melancólica, tratando-se duma beleza dependente daquilo que nega ou recorda, precisamente – o bem, o ser, e a voz do Deus. Mas isso sou eu que sou cristão ;)

A humanidade é uma mescla quase incompreensível de trampa e maravilha, claro.

Ufa, abraço, pá!

10:36 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

já agora, por eventual interesse ou desinteresse histórico e eclesial aqui do burgo relativamente aos homossexuais cristãos:

http://riacho.no.sapo.pt/

http://rumosnovos.no.sapo.pt

10:41 da manhã  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Eu? Por mim tanto se me dá que a Igreja católica os case, descase ou seja o que for! Ou se os divorciados, do primeiro, segundo ou terceiro sexo podem ou não comungar.

Com «clube» queria apenas dizer-te que as Igrejas do Cristo já não passam de nichos na Civilização Ocidental, a eficácia operativa da sua moral e crenças está mais que moribunda e já não conduz a Civilização... Provavelmente daqui a um século até poderás ter um papa transsexual.

Aliás, percebendo a ideia de casamento, o mesmo nada me diz, não passa de legislação proprietária sobre o corpo da mulher, sobre o seu útero.

Fica bem, Vitor.

P. S. Talvez já tenhas percebido porque acho ridículo os homossexuais ambicionarem o casamento religioso: porque acho estúpido ambicionarem qualquer! À custa do objectivo político de assaltar um bastião da heterossexualidade... recuam décadas de evolução social!

A união de facto chega, por razões puramente práticas, de impostos, heranças, etc - nem «Deus» nem o «Estado», puros instrumentos políticos de exercício do poder, têm absolutamente nada a ver com aquilo que é estritamente pessoal.

3:22 da manhã  
Blogger Klatuu o embuçado said...

P. P. S. Pois... isso és tu que és cristão. O Mundo, depois, uiva em teu redor em todos os instantes.

3:24 da manhã  
Blogger Klatuu o embuçado said...

... A indissubilidade do casamento cristão teve sempre um inequívoco sucesso, por manutenção de um recurso paralelo eficaz: o bordel.

3:28 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Meu caro, teologicamente a questão da comunhão e da excomunhão cristã fundamentam-se na conexão e desconexão com o divino. Pode ou não o homossexual efectivar a imagem do divino?

Todo o resto são exercícios de poder (não apenas político ou financeiro, mas pessoal, afectivo, psicológico, sexual, etc).

Quanto à Civilização e à ideia de evolução social, os resultados estão sempre à vista. As ilusões dum messianismo histórico, seja ele qual for, nunca me acometeram. Se te referes a um conjunto de valores quaisquer, não é a sua sociabilização que os firmará, tal como as revoluções modernas e pós-modernas, da comuna de Paris ao Maio 68, intensificaram o mercantilismo e o policiamento comportamental que hoje regem a gloriosa Europa. Todas estas coisas, no fundo, servem para cortar cabeças ;) Possa aquele cuja alma apreende que as conexões e desconexões são sentidos singulares e transcolectivos, atravessar o rio do tempo e sorrir ou chorar, mas nunca aí firmar o sentido das suas decisões e acções.

Relativamente ao casamento, terás de perceber as várias ideias possíveis, e não apenas a patriarcal; enquanto sacramento, ele remete para a dita conexão com o divino; aqui põe-se a delicada questão das decisões que vencem a temporalidade, que são mais fortes que a morte; a aliança sagrada. A indissolubilidade administrativa e canónica é sinal de tal, ou não é nada; a sua excessiva administração torna-a nada, des-sinal, alienação e estupidez. Pretender aferir legalisticamente do sentido e significado das decisões de cada qual com o eterno é algo de delicado, pois não se mede pelo histórico, seja ele pessoal, seja ele societal. Mesmo para o próprio, tal aferição é feita na noite e no deserto, com os olhos da insónia e do grito; por isso ele suportará – se suportar – todas as pressões históricas e pessoais. Esta questão da decisão mais forte que o tempo não se põe evidentemente apenas relativamente à esponsabilidade. Pode até, conforme as vidas, não se pôr nem viver aí e postar-se interpelante noutra situação.

Quanto ao bordel, ele não depende dos casamentos, pá, isso é uma butade à Céline, que revela certos momentos históricos mas ofusca o fundamental. Tal como a pintura não dependia da representação figurativa e não foi assassinada pela fotografia, também a prostituição sobreviveu à liberalização sexual, abrindo-se a um alargado mercado específico que vai da pornografia ao SM, passando pelo simples broche na viela ou no carro à enrabadela de domingo para o burguês casado. Aqui, como em muita coisa na Europa civilizada, uma certa moderna relação com as drogas, sobretudo a branca e o cavalo, vieram trazer mudanças mais profundas do que a representação ilusória da liberalização; isto liga-se a um certo modo de doar ou procurar sentido que está para lá dos alteradores de consciência, e que se vê também nos gadgets tecnológicos: uma dependência feroz da identidade e da interioridade a estímulos exteriores que paradoxalmente não se integram numa construção de si, mas pelo contrário num esvaziamento de si e de tudo.

Abraço

PS: Hás-de me esclarecer um dia mais focadamente essa tua noção de Civilização e evolução social.

PS 2: Sempre gostei de nichos ;) O resto é faustiano: palácios de ilusões que desabitam o próprio, cenouras para incautos, mundo que uiva e afia as garras sempre que o e nos desinstalamos.

12:27 da tarde  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Não foi feito para o casamento? Não, «para», não... mas «porque»!

Nem sou grande fã do Céline, é uma daquelas criaturas que não entendo? É de Direita? :)

Quanto ao mais... tudo muito bem, excepto: a realidade sexual de toda a gente, a de agora, a de sempre, desde que temos Cristianismo por cá... Se voltássemos a uma sexualidade de matriz helénica -os cristãos morreriam de tédio!

A minha civilização... simples, a que havia antes do Cristo, não rejeitando a «teoria do perdão» como uma reinvenção do ser pessoal e, claro, o Deus Único, mas nisto sou judaizante...

Abraço.
P. S. «Pode ou não o homossexual efectivar a imagem do divino?»

Pergunta-Lhe...

P. P. S. Tens é que ir para a Nova Águia... «Ide com as cinzas...» - leva o Goldmundo contigo, para acender a palha... LOL!! Há lá gajos que até dariam bom entrecosto!

10:02 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Eh pá, não dá para colocar o Céline na direita ou na esquerda… Os superficialistas (ou os bestiais como o Sartre) colocam-no no fascismo devido a dois livros seus, “Bagatelles pour un massacre” e “Les beaux-draps” em que ele apela ao massacre dos judeus… O problema é que os judeus somos todos, incluindo o próprio Céline (no fim do “Bagatelles…” diz merecer ainda mais a morte pois é “mais judeu que um judeu”, final que ecoa o do “Viagem ao fim da noite” em que o personagem, depois de mijar para o rio, deseja que este leve com o seu mijo a humanidade inteira, e que finalmente esta merda acabe… ) O Gide apanhou-o bem numa recensão que fez do “Bagatelles…” ao chamar-lhe lirismo trágico-cómico ou algo do género… O judeu corresponde em Céline à falsidade, ao mercantilismo, à ilusão do progresso, etc Há algum abjeccionismo, e o mijo não é ocasional: quando julgado por colaboracionista, coisa que não foi pois “colaboração” é uma categoria inaplicável ao homem, disse aos presentes na segunda ou terceira sessão: Mijo para cima de vocês todos de cem metros de altura; no “Entretiens avec le professeur Y”, ao explicar ao dito professor o seu truque literário do “metro emotivo”, o professor consistentemente, mija-se pelas pernas abaixo.

É um mestre da sátira sarcástica, anterior a ele só o Rabelais. Está para o romance moderno um pouco como o Corman para o cinema ;) Embora intraduzível e de difícil leitura para quem não esteja mesmo muito à vontade no francês, lê o “Morte a crédito”, da Assírio e Alvim, com boa tradução da Luísa Neto Jorge… É o seu segundo romance editado, e é quando o Céline começou a ser o Céline ;) O “Viagem ao fim da noite”, embora bom, é um pequeno ensaio do estilo tonitruante posterior, para além da tradução portuguesa do Aníbal Fernandes não estar ao nível da da Luísa (acontece, problema dos textos particularmente intraduzíveis ;)

Eu de vez em quando vou espreitar à Nova Águia, mas ainda não se me deu disponibilidade de comentar. Mas havemos de falar disso da Civilização. Percebo a ideia, mas as rupturas são também continuidade, e de Agostinho ao renascimento há uma linha helénica também.

Abraço

4:47 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

PS: e nem saberás o que te escapará, abdicando da alta Idade Média e da escolástica... JAJAJAJA ;)

12:18 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店經紀,
酒店打工經紀,
制服酒店工作,
專業酒店經紀,
合法酒店經紀,
酒店暑假打工,
酒店寒假打工,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店工作,
酒店打工經紀,
制服酒店經紀,
專業酒店經紀,
合法酒店經紀,
酒店暑假打工,
酒店寒假打工,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店工作,
酒店打工經紀,
制服酒店經紀,
酒店經紀,

,酒店,

2:11 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home