segunda-feira, junho 01, 2009

Sem fortuna e sem religião, quem me abriria o paraíso?

em memória de Omar Khayyâm

A figura era quiçá simples: como que gradualmente compreendendo a serenidade de estar poisado em si próprio. Assim por dentro, digamos, não lançado para fora num embate e reacção contínua, mas assente por dentro, no seu sentir de si; e sempre aquela tendência para ser roubado a si, ou atirar-se para fora sem si, aos trambolhões no arrasto do tempo externo.

Percebeu também que era um assunto de vaidade, de vontade de aparecer na vida de fora; mas também de anseio de conexão, resposta, algo que desse outra palavra ao isolamento da existência. Nesse momento soube então o que sempre soubera: que a distinção entre o bem e o mal era um desvio milimétrico, a que estamos sempre arriscados.

Aprendeu então certo silêncio, esse calar de si que o depunha na pura impressão de ser, estar, haver e haver-se: aqui, e o mundo lá fora e dentro, e todos os rostos e coisas. E nesta simples figura percebia que era no cruzamento entre esse poisar em si, e a dinâmica viva com o resto no escoar dos dias, que refulgia uma serenidade que não se confundia com nenhuma anestesia ou fuga, desistência alguma. Cada vez mais aprendia a silenciar-se e deixar-se estar em si, antes de iniciar qualquer dia, e antes de deixar-se ir na profusa vida do sono. É a minha oração, dizia ou calava sorrindo, quando calhava um ou outro.

Não que acreditasse em qualquer deus, ou algo a que devesse dar nome. Mas tinha a impressão que o eco fundo do seu silêncio orante, anunciava uma presença outra, dentro de si e atravessando o escoar dos acontecimentos e memórias. E que isso se mostrava no seio da religiosidade, alguma; presenciava no entanto, que na maioria dos seus momentos, esta se estrilhaçava na vaidade em aparecimento gritado: tonitruantes imagens do subtil anúncio, leis e armas e ameaças e barulho na vontade de posse e poder fátuos. Certo espírito guerreiro, que ele abominava; que nos arrasta para fora de nós desfazendo-nos, confundidos combatemos no equívoco da verdade; quando não apenas para sermos e aparecermos muito mais do que simplesmente somos. A terrível vaidade, sem dúvida, essa filha menor do orgulho.

Não precisar de mais nada senão o que já se é e tem por simplesmente estarmos aqui; e não rechaçar nada que ao encontro venha na concôrdia e na generosidade. Porque tudo se dá e se doa sem perder-se, se não gritarmos o nosso eu no desespero do caminho. E na fugacidade das paixões fulguram encontros e revelações, silêncios tenazes que orientam a alma a si e onde a própria vida ecoa como um canto que se escoa e retém no próprio escoamento.

Soube também que a morte só podia ser a maior dádiva, tal como o nascer de todas as coisas no silêncio expressivo do todo. Aprendeu a ciência do vinho e da poesia, a tranquilidade do céu estrelado e das mãos amigas, e uma certa distância dos negócios do mundo. As pétalas das rosas tremiam no estertor de cadentes estrelas, e a álgebra ressoava na reposição de uma ordem que confusamente apreende a consciência estarrecida. Aguardava tudo sem deixar de agir, e a liberdade era essa pequena força que salva do horror do mundo e de si, no abandono de toda a fixação de poder.

“No próprio sono do eterno...” escreveu num fim de tarde um dos seus amigos, frase que suspendeu para que cada qual a completasse com a sua própria vida e canto; para que cada qual a retivesse na sua própria fuga.

Era manhã quando o encontraram morto, sentado à larga mesa do terraço, a cabeça pendente e a taça de vinho pela metade à sua frente, o pequeno caderno ao lado com o carcomido lápis. Enterraram-no no jardim, junto às flores, à vinha e aos arbustos. Laudaram-no com vinho e alegria, e nenhum sinal do enterro deixaram senão o próprio jardim e a vinha, que continuaram a cuidar; o céu e a alma, que continuaram a interrogar; e o clarão das paixões, que mantém o fogo aceso na revelação de rostos e significados, não deixou nunca de os visitar, mesmo na dor e na velhice, na injustiça e na opressão, no tédio e no desencanto.