segunda-feira, março 01, 2010

Pão e vinho

Nada de menos claro e certo do que Jesus ter fundado uma hierarquia sacerdotal, com poderes objectivamente determináveis e litúrgicos; tal tipo de instituição e organização, parece decorrer mais de uma necessidade psicológica e social de segurança, do que de uma libertação de Deus tal como é biblicamente indiciada, da peregrinação abrâmica à revolta mosaica, das invectivas proféticas às diatribes jesuânicas e à abertura paulina. Por outro lado, tudo indica que os nossos modos próprios e culturais de vida e religião, não são avessos a uma relação verdadeira e livre com o Deus vivo; são até, por ventura ou desventura, talvez requeridos e necessários, por nossa intrínseca natureza dividida; e nesse sentido, decorrência humana e requisição divina coincidem num único e humano acontecer a que se dá o nome de religião cristã, fundada precisamente na dupla natureza de Jesus, com todas as suas organizações e desorganizações históricas e conceptuais.

(Estou agora sem director espiritual, que a idade avançada levou para uma vida mais retirada e silenciosa. Houve outro que se predispôs, e que me parecia humana e sacerdotalmente síncrono e promissor; mas desde o nosso segundo encontro, eclipsou-se veementemente. Não deixo de notar, que o retiro do primeiro, aliado ao eclipse do segundo, configura de certo modo o Deus que na ausência se anuncia e age, como o baptista que decresce para o Outro crescer; o que não deixou no entanto de me aborrecer um pouco. Tenho assim ido confessar-me a uma igreja em Lisboa, por jeito de lugar e horários. Há lá dois padres, que se vão revezando nas confissões: um bastante idoso e afectado de velhice, e outro assim mais para os cinquenta anos. Na primeira confissão, apanhei o velhote, o que foi meio estranho. As suas mãos tremiam como chiliques à minha frente enquanto eu falava, a sua cabeça pendente a abanar e os olhos semicerrados. Depois marmarejou umas palavras incompreensíveis, uns gotorejos roucos que pareciam cair da sua boca para o solo sem espalhar-se na atmosfera. E eu bem que aproximava a cabeça com um ou outro “como?” que o ror onomatopeico prosseguia ininterrupto, com uma ou outra palavra milagrosamente erguendo-se e apresentando-se: “confiança”, “Deus”, “coração”, “entrega”, e outras que tais. Olhando para as suas mãos aos solavancos não insisti, e fiz o acto de contrição; e fui rezar em intenção comungante com aquele padre, sem que algo de gramatical tivesse passado dele para mim, e no entanto em consonância com as parcas e soltas palavras que dera para perceber, fulvas e espirituais; acometido fui também por uma vaga de ternura e reverência pela sua velhice exposta em acto pessoal e sacerdotal; e saí, atravessado de fio a pavio pela ideia de que a clareza matinal de Deus, que para nós é floresta obscura – troaria com toda a fé e certeza na nossa surdez e finitude, sejam elas quais fossem.)

Daqui decorre evidentemente que o dogma da infalibilidade, tal como é exposto e canonicamente determinado, me é tudo menos claro e evidente; e também nenhuma força espiritual para ele me move, ao contrário da dupla natureza de Cristo e da santidade absoluta de Maria, na sua humanidade de mulher, e que fundam a minha fé cristã. Mas sou um fervoroso da promessa abrâmica, e sei que o Deus dos passos não larga nunca a caminhada cega e desértica da sua aliança connosco; e assim o faz também na canonicidade católica, por entre todos os erros e acertos desta, neste caminho em Igreja, que ribomba de pecado e santidade nos canhões da História; assim como murmura Deus e reúne inúmeras vozes e silêncios, passos da queda e do erguer, nas diversas assembleias católicas.

(Isto da confissão sem orientação espiritual propriamente dita já dura há alguns meses, o que faz com que já tenha ido confessar-me algumas vezes nestas condições. O outro confessor que por acaso tenho apanhado nas minhas idas confessionais, não se me augurou como nada de espiritualmente promissor, e foi com alguma indiferença espontânea que as duas ou três confissões primeiras se me aconteceram: limitava-se a ouvir-me com um sorriso mole na face e os olhos também semicerrados, abanando a cabeça afirmativamente com um ritmo de sonolência distante; e, se exceptuarmos o seu hábito de pousar a sua mão na minha, nenhum clarão refulgia no acto de contrição, em que ele me atirava sempre com um pai-nosso e uma avé-maria, acompanhados de um papelito que noticia peregrinações não-sei-onde a um altar de aparição mariana. E nestes preparos e impressões decorria a terceira ou quarta confissão, até ao acto de contrição, em que sacudindo a cabeça como que num despertar ou tomada de consciência, ele soltou precisamente o que eu precisava ouvir para abrir-me à verdade divina; se tal decorreu de uma sua crescente apreensão de mim ou de uma epifania, ou da mais provável e cristológica dinâmica entre aquela acção humana e esta divina – é algo que deixo arder na pira de uma reverência confiante.)

Possa Deus revelar-se-nos e revelar-nos nos nossos cegos altares, torres e solos sagrados.

Assim seja.

4 Comments:

Blogger a-bordo said...

precisamos de mais crónicas destas... ab

5:19 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

assim como mais a-bordagens :) abraço, Fernando

2:24 da manhã  
Blogger MC said...

:)

pois...

6:15 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

um sorriso de mana é sempre uma funda orientação ;)

11:14 da tarde  

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