domingo, junho 26, 2011

Nunca mais

ao Pedro Hestnes

O sol nos olhos, o Homem-Rio roda a cabeça semicerrando os olhos. Céu. Topo de prédios. Copas de árvores. Um sorriso sereno nos lábios. Desprendidos os movimentos, lentos. O solo, focando e desfocando. O Homem-Rio caminha, como se fosse caindo e a velocidade aumentasse gradualmente. Os pés cada vez mais pesados quase arrastados, as botas levantando pó e sons. Os braços arremetem-se para a frente, protegendo dos obstáculos que a vista não capta, fixa no solo que corre em traços cinzentos, pretos, brancos, agarram-se a um poste, o tronco gira, a cabeça embate, pára, arfando no sorriso quase riso, leva a mão, o sangue nos dedos, no poste onde a mão se poisa, respira, respira, um olho na estrada, o branco raiado a veias, a íris escura, a pupila dilatada como num tremendo espanto, redondo, do tamanho de um punho, na estrada. O Homem-Rio fixa o seu olhar no olho, aproxima-se, deixando-se cair em redor do olho, girando, os olhos fecham-se acendendo a escuridão, os pés batendo no solo com violência, compassados, o corpo reagindo como se fosse água e os passos pedras atiradas, cada vez com mais força e maiores, agitando as águas até vagas tresloucadas, o olho na estrada cresce, em espasmos, secos movimentos de retracção e expansão, como se a tensão do espanto aumentasse dolorosamente ou fosse rebentar num abuso de esforço. O Homem-Rio pára com lentidão, como se algo o contivesse. Abre os olhos, serenos. O olho na estrada tem o tamanho duma cabeça humana, queda-se, congelado no esbugalhamento, fixo. O Homem-Rio pega no olho com as mãos seguras. O olho frio, gelatinoso, suficientemente denso ou em tensão para manter-se redondo. O Homem-Rio caminha, olhando o olho, os passos guiando-se confiantes como se fosse um trajecto por demais percorrido. Estradas, passeios, candeeiros e muros projectando sombra. O olho imóvel, sem mácula de tempo.

O Homem-Rio entra no prédio. A porta fecha, escura e rangente. As alcatifas silenciosas andar a andar. O topo em abóboda, de cimento nu, limpo. Abra a porta metálica com um pontapé irrompendo sol, transpõe o limiar, pára, na varanda circular também de cimento que rodeia a abóboda, coberta exteriormente por ondulados arabescos negros que se interligam confusamente num fundo azul claro. Daqui vê-se a cidade inteira expandindo-se em redor, avista-se mar, longínquas montanhas, florestas. Daqui pode-se gritar como se nos chamássemos a nós próprios, como se fosse o centro da cidade e do resto.

(Eu olhei. Peguei no dicionário e olhei. Arabescos. Sorri, fechando os olhos.)

Ele avança, no pó, na gesta, dias depois, um cão olha junto a um caixote de lixo, chove. A rua curva, anoitece, ele senta-se num passeio. Pousa o olho no chão e olha em redor como se estivesse à espera. O seu olhar calmo fixa-se na cidade que virasse cinza quando a mão se erguesse – um espaço cresce, num desvio que o situa fora e englobante, algo que o olhar não reconhece possuindo, mas entregando-se. A cidade virou cinza, o olhar expande-se no espaço crescente sem dentro nem fora, o vazio, Os meu olhos boiam em estado líquido, como se esperasse o vazio olhar de volta, Estou farto, é como se me desintegrasse em câmara lenta, ou então ser atingido de tal modo no epicentro do pensamento que a concepção do todo se estilhasse em estonteamento e se aperceba o ser transbordando a orla da nossa existência, a gaguez da nossa consciência, Isto é como morrer aos poucos agora, o organismo respira, o específico e total número de batidas do coração, as chuvas, as vinhas, Ah, agora, túneis de cimento e betão, luzes, sorrisos, copos tinindo e enchendo-se, discussões, reconciliações, satisfações de desejos despoletando outros desejos, gritos jorram de solidões, jorram de solidões nunca mais, nunca mais, Estarás perto de mim quando o que me arde me construir?

O Homem-Rio abriu os olhos, como se adormecesse.

1 Comments:

Blogger Homem, Homossexual e Pai said...

lindo texto! parabens! vc escreve muito bem e consegue emocionar!
abs

3:51 da tarde  

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