segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Solange 2

Larguei o meu irmão na cozinha e fui pôr a mala ao quarto. Atirei-a para cima da cama comigo com ela. Sentia-me fria, como se o tempo por momentos deixasse de crescer dentro de mim ou o orvalho fervesse na primavera. O céu escurecia no horizonte da minha janela, cortado pelo lenço cor-de-rosa que me servia de cortinado. O quarto escurecia com ele e eu também. Um arrepio parecido com o desejo mas estabilizado na sua ascensão boiava-me nos nervos e uma depressão sem raiva abatia-se sobre mim, como um desgaste. A imagem duma criança surgiu na minha retina, esfumada sorrindo, como quando se está meio acordada no calor do verão e o sonho ainda ou já nos arrepanha os sentidos. Fechei os olhos e concentrei-me, quero eu dizer virei o olhar para dentro sem fixar a atenção na imagem da criança para que ela não desaparecesse mas se delineasse e falasse.


Perdi gradualmente a consciência de orientação, para que lado era a porta ou a janela, o tecto ou o chão, depois a própria situação espacial, como se flutuasse num espaço que era eu mesma ou então nada fosse mas que também nada existisse para além desse vazio em que eu me não sentia existir.


E deslizei, numa liquidez sem ruídos, esta reconhecida sensação de queda para cima, a criança lá estava sorrindo, como que triste ou perdida numa espera indefesa, apetecível como se se afogasse no licor da panaceia. Não fazia mais nada senão girar sem se mover, como uma vertigem desmaiada, e sorrir, ao que respondi tentando agarrá-la mas os meus braços apenas tocavam o horizonte em que eu a via, distante como um vislumbre.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Tudo Bem? agradável este site está bem desenvolvido.........bom estilo:)
Adorei Continua deste modo !!

10:37 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

salud :)

12:19 da tarde  

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