segunda-feira, janeiro 24, 2011

Directa


a Louis-Ferdinand Céline

Não há jogadores inteligentes, quanto muito treinadores... Sim, sim... Grande treta, a inteligência de quem sabe saber... Pensa, pensa, esse aquário é um espelho, cuidado... Olha, temos caso para... O caralho... Pois, quer dizer... Consideremos algum o melhor jogador do mundo... Para mim... O ranking são cuscas... É, é... Tum, pimba... Uma cusquinha, uma cusquinha... Temos de ser é realmente bons... Quer dizer, melhor que mais... O real... Eu estou a falar destes jogos, em que ninguém marca nada... Somos tantos e ninguém sabe o que há-de fazer... É, é... Sempre foi assim... O resto define-se por graus de distracção... A minha desadequada confiança... Vontade de decisão... Agitando-se no silêncio convencido que emite música... O artista é o artista. O motor é o carro. E se houver um obstáculo... Mete o pé e sai de lado! Imagens relaxantes... Relaxante estás tu! Amanhã vai chover... Devia era vir um vento quentinho para secar as casas que estão húmidas. Toma! Honesto Portugal... ‘Tás a ver: golo do Sporting! Pontapé na mesa e tudo! Já o Vasco Santana dizia: acabou-se o vinho da pipa... Este... Este tem cara de cavalgadura. Não posso com este gajo nem ao pintelho. No início ainda lhe achei piada, mas agora é demais, é na rádio, é na t.v., é nas conversas de café, debaixo da nossa cama e nos lençóis... Nos lençóis.... Que tu... Pagar os custos!? Eles indemnizam-se a si-mesmos!... Maré negra que vem do centro da Europa, não estou a perceber... Do género óleo no canal da Mancha, e então ora sobe, ora desce... Ora... Depende das correntes... Bem, tem sido um gajo do caneco este (...). Eu não gosto dele mas tem sido um gajo do caneco. O (...) é que se quer vingar do 25 de Abril, sempre foi um belo cabrão... E o (...) que o mandou vir... Mas os espanhóis é que mandam aqui, pá! Qualquer dia é do género: És português, toma lá uma lambada! Ao pé de minha casa, a praça foi vendida aos espanhóis. Agora está lá um centro comercial, o Fórum ou quê que é. Antigamente era a praça velha e pronto, os nomes aos bois... Mas aquilo só é deles durante trinta anos, depois é da câmara. E alguém percebe alguma coisa disto?... Oh, não é preciso ir para Coimbra, para a universidade. Daqui a trinta anos pagam uma renda à câmara de Lisboa, que nessa altura já deve ser do centro da Europa... Maré negra... Que é que eu lhe estou a dizer!?... Ocupamos a praça! O que é preciso é voltar aos tapumes, descer as avenidas, soltar as tripas... Eles mijam nas nossas ruas, fazem andares para baixo como toupeiras. Hã?... Quais espanhóis, foda-se, as conversas são como as cerejas! Aqui a única coisa a defender é a alma de cada um! O resto não é daqui! É do aqui de outro, pá, o resto, não te iludas, o outro ‘tá-se cagando para ti, é mesmo outro, quanto menos existires, mais ele existe... Não deixa o teu aqui em ti aproximando-se, pá, completamente cagando... Portugal, a Europa, o Mercado, a Educação... Isso era quando havia pessoas, gajos e gajas com o seu aqui... Guerra, caralho, é a guerra, caralho... Sempre foi... Isto é verídico, olha lá, olha qu' isto é verídico: banana, maracujá e ananás. Em Portugal não há ananás... Da geografia foi à praça e viu aqueles ananazes todos. Resultado, quando o mestre Pedro mandou lá para casa o António José... um médico... um médico português... de gema... Como é que se chamava o pai dele?... Pausa. Não me lembro... Casou com o pai, o pai depois morreu... A mãe no lugar do pai, ou o contrário? Sentava-se no degrau da porta e falava com o mestre Pedro. Odiava o pai, com 19 anos, ou era a mãe? Sangue azul, fidalguia... Ah, estava-te há bocado a contar uma... É que eu saí de lá em 39... Nasci lá... Note-se. Espere! Não se dispa quem já foi alfaiate!... Ele nunca foi alfaiate. Ele foi ajudante de alfaiate... Um queijinho. Pausa. Então, a Anabela, atira-se dum muro de 12 metros, com um fato azul... Estreado nesse dia. Vai para o mar que lhe limpou o fato todo... Fomos juntos, todos juntos... Gostava muito do mestre Pedro... Era tudo fingido, as cantigas que ele costumava cantar. E o meu padrinho de casamento?! Era o Óscar, que jogou no Marítimo. O meu pai foi 5 anos e veio residente do desporto. Em Portugal. Lembram-se do sentimento de Portugal, da sua ideia? Foi cantado pelo meu pai. Pausa. Todos o estimavam. Pausa. O mestre Pedro insinuou-se na minha mulher. Um bocado antes. É verdade. Ri. Está calado... Ela chegou a casa e disse: Chama o teu marido, diz que é burro... Eu reformei-me, os dias passo-os em casa. Chegam as 6 horas da tarde e só me apetece morrer... Pausa. Agora arranjou um computador. Ainda pior. Eu sou alérgico a isso... Amanhã, vou jantar com o mestre Pedro. Está destinado. Os Portugueses são danados para o convívio. Pausa. Depois chego a casa e faço um relatório... É amarelo, as duas irmãs, da força para a alegria. Eu estava a ver se me lembrava... Pausa. Ri. Sim... Em Portugal dá azar... Aquele médico, o ortopedista, escrivão. Há 3 anos que não vem a Portugal. Eu jantava ali fora, eu tinha uma estima que... não quer tomar mais nada? Pausa. Bem, passemos à frente. Eu pagava o vinho, eu pagava o bitoque, sózinho... Ah, já sei, trás! A mulher do médico, um par de papel, porque eu tinha tudo lá!... 40% de desconto, 2 casas de banho, a malta em Portugal é assim, aí vou, armado em bom... Esta besta que sou, o amante, enfim, aperitivos no meu quarto de motel... Íamos jantar, íamos dançar, e naquele tempo... Já casado, já com filhos, tinha razão. Conheci a Gebraltina na guerra, em 38. Casei em 45. Quando cheguei a Portugal tinha 10 ou 15 amigos casados com a Gebraltina. Um desastre. 6 de Agosto. Nasci em 1945. Sim, eu sei, não tem nada a ver. Nasci, casei. Eu estou a falar com ele como um irmão. E o falecido marido tinha 13 anos em 1933. Vim de lá em 60. É que a minha mulher Gebraltina veio de lá... em 65. O seu nº de telefone... Sim... O seu nº de telefone... 55.. 2... 11... 18/11/95... Telefone, vamos jantar...