segunda-feira, junho 21, 2010

Do acto e do eco

Desde os primórdios da reflexão viva, os homens estranham o incessante escoar do tempo, e o interrogam. Não tão só na dor insana dos amores lapidados, ou na própria morte em pânico entrevista, mas sempre e em toda a parte, na densa tessitura do vivido: funda é a fugacidade de todo o instante, e toda a memória apenas cinza à espreita do vazio.

O estarrecimento nasce do excesso de si em que seja o que fôr, em instância e instante, se constitui: todo o ente é mútua e essencialmente participativo: tire-se a animalidade ao cão e ao gato, e ambos nada são; assim vai também a concretude: tire-se o oxigénio ao mamífero, ou o sol à terra; e assim também a própria singularidade: das células às ideias, não há ente algum que detenha exclusividade originária daquilo que o constitui; tudo é trânsito e travessia, do pó das estrelas às palavras cadentes.

Onde vais, ó infindo escoamento, que em nada se detém?

A alma humana estarrecida não se reconhece. Maior que si mesma, é no rasgo e na abertura que pronuncia os seus alvores: ela sabe que cada momento seu e da vida não acaba em si, mas remete intrínseca e dinamicamente para todo o resto; totalidade esta, que a alma humana reconhece, mas não apreende. Ela sabe que para apreender cabalmente esta árvore com o seu pássaro e a sua sombra, estas palavras neste papel escritas com esta mente e caneta e todo o resto deste momento – teria de unificar as origens e os fins vitais da árvore, do pássaro, das palavras, de si, da natureza, e assim por diante até à totalidade do universo. E neste anseio ela se rasga, pois carrega em si as primícias e vontade de tal apreensão, um estonteante desejo ontológico que a abre cegamente a algo que ela, por si, não apreende: O que é este momento? O que é isto? O que sou eu? Resposta humana alguma esgota estas pequenas perguntas; e a alma balbucia pois: eu sou este incessante movimento de busca e encontro; eu sou um universo cantante; sou o amor de todas as coisas quando se conhecem em profundidade e integralidade, o que eu, ínfima estrela de palavras e corpo – não posso.

Ó vida infinda, movimento de tudo em tudo, onde te originas tu? E quem te pode apreender? Eu não de todo e modo nenhum, pois qualquer momento meu, é de ti que o recebo. Melhor seria dizer que tu me apreendes, como a música apreende a nota, a linguagem a palavra, se pensassem; e eis precisamente que ao pensar-se, a alma humana se tem a si mesma num frágil e tenaz segredo: o de distinguir-se, a partir do seu próprio movimento de busca e interrogação – de todo o resto, com o qual é relação interrogante; e de igual modo consigo mesma, enquanto eu que em si se estarrece, duplicando-se na sua auto-interrogação. A alma humana dá-se como excesso de si e da vida, duplicação que permite o diálogo com tudo e consigo, na consonância ou dissonância; canto da vida e de si, que no interior destas vibra e se ergue até às margens de tudo, e aí se dilacera no extâse dos seus próprios limites.

4 Comments:

Blogger thepoisonousi@thehospital.com said...

A tua palavra repousa o meu fôlego.

Um abraço, ó Vitor! ;)

5:21 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

abraço, poisonous :)

12:13 da manhã  
Blogger BLUESMILE said...

Belíssimo texto para repousar o dia.
"Roubei" um parágrafo.
Obrigada.

2:54 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

eco vivo :)

5:20 da tarde  

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