segunda-feira, maio 18, 2009

À boca meia

para a Rita Só


Olhou para a cebola que lhe enchia a mão como uma palavra reflectida preenche um acto. Não, não a compreendia. A sua mão quieta tentava sentir a cebola. Mas não, nenhum pulsar lhe acudia à pele. A cebola imobilizava-lhe a mão como um esquecimento bloqueia um discurso. Era estranho. Difícil de apreender. Como algo sendo sem nada ser. Nem miragem nem sonho. Algo indeterminado pedindo definição, um orgão imóvel clamando estímulos. Tão estranho como uma foto do seu rosto futuro.

Como é costume quando se tem uma cebola na mão, na outra estava uma faca. Uma faca que ele aproximou da cebola. Esta não reagiu, estava cega, como o bêbedo que se aproxima do precipício, o animal da ratoeira. Quase tanto como eu, disse ele, e cravou a lâmina na cebola. Uma tira da primeira camada soltou-se da cebola, ficou um momento presa à lâmina da faca e desprendeu-se rodopiando até ao chão. Descascou mais uma tira, e outra, e ainda outra, e mais uma, e parou. Não percebia bem o que estava a fazer. Era um gesto banal, costumeiro, já o fizera muitas vezes e tantas outras vira outros fazê-lo. Mas sempre com sentido, na cozinha, confeccionando um prato. Não era esse o caso naquele momento. Ali, naquela enigmática situação, o que ele queria era comunicar com a cebola, que ela com ele comunicasse. Era como se perguntasse à cebola: Quem és tu?, e isto sem lhe perguntar: Para que serves? Curiosamente, a faca não lhe suscitava interrogação. Mas a cebola, da cebola ele algo queria saber, algo que não apenas o seu sabor.

Convicto que aquele desajustado gesto lhe mostraria o que fazer para comunicar com a cebola, continuou a descascá-la. Porque sempre era um gesto de contacto com a cebola, e não tinha mais nada por onde começar, não fazia a mínima ideia de como se falava a uma cebola. Ela haveria de reagir, dar um sinal qualquer ao seu contacto, era essa a sua esperança. E então descascava a cebola, à medida que os seus olhos se enchiam de lágrimas, fungando cada vez mais do nariz, quase espirrando continuava a descascar a cebola.

Devia ser uma cebola especial. A cebola das cebolas. Pois o chão enchia-se de tiras da cebola, um monte que crescia bem para além do tamanho da cebola. Um monte que crescia à sua volta e ameaçava soterrá-lo se ele não fosse mudando de lugar sempre que o monte lhe chegava à cintura. E cego ficava ele. Cego de lágrimas e ranho e espirros e tosse. Teve de instaurar paragens, pequenos pontos de descanso como quem faz uma longa caminhada. Paragens cujo único significado é o de poder-se continuar, sem parar, até à meta. Neste caso, a desconhecida meta: a gramática da cebola.

É possível que nestes intervalos para descanso, pessoas lhe aparecessem. Amigos, inimigos, indiferentes, familiares, sabe-se lá. E que muito provavelmente lhe dissessem que estava doido, que aquilo era uma perca de mente e de acção. Que pensasse bem, algum equívoco se infiltrara na sua compreensão de si. Até porque nunca mais com nenhum deles convivera, desde que se lhe enfiara na cabeça comunicar com aquela cebola. E é certo que, assim sendo, ele teria replicado: Que sabem vocês disto? Vocês não são cebolas!

O certo também é que continuou a sua talvez infinda tarefa, chorando e pausando e comendo e dormindo apenas o necessário. Até ao dia em que algo aconteceu. Não numa pausa, mas num momento de descasque. Ouviu um ploc!, quase inaudível. Um pequeno ploc!, muito distinto do chteít! do descasque. Parou imediatamente, de ouvidos em riste, naquele silêncio peculiarmente significante que se instaura depois de um som. Pousou a cebola no chão. Da sua direita, fôra o que lhe parecera, um pouco atrás de si à sua direita. Cautelosamente avançou para lá, ansioso e vagarosamente. E lá estava, mesmo no topo dum monte de tiras da cebola, lá estava como que triunfante, pousado no monte, pequeno como uma timidez lá estava, como que olhando para ele: um dente de alho.

Ele sorriu.

Não, não choviam dentes de alho do tecto da sua casa, nunca na vida. Aquilo só podia ser uma palavra da cebola, um gesto qualquer, um trejeito no olhar.

Pegou no dente de alho, cuidadosamente. Olhou para a cebola. Voltou a sorrir, e disse então: Tu e eu, temos a boca cheia de pouco.

E começou, lentamente, a descascar o dente de alho.

9 Comments:

Anonymous Anónimo said...

CRUEL PERSEGUIÇÃO AOS CRISTÃOS NO EGIPTO.

http://www.persecution.org/suffering/newssummpopup.php?newscode=10093&PHPSESSID=39f422d36b59c690cf7d4ee0a8845c58

http://www.persecution.org/suffering/newssummpopup.php?newscode=10089&PHPSESSID=39f422d36b59c690cf7d4ee0a8845c58


Enviemos mails para a embaixada:

egiptembassy@ip.pt (PORTUGAL)

embegypt@tba.com.br (BRASIL)

2:14 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

“(...) ela (a história) representa a maior prova de cinismo que se possa imaginar. Todos os sonhos, as filosofias, os sistemas ou as ideologias espatifam-se no grotesco do desenvolvimento histórico: as coisas produzem-se sem piedade, de maneira irreparável; o falso, o arbitrário, o fatal triunfam.” (Emil Cioran)

um abraço, anónimo, obrigado pela info

11:35 da manhã  
Blogger Caio Kaiel said...

Confesso que, pela primeira vez, eu olhei o texto como quem olha a cebola... eu e a faca, acabando com ele, tirando minhas conclusões antes de entendê-lo, como sempre faço.

Claro, voltei a lê-lo e creio que entendi, mas só depois de guardar a faca no lugar dela.

Obrigado pela reflexão.
Abraço.

Caio Kaiel

2:33 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

ah, claro, é preciso ter cuidado com a faca. talvez o modo bisturi seja o mais adequado, mas é difícil, é preciso cá umas mãos e uma concentração… ;) abraço! PS: leitura e tantas coisas mais só se mostram na sua vida própria, quando nos estarrecemos; a cebola tem sempre segredos que nenhum hábito conhece, nem sequer os de quem a plantou e regou...

5:43 da tarde  
Blogger Caio Kaiel said...

verdade... até para a mastigação devemos ter respeito aos sabores.

Novamente obrigado.

Caio

3:54 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

obrigado também, Caio :) e bom fim de semana

4:04 da tarde  
Blogger Gotik Raal said...

Penélope, primeiro a colcha e depois o arco, na demanda espiritual do seu Ulisses :)

Abraço e boa semana, Vítor
Gotik

1:40 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

ah, a também astuta na vitória do amor sobre o tempo e o bom senso;) abraço, Gotik, boa semana

10:20 da manhã  
Blogger freefun0616 said...

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2:17 da tarde  

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