segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Vita luna


para o Pedro Paixão


A vida, é uma determinação densa, difícil de distinguir. No acontecimento que somos, na existência, a vida é total: enquanto seres vivos, todos os nossos momentos são momentos, precisamente, da vida, ocorrem no estarmos-vivos. Ela parece transbordar-nos no tempo e no espaço: tomamo-la como que presente e activa no inteiro universo, e anterior à nossa presença; surgimos dela e nela.

A vida acompanha o ser, sendo que tudo o que há se move e é movido, dos planetas e estrelas às células e aos electrões. É pensável uma não-vida, e é esse juízo negativo que nos ocorre quando pensamos na morte, nos mortos. Vazio que podemos preencher, como é evidente. Mas do morto a única coisa a que acedemos é a sua não-presença, ou se quisermos: a sua presença fantasmagórica, radical e fundamentalmente distinta dos nossos modos de vida. Aparece-nos aqui também a interrogação do corpo, do rosto carnal; qual a relação entre o corpo morto e a identidade viva com que nos relacionámos, no caso da morte de outrém; no caso da própria, qual a relação da nossa presença viva com essa possibilidade negativa e imensamente provável, de um dia na vida morrermos; de serem abalroadas, digamos assim, todas as possibilidades, todas as expectativas impossibilitadas, ou a terem que mudar tão radical e fundamentalmente como a diferença abismal ou fantasmagórica dos mortos connosco; qual a nossa relação com o nosso corpo morto, e inversamente.

A vida define-se pelo movimento, isto é, pelas relações entre o que há; e não pelo ser, pelo puro e estrito facto de haver algo; podia haver imóvel, digamos assim, haver apenas ser, sem modificação alguma, sem tempo e em todo o espaço; sem alteridade imanente.

Seja como for, o ser é algo a que nós acedemos no pathos absoluto de estarmos vivos; nós apenas detemos experiência do ser enquanto ocorrência na vida, quanto mais não fosse na nossa própria.

A conexão entre vida e ser exprime-se também na implicação de que uma desvitalização é uma retirada de ser, está gradualmente a desaparecer, já não é Sócrates, esse corpo cuja perna não adormece nem a boca interpela. Trata-se aqui do ser na sua modalidade identitária, e de identidade concreta, em presença viva, sendo connosco. É no elemento passivo de nós, ou feminino, que sentimos a morte do outro, e conforme a nossa ligação afectiva com ele nos pomos a soltar gritos e lamúrias como Xantipa; e é também no elemento passivo de nós que temos e teremos de confrontar-nos com a nossa, não obrigatoriamente em total exclusão do activo.

A vida caracteriza-se pelas forças, pelo vigor; há diferença entre a vida e nós, no sentido da anterioridade e universalidade da vida relativamente a nós; há também identidade, visto que uma das nossas determinações essenciais é precisamente sermos vivos, com mais ou menos forças e vigor.

Nós damos connosco já em vida, para dizê-lo de algum modo; isto é, a vida no sentido estrito é um puro padecimento de si; é um acto espontâneo, não decidido pelo próprio, um inanulável início cujo decorrer, é certo, se pode anular voluntariamente, ou se preferirmos: atirarmo-nos à diferença vital da nossa própria morte. Mas esta, pelo seu lado e enquanto possibilidade, também não foi decidida pelo próprio: decorre da própria vida, é-lhe negativamente correspondente; o sujeito vivo apenas pode decidir o momento, se as circunstâncias não impedirem.

A morte é um caso peculiar: de certo modo, ela não é um acontecimento da vida, não há "vida morta"; por outro ou pelo mesmo, ela é um acontecimento da vida, sendo esta a sua condição primeira: só onde há vida pode ocorrer morte. É por isso que, se não pensarmos na sua vida atómica nem em qualquer outro modo de animação, o inerte não é morto, nem é vivo: a pedra não deixa de respirar, pois nunca respirou. A peculiaridade da morte reside em ser uma fronteira absoluta, uma margem que ao fechar-se sobre nós não deixa escapatória possível senão ela-própria; e simultaneamente ser uma possibilidade extrema do puro pathos de si, que tal como o nascimento, toma o pathos de si integralmente.

A reflexão não detém nenhuma representação directa, isto é, que corresponda a uma apresentação visível e localizável, da vida (ou da morte); detém representações de seres vivos (ou mortais, ou mortos), reconhecendo neles a determinação "vivo" (ou "morto"), mas nenhum deles é evidentemente a vida (ou a morte); e também não é passível de ser extraída, abstraída, conceptualizada num conteúdo de que se possa dizer "isto" é a vida (ou a morte); a vida (ou a morte) não é da ordem da visibilidade, nem perceptiva nem reflexiva.

A vida é algo como a potência ontológica em acto, temporalizada e temporalizante; e resiste ao conceito por dois polos: na sua omnipresença, tal como o ser; e no contínuo movimento que lhe é essencial, contrariamente ao ser, e sobretudo, contrariamente à fixação identitária que corresponde à representação. Denominar a vida ou o ser não é concebê-los mentalmente, detê-los numa definição esclarecida. O ser e a potência são ideias obscuras, nomes cegos que indicam pressupostos incognoscíveis; significam uma constatação de algo que empurra o que há a ser e a desenrolar-se, a acontecer; ou melhor: significam esse empurrão vital de tudo em tudo; e a existência é algo como a síntese obscura e densa da vida e do ser em consciência reflexiva; nós próprios, e nada; ou a dança que rasga a pétala na própria flor.