segunda-feira, fevereiro 25, 2008

O que é o eco? Porque mora na palavra?

para o Tiago Gomes


10h15
Acordei com o som inchado de que a realidade, ou a concepção que dela fazemos, não é ampla ou aberta mas limitada a um instante – o do medo e desvario primitivos. Vivemos na estável construção que nos projecta no inexplicável, o rosto em congelado susto perante a escuridão das estrelas.

11h00
Olhei, como um túnel, um deslize caleidoscópico, eu andava, as cores eram formas que se expandiam e gritavam, só cores e eu era viva e andava, como uma respiração aquática. Levei a mão e acordei novamente, e novamente, e novamente. As paredes estagnavam na fluência, os corredores. Havia uma cor violeta que me arrepanhava toda. Eu andava. Eu olhava. Uma mosca passeava na janela. Entrou nas núvens que estavam imóveis no céu ao fundo. Troncos adormecidos jaziam na lareira fria. Uma ficha tripla esticava os seus machos para cima. Na mesa de madeira, a planta deixava cair as suas longas folhas como uma cabeleira. Uma camisa clara afundava-se no solo. A televisão crepitava. Ele estava esparramado no sofá. Respirava. Estão a ver, as paredes, os dois posters, a mancha de café na alcatifa e o candeeiro. Eu andava, loucura adulterada, era eu amanhecida e temível. Estão a ver. A televisão crepitava no seu adormecimento.

13h05
Estava com a sensação de ter a cabeça a ferver como se me fritassem batatas no cérebro. E reverberava nos meus membros tornando-os pesados como que semi-adormecidos, inclusive a língua que me parecia empastar-se pela atmosfera tornando o sol esponjoso eo ar denso. Um lagarto secando até à morte numa rocha do deserto. Levantei-me e caminhei um bocado, mas os músculos das pernas gemeram a tal ponto que tive de voltar a sentar-me. Um odor salino abria-me as narinas e sufocava-me o ar. Se quisesse cair, não poderia fazer melhor. Estava com uma vontade ardida de adormecer, de penetrar numa escuridão que me anulasse a existência, o tempo, como uma anestesia, mas como que o próprio corpo se recusava ao descanso, mantendo-se naquela vigília de extenuo, o próprio pensamento defendendo-se da inconsciência como que prevendo mais adiante um esclarecimento, uma revelação própria deste cansaço extremo.

14h10
A emissão iniciou-se em mim com uma locutora sorrindo azul. Os sons entraram e ergueram-me estática e tensa, era como se me doesse a cabeça, apenas isso, uma questão de coerência. As paredes liquefaziam-se, e eu conhecia o motivo, as faces que surgiriam sólidas e constantes como sonhos por vir, verdes e líquidas pelas paredes, líquidas e sólidas e as bocas abertas em riste, gritando. Ao princípio aterrara-me, os olhos, lisos como os das estátuas gregas que o tempo reconduziu à pedra, as vozes, o que diziam. Era um medo insustentável, um tolhimento que me enclausurava em mim própria numa total paralisia do corpo e da mente. Não tinha ninguém com quem falar, meu irmão como uma criança apunhalada num quarto, lençóis brancos, uma rosa, estava aterrada.

17h04
E rebentou, era como uma mão crescendo-me dentro da cabeça, empurrando dolorosamente as paredes do meu cérebro. Há algo que me desvia a direcção nas caminhadas para o que me proponho. Há sempre demónios que nos atiram das janelas altas de prédios insultuosos. As mesas de bilhar encarniçavam-se em sorrisos, pareciam esgares de esboço quebrados por sentimentos.
Estão a captar?
Ou provavelmente não. Provavelmente acreditam na nossa sinceridade verbal.
Eu cá procuro a palavra que tudo pergunte e tudo responda, a felicidade constante, é o objectivo.
Na medida da dor.
Seria levada a cair dentro da violência, implorando a vida na escuridão, um rosto que olhasse sempre branco e redondo e as cores movendo-se na escuridão e no denso lume.

18h55
- Paga-me uma bebida. Estou tão seca que cuspo algodão.
- Laranja. Como que uma parede negra surgiu súbita à minha frente, engolfante, não reflectindo em absoluto luz alguma. E era uma violenta sensação, pois mudara na totalidade o espaço que me envolvia e eu era. Levantei-me, sufocada, e dirigi-me à janela que abri ansiosamente.
- Tudo é vida e só a vida é eterna, dizia ela, a semente não morre assim como não morre a primavera, mas de resto não lhe apreendia o sentido, apenas as formas sonoras da sua fala que embatiam na minha boca, também negras.

20h07
Qual o último sentimento da baleia ao morrer no oceano? perguntava ela azul.
Qual o tamanho dum corpo humano quando lhe tocamos por dentro? Sempre que o sol morre.
Quantos passos são precisos para chegar ao mesmo lugar? Existe uma eternidade em cada momento.

22h25
Não há ouvidos nos dedos repletos de bocas.
Como um cancro corroendo as intimidades.
Um ácido que anula os segredos.
Na clareza dos mistérios.
Um odor a feno que tortura as primaveras.
O sol nunca esteve tão baixo.
Os degraus servem de apoio.
Com o frio? eles? no olhar?
A cidade minada, cercada por dentro.
Os táxis.
Os prédios.
Os candeeiros.
A pálpebra dum olho fechado.
Não opôs resistência alguma.
Como um bolo oferecido à boca da tortura.
Um espaço de respiração e movimento.
O inimigo é nosso irmão, dorme connosco nas trincheiras.
Esse sono de entrega tão expandida.
A morte sem sobressalto, serena e aceite.
Húmida e cingida como um entremelar de línguas.
Como mãos nervosas e deslocadas.
Gemidos vários que cegam pelo próprio caminhar.
Aquele que nomeia os vivos.
Cada palavra uma faca.
A testa encostada à janela.
Como se um guincho se suicidasse na linha do comboio.
Como tambores primitivos numa inócua música de câmara.
Uma luz num recanto da mente.
Como uma histeria num embate quente com o silêncio.
Um beijo nas veias.
Os degraus não são o topo.
O som da porta do elevador, a camisola.
De ácidos sabores na boca.
Uma festa acesa.
Desmesurada.
A música e a gaiola.
Essa pele branca numa respiração redonda.
Força não é poder.
Chamo.
Como quando se vem de longe e a casa não acolhe.
Como um interno duplo.
Como ninguém por perto.

23h45
E essa fusão far-me-ia reencontrar.

15 Comments:

Blogger www.angeloochoa.net said...

«Existe uma eternidade dentro de cada momento» - já kierkgaard antevira... pela «repetição»... mas há q «ler» cada sinal de cada 'nstante... o abscôndito do nosso deus da história é aí q mora nosso confidente «eco» do nosso murmúrio, boca, palavra, gemido ou balbuciar... Estamos num tempo não tempo e o céu já começou, melhor, o reino com r grande... está na mais pequenina flor, no mais tímido raiozinho de tímida luz e é aí que nos engolfam nossos sonhos mediáticos... a decifração é tarefa em que o contéudo latente passa a conteúdo patente espada a varar-nos coração, coraaçãode deus a engolir e livrar nosso pequenino coraçaõ de pedra a fazêlo carne também de seu sonho ... o sonho de deus esse é quase imprescrutável ou será q deus não dorme... alegre fico quando ous simplicissimos sinais nos aproximam da vontade de deus a nosso respeito e repetimos pai-nosssos esquecidas as palavras da oração do cristo: faça-se (na terra) a tua vontade... ou a palavra da mãe fazei o q ele vos disser dita numa circunstancia as bodas de canãã em q ele se demitia por naõ ser da sua conta nem da sua hora: mulher, não chegou ainda a minha hora! duras palavras dun terno coração a Mulhe Mãe Nossa e Sua esqueceu-Lhe as palavras porque Lhe leu o Coração e jorrou um vinho novo de espanto pra nossa eterna alegria! Caro, cristo é pra viver ou pra comer não pra colar na lapela não tenhamos dele medo na tormenta é então que dormído embora ele vela e cuida. dum algarve de caos e sol te saudo caro amigo a teu dispôr. ochoa angelo nada mais do qq um cristão católico com baptismo de áhgua e spirito de verdade o mesmo é liberdade.

12:10 da tarde  
Anonymous blues said...

o corpo por dentro é do tamanho do que sente. pode ser uma angústia...o sacana do infinito! chover, chover sempre no mulhado, às pinguinhas, ritualizando, 123, 123,123...

12:13 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caríssimo Ângelo

Solange, persona rasgada deste texto, penso que se observada pelo jovem de Copenhaga, vê-la-ia este suspensa na primeira parte da alternativa, em ante-ante-câmara da pastorícia e sabedoria da repetição. Digamos que ele observaria que ela tenta retirar do próprio desespero a lucidez. Por isso Solange já não tem medo nem a tormenta a atormenta. Espetará a faca no braço, revolvendo a carne até ao osso.

Penso que Solange se está borrifando para Cristo, ou quase quase quase. Mas não para Deus, ou quase quase quase.

Penso que um dos problemas dela será: aqui, ser gaja é fodido (perdoe-me, se tal for o caso, a expressão, mas é a própria Solange que a isso me obriga, se com ela honesto eu quiser ser). E depois: onde o ser da sede. E ainda depois: onde o feminino de Deus.

Penso não saber muito mais, se é que tal é algum saber.

Penso que o melhor até, será perguntar à Solange ;)

Um abraço em Cristo

4:38 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

PS: Quanto a mim, o seu comentário atravessa-me de sentido vivido e anseado.

4:40 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Olá, blues.

No mulherado sim ;)

O silêncio é maior que o ritual.

Seja como for, abismal é qualquer momento por fora ou por dentro. Mesmo a tentativa de dar conta da pequena pedra poisada no umbral, a rigor não mais findaria – como agarrá-la sem falar do umbral, e da densidade das pedras, e no limite no ser de todas as coisas e ( ). E tudo o que se sente, se nos sente e ressente.

Às vezes a retoma é agarrar sem de-finir.

Bjos 123456… 1

4:44 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

precisamente, essa de-finição causa uma angústia filha da puta. qual-o-ta-ma-nhoo-co-r-re-cto?

mas é mais triste, ou nostalgico deixar de a ter

:)

12:42 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

belo! perdi o nome! terei mudado de cor? ou de tom?

12:46 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

a desmesura ser o tamanho de toda a medida

quero manter ambas

ser na relação de ambas

construir o nome na sua perca

toda a cor em todo o tom

uma só vez e todas as vezes

a medida ser o tamanho de toda a desmesura

belo! belo! belo! belo! belo! belo! belo!

PS: deus feito carne, carne feita deus, pois :)

PS 2: ontem, sem bom senso financeiro nenhum relativo aos gastos deste mês, não resisti e comprei o “37 graus duas da manhã” do Beineix. não é um imenso filme, creio, enfim, sei lá… conduziu-me ao Phillipe Djian, e sobretudo, irrompeu nos meus 17 anos da altura, revelando-me que o desespero bem estrilhaçado e toado abre o horizonte a determinada alegria, pois pois avec la tristesse et la nostalgie.


“Ouais, bien sûr, il faudrait qu’elle comprenne que le bonheur existe pas, que le Paradis existe pas, qu’il y a rien à gagner ou à perdre et qu’on peut rien changer pour l’essentiel. Et si tu crois que le désespoir est tout ce qu’il te reste après ça, ben tu te goures une fois de plus, parce que le désespoir aussi est une illusion.”

“Vers la fin, j'écoutais plus personne, j'entendais juste un murmure lointain, tout me paraissait lointain, le monde était d'une simplicité absurde et je souriais.”

“Je savais aussi qu’il y a toujours de bonnes choses à prendre quand on est décidé à aller jusqu’au bout.”


PS 3: bjocas, red' s blues white on green' s black pink of violet

1:15 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

“Ya, claro, era preciso que ela compreendesse que a felicidade não existe, que o Paraíso não existe, que não há nada a ganhar ou a perder e que no essencial não se pode mudar nada. E se acreditas que o desespero é tudo o que te fica depois disto, derrapas outra vez, porque também o desespero é uma ilusão.”

“Lá para o fim, eu não escutava ninguém, escutava apenas um longínquo murmúrio, tudo me parecia longínquo, o mundo era duma simplicidade absurda e eu sorria.”

“Eu sabia também que havia sempre coisas boas a tomar quando se está decidido a ir até ao limite.”

(trai-du-ção às três pancadas para infrancesados)

1:22 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

quantas vezes me pergunto que espécie de idiota é ("esta") que fala para não ouvir!

sinto q é o modus operandi, independente~ da finalidade

10:33 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Pré-scriptum: oh em tantas perguntas reside o sentido no próprio que pergunta

caro anónimo, não sei bem a quem se refere
mas não sendo a mim nem ao senhor Ângelo
e se há sem nome blues for
acutila-se tenaz a pergunta:
onde a falta de escuta:
nela, em mim,
ou em si anónimo?

pois há escutas divergentes
e convergências sem escuta
tanta falsidade esconde a aparência

e em estrilhaço do inaugurado
modus operandi da citação
conta-nos o santo idiota
Príncipe Mushkin:


“A filha chamava-se Maria, teria os seus vinte anos, mas fraca, raquítica. Havia muito tempo que a tísica a minava, o que não a impedia de fazer duras tarefas domésticas em diferentes lares. Lavava a roupa, esfregava o chão, varrias os pátios, ocupava-se dos animais. Um caixeiro-viajante francês, de passagem por ali, seduziu-a e levou-a com ele, mas ao fim de uma semana abandonou-a na estrada e desapareceu. A rapariga voltou para casa, mendigando pelo caminho, suja, andrajosa, porque dormia ao relento. Estava enregelada, com os pés feridos e as mãos entumecida e gretadas. Aliás, nunca havia sido bonita, à parte os olhos bondosos, meigos, inocentes. Mantinha-se num silêncio assustador. Uma vez, de repente, começara a cantar enquanto trabalhava, e eu lembro-me de que toda a gente se admirou e troçou dela. «O quê? A Maria canta?» Ficou atrapalhada e desde então calou-se definitivamente. Por essa época, ainda eram complacentes com a rapariga, mas, quando adoeceu e ficou naquelas condições, deixaram de ter dó. São tão cruéis, em tais circunstâncias! Os seus preconceitos revelam tanta grosseria, tanta falta de compaixão! A mãe foi a primeira a mostrar-se colérica e desdenhosa. «Tu desonraste-me.» Assim ma entregou ao opróbrio da turba. Quando se soube na aldeia que Maria regressara, todos acorreram para a contemplar; a população quase toda inteira compareceu no tugúrio da velha. Maria estava estendida no chão, aos pés da mãe, esfomeada, andrajosa e chorava. Quando viu tanto povo, escondeu a cara com os cabelos despenteados e estirou-se ainda mais. Os outros olhavam-na como para um animal imundo; os velhos censuravam-na, os novos faziam chacota, como se fosse uma aranha. A mãe permitia tudo isto, e até aprovava com sinais de cabeça. Por esse tempo, a velha já andava muito doente, quase moribunda: de facto, morreu dois meses depois. Embora soubesse a sorte que a esperava, nunca pensou em reconciliar-se com a filha. Nem sequer lhe falava; deixava-a a dormir na estrada e mal lhe dava de comer. Precisava constantemente de escalda-pés por causa da enfermidade das pernas. Todos os dias Maria lhos dava, tratando-a como podia. A mãe aceitava estes cuidados em silêncio, sem uma palavra de gratidão.
«Mas a Maria suportava tudo, e mais tarde, quando a conheci, notei que ela própria aprovava isso e se considerava a si mesma como a mais indigna das indignas. Depois que a mãe deixou de se poder levantar, as velhas da aldeia vieram, consoante o costume, tratá-la alternadamente. Então esqueceram-se por completo de alimentar a rapariga, que todos expulsavam, negando-lhe trabalho. Era como se lhe cuspissem na cara; até os homens acabaram por não a julgar como uma mulher e, diante dela, proferiam coisas indecorosas. Por vezes, mas raras, se estavam bêbedos, ao domingo, lançavam-lhe moedas de cobre, para se divertir: Maria apanhava-as sem dizer nada. Já então cuspia sangue. Os andrajos, por fim, caíam-lhe aos bocados, tanto que ela tinha vergonha de aparecer. Nunca mais tinha usado calçado. Era a ocasião em que os garotos, em bandos - cerca de quarenta - , se encarniçavam contra a infeliz; chegavam a atirar-lhe com lama. Maria pediu ao pastor que a deixasse guardar as vacas, mas este escorraçou-a. Por sua própria iniciativa, certa manhã seguiu a manada. Como afinal pôde ser útil, o pastor acabou por tolerá-la. Até lhe dava as migalhas do seu jantar, bocados de queijo e de pão, o que considerava como um grande favor da sua parte. Quando a mãe morreu, esse homem não teve pejo de humilhar Maria na igreja. Estava ela atrás do féretro, e chorava. Tinha vindo muita gente para a ver seguir o enterro: e foi nesse momento que o sacerdote, pessoa ainda nova, e cuja ambição era tornar-se pregador famoso, se voltou para Maria e, apontando-a, disse: «Eis a que foi a causa da morte dessa mulher respeitável – era falso, porque a mãe andava doente havia dois anos -, eis diante de vós quem não ousa erguer os olhos porque Deus a designou a dedo, ei-la descalça e com farrapos, exemplo para todas as que perdem a virtude! E quem é ela? A própria filha!» E assim por diante. O mais extraordinário é que esta infâmia agradou a quase todos, mas... foi aí que se produziu algo: os garotos tomaram o partido de Maria, pois nessa altura já estavam do meu lado e começavam a estimar a rapariga. A coisa passou-se deste modo:
«Eu queria fazer qualquer coisa em benefício de Maria. Ela precisava muito de dinheiro, mas eu estava na penúria. Possuía apenas um alfinete pequeno com um diamante. Vendi-o a um adelo que andava de terra em terra. Valia, pelo menos quarenta francos, mas ele deu-me só oito. Tratei de encontrar Maria sozinha, o que finalmente aconteceu, atrás da barreira da aldeia, numa vereda, que conduzia à montanha, e perto de uma árvore. Entreguei-lhe os oito francos e pedi-lhe que tivesse cuidado, porque não havia mais dinheiro. Em seguida beijei-a e disse-lhe que não julgasse qualquer intento mau da minha parte: beijava-a não por estar enamorado dela mas porque a lastimava muito; acrescentei que nunca a considerara culpada, mas apenas uma infeliz. Desejava ardentemente consolá-la e convencê-la de que não se devia humilhar diante dos outros. Não me compreendeu; percebi-o logo, embora ficasse silenciosa quase todo o tempo, de olhos baixos, envergonhada. Quando acabei, beijou a minha mão; quis retribuir, mas a rapariga não consentiu.
«Foi nessa ocasião que os garotos, vindo em grupo, nos surpreenderam. Mais tarde soube que me espiavam já antes disso. Começaram a assobiar, a dar palmas, a rir às gargalhadas: entretanto Maria safava-se a correr. Tentei falar-lhes, mas atiraram-me pedras. Nesse mesmo dia toda a aldeia foi informada do sucedido. O resultado foi detestarem ainda mais a pobre Maria. Ouvi mesmo dizer que tencionavam castigá-la, porém - Graças a Deus - isto não passou de palavras. Em contrapartida, os garotos não a deixavam sossegada. Chegaram a atirar-lhe lama. Perseguida, a rapariga tratava-se de escapulir, mas, doente do peito como era, faltava-lhe o alento. Certa vez tive necessidade de intervir; depois procurei falar com eles, e fazia-o sempre na primeira oportunidade que se me deparava. Havia momentos em que paravam para me ouvir, embora continuassem com as suas injúrias. Contei-lhes como Maria era uma desgraçada, e, a pouco, desistiram das ofensas e foram-se habituando a escutar-me Viemos, assim, a trocar impressões. Não lhes ocultei nada, disse-lhes tudo. Alguns, quando a encontravam, já lhe dirigiam uma saudação. Nessa aldeia há o costume de as se cumprimentarem, quer se conheçam ou não. Imaginem a surpresa de Maria! Uma vez, duas pequenas levaram-lhe comida, e em seguida vieram contar a sua proeza. Disseram que ela havia chorado e que, desde esse instante, a estimavam muito. Depressa a apreciaram, e a mim também. Muitas vezes visitava-me, pedindo-me sempre que lhes contasse qualquer coisa. Creio que os interessei, porque, me ouviam com prazer. Daí por diante eu só lia e estudava para em seguida lhes reproduzir o que aprendera, e assim passei os últimos três anos. Mais tarde, quando me censuravam – Schneider –e os outros – de me entreter com os pequenos como se fossem adultos, respondia a todos que era escandaloso mentir às crianças, que elas já têm a intuição de tudo para que seja preciso ocultar isto ou aquilo, e que, não sendo assim, virão a saber de forma mais crua, ao passo que eu usava de uma linguagem cautelosa. Bastaria que se lembrassem da sua própria infância, rematei. Mas não consegui persuadi-los...
«Havia beijado Maria quinze dias antes de ocorrer o facto da morte da mãe. Todavia, na ocasião em que o sacerdote fez a sua prédica, os miúdos já estavam todos do meu lado. Contei-lhes então, e expliquei-lhes, o que homem tinha feito. Ficaram indignados contra ele, e até alguns foram atirar pedras às janelas da casa dele. Detive-os, convencendo-os de que era um mau procedimento, mas já a aldeia sabia do caso e, assim fui acusado de perverter esses pequenos. Quando, então, constou que eles gostavam de Maria, a inquietação subiu de posto. Entretanto a rapariga já se sentia feliz.
«Proibiram-nos de falar com ela, o que fez com que a procurassem em segredo, próximo da manada, a meia légua da aldeia. Levavam-lhe guloseimas ou limitava-se a acarinhá-la, dizendo-lhe: «Gostamos de ti, Maria». Em seguida fugiam a sete pés. Maria quase ficava louca de felicidade, porque jamais sonhara com isso. Sentia-se ao mesmo tempo confusa e alegre, e quanto às crianças, em particular as pequenas, empenhavam-se em ir ao seu encontro para lhe participar que eu a estimava e que lhes falava dela com frequência. Contaram-lhe ter sido por meu intermédio que souberam tudo a seu respeito e que, presentemente, lhe queriam bem e esperavam que assim continuassem. Depois vinham ter comigo com ar feliz e pressuroso a fim de me informar de que tinham visto Maria e Maria me enviava saudades. À noite eu ia a um recanto escondido entre choupos, e ali apareciam os garotos, alguns clandestinamente Creio que a minha ternura por Maria os tornava deveras satisfeitos, e foi nisso apenas que eu os iludi, isto é: não estava apaixonado pela rapariga, somente me limitava a ter pena dela. Bem via como eles prefeririam que fosse do modo que pensavam e como tinham decidido entre si. De maneira que eu calava-me, deixando-os ficar na sua suposição.
«Aqueles coraçõezinhos eram a tal ponto afectuosos e delicados que lhes pareceu – visto o seu bom amigo Leone amar tanto Maria - ser impossível ela andar mal vestida e descalça. Imaginem que lhes arranjaram sapatos, meias, roupa branca e até um vestido. Como puderam fazer isto, não sei: todos puseram no caso a maior diligência. Quando lhes fazia perguntas, riam-se apenas, e as pequenas batiam palmas e beijavam-me. Acontecia-me às vezes falar com Maria às escondidas. Estava já muito adoentada e custava-lhe a andar; por fim, não prestava qualquer serviço ao pastor, apesar de seguir todas as manhãs os animais. Sentava-se de parte. Havia ali uma saliência na rocha que descia quase sempre a pique: instalava-se no fundo, sobre uma pedra, oculta a todos os olhares, e permanecia quase imóvel desde manhã até à hora de a manada retirar. A tísica enfraquecera-a tanto que tinha quase sempre os olhos fechados, com a cabeça apoiada à rocha, e dormitava respirando com dificuldade; o rosto tornara-se de uma magreza esquelética, e a testa e as fontes encharcavam-lhe de suor. Era assim que sempre a encontrava. Vinha só por um instante, e afinal também não queria ser visto. Logo que eu aparecia, ela sobressaltava-se, arregalava os olhos e precipitava-se para me beijar as mãos – que não lhe retirava, por saber quanta felicidade Maria obtinha com isso. Todo o tempo que ali ficava, ela tremia de prazer e chorava. É certo que às vezes tentava falar, porém custava-me a compreendê-la. Via-a não raramente como uma louca, imensamente comovida e deslumbrada. Com frequência os garotos acompanhavam-me. Neste caso, detinham-se não muito longe e ficavam de vigia, para nos proteger não sei bem de quê, o que era para Maria extraordinariamente agradável. Quando partíamos, ela ficava outra vez imóvel, de olhos fechados e a cabeça apoiada à rocha. Quem sabe se entregue a fantasias!
«Certa manhã, não teve forças de seguir a manada e manteve-se sozinha no casebre vazio. As crianças não tardaram a sabê-lo e quase todas lhe fizeram visita. Maria achava-se estendida no catre. Durante dois dias, elas trataram-na uma de cava vez; depois, como constasse que a rapariga morria, as velhas apareceram também. Parece que na aldeia haviam acabado por se condoer da doente; pelo menos já não proibiam aos filhos que a vissem, e não os repreendiam. Maria estava continuamente sonolenta, mas esse sono era agitado. A tosse sacudia-lhe com violência. As velhas afastavam pelo exterior, nem que fosse só por um instante, apenas para dizerem: «Como vais, Maria?» E Maria, mal os via ou ouvia, reanimava-se, e, sem fazer caso das velhas, porfiava em soerguer-se, fazia sinais com a cabeça, tudo para agradecer aos miúdos. Estes continuavam a dar-lhe guloseimas, que ela já não podia comer. Graças a eles, morreu quase feliz; graças a eles, esquecera-se da sua negra miséria, como se consolada com o perdão que lhe levavam, pois até ao fim sempre se julgou uma grande pecadora. E as crianças, quais avezitas, esvoaçavam pelo lado de fora da janela e diziam-lhe todas as manhãs: «Gostamos de ti Maria!» A morte foi rápida. Supus que duraria mais tempo, quando a conheci.
«Na véspera do falecimento, ao pôr do sol, fui visitá-la. Devia ter-me reconhecido; apertei-lhe a mão pela última vez.
Que descarnada, aquela mão! E eis que no dia seguinte me anunciam a sua morte! Foi então impossível impedir as crianças de comparecer. Cobriram-lhe o caixão de flores, puseram-lhe uma coroa na cabeça. Na igreja, o sacerdote já não afrontou Maria; aliás havia pouca gente no funeral, apenas uns curiosos. Mas quando foi na altura de conduzir o ataúde, os pequenos precipitaram-se todos. Como não tivessem força, para o aguentar, procuravam ao menos ser colaboradores, correndo adiante do féretro e chorando. Desde então a cova de Maria é objecto de culto da parte das crianças. Todos os anos a enchem de flores e até, em volta, plantavam roseiras.”





quanto a finalidades entrever
escuta mais profunda e aberta
suspensa e atenta
seria requerida

abraço, de fim a pavio, caro anónimo

5:48 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

perdoem-me a extencitação

que agora vendo postada
notei

mas o Dostas assim requer e
merece

tendo-me começado a lixar a vida
bem antes do anterior

lá para os meus incautos
12, 13 anos

à tua, Fyodor!
(sem finalidade)

5:54 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

enfâse (ou bold) na espécie, não no indivíduo, talvez no sujeito. Ao dosta, atão, que salvou o dia! chim chim

blues

8:52 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

(re)vê o filme do beineix, pá, cujo (sobre)título popular agora reparo aqui converge: Betty blue ;)

chim!

2:32 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

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