segunda-feira, fevereiro 18, 2008

O espelho na janela

António está sentado no sofá. O gelo já derreteu no copo, o polegar percorre a superfície de vidro com força contida, lentamente. Os olhos fixam-se para além dos objectos, em nada, e ouve, a vontade ressoar abafada, sem nada em que possa reverberar, dispersando-se no infinito vazio em redor.

A luz da tarde refracta-se nas janelas empoeiradas, espalhando-se suave pela sala, colorindo o ar, silenciosamente laranja. António sacode a cabeça. As sombras escuras afundam-se laranja adentro. O som do frigorífico estende-se para o resto da casa, ressoando surdo no silêncio.

António levanta-se e bebe o resto do gim num trago.

Dirige-se para a casa-de-banho, fecha a porta, puxa o cortinado negro e acende a luz vermelha. - Depois fecha a porta! gritou-lhe Álvaro atirando-lhe a chave, e Solange sorri como calma. Foda-se, ainda não é desta, e acomoda-se à cadeira. António preparou outro campo, e outro gim. As provas deslizam e ondulam na tina do revelador, ele olha para o cronómetro, controlando o tempo. A prova. Dá-lhe sempre a mesma sensação infantil de magia, a imagem a aparecer lentamente, primeiro nublada e sem contraste, definindo-se gradualmente à medida que o revelador se agita. Foda-se, isto é como aquele sonho de mergulhar no lago, nossos olhos vêem debaixo de água como se fosse cá fora e se sobe num anseio de respiração, subir, subir, subir, vendo a superfície cantando ar por cima, esbracejar, esbracejar, sem tocar. Sufocar, inclina a cabeça para trás, soltando fumo para o tecto, esta boca enorme no centro do peito, clamando fome e sede, os ausentes alimentos nos nervos gritando solidão. Acordar, o rumor da água desaparecer, Solange levanta-se, apaga o cigarro no cinzeiro, olha-se ao espelho da entrada, ajeita o cabelo despenteando-o aqui e ali. Sorri, mas parece-lhe uma careta. A superfície situa-se invisível no infinito horizonte, lograr, sacode a cabeça, apetecendo-lhe de súbito não ser o que é, ou melhor, aquela que vê reflectir-se no espelho e lhe lembra tanta coisa, alegre e triste, tanto peso de nada, de superfície inatingida. Acontecimentos desfilando, sem vislumbre de eclosão, tornando o acaso aleatório, os momentos separando-se uns dos outros, destacando-se do todo, dessintonizando-me. Não é a mim que agem os acontecimentos, é à imagem reflectida no meu espelho, a estrangeira de quem eu assisto os pensamentos, os gestos, os sentimentos. Solange desce as escadas para a rua, Tenho ainda uma ténue lembrança de mim, desta que se quedou estática frente ao espelho, quero dizer uma vaga ideia da acção que antes de se tornar estátua muda este eu fazia existir em mim, Um canto, Mas essa lembrança esfuma-se na memória da infância.

António passa a prova para a paragem, depois para o fixador. É a fotografia duma bicicleta abandonada num jardim, uma floresta de relva e prédios em último plano. Vira-se, seca as mãos e tira o negativo do ampliador. Coloca outro; a imagem surge negativa no marginador de réguas.

Solange senta-se na esplanada e pede um absinto, com vontade dum sabor que lhe defina o esgar que sente nascer dentro dela. As provas estão a lavar. António prepara outro gim e deita a garrafa vazia para o caixote. O rumor da água repande-se no silêncio, ressoando pela canalização velha. Solange deixa o gelo bater-lhe nos dentes enquanto sorve o líquido amargo, as pernas cruzadas, pele com pele por baixo da saia. Deixa-se olhar por um homem de bigode, suado dentro da roupa, abafado, Preso nas suas próprias convenções, pensa Solange sorvendo o absinto. Não, hoje não há engate, acende um cigarro, acaba o absinto. António põe o copo vazio no lava-louças, Solange paga e levanta-se. Ele encosta a cabeça ao armário, E aqui estou como que a digerir algo indigerível, um nada num estômago ulcerado, Havia de levantar-me e caminhar rumor adentro, uma cabeça rebolando por de negro ladeados caminhos e estradas e cidades e algum murmúrio chegar nunca e sempre ao lugar que finda o princípio, Um canto, Um riso, entrechocando-se, reflexo um do outro, bloqueando, O pensamento, A acção, Esta ferrugem nos dedos. António fecha a torneira e espera como se lágrimas se dissolvessem no silêncio e se acumulassem em nada, sufoco. O ar ardesse, Solange caminha pela avenida que fura a tarde acima como se rasgasse o tecido da noite. António põe o rolo na máquina, roda o manípulo, fecha a máquina, dispara, uma, duas, Solange caminha ao lado da noite cujo céu se apresenta limpo de nuvens ou estrelas ou lua, A máquina ao ombro, olha para as provas que boiam na água estagnada. Um sorriso aflora-lhe os lábios, É tempo de ir perguntar ao mundo onde estou e que farei, A porta fecha com um som seco postando António no escuro frente ao botão que pisca intermitente anunciando a vinda do elevador.

Solange prime o botão e sente a campainha tocar lá no terceiro andar, interrompendo os movimentos que lá se esboçam ou não, o sorriso e os gritos, o silêncio contido ou expandido, nervoso ou sereno. Um estalo mecânico abre o trinco da porta e ela entra. Provavelmente nada, apenas a sordidez habitual. Desde a mãe, escura, sobe as escadas tantas vezes subidas e descidas, empurra a porta encostada e desemboca na cozinha, Mário, já cheguei! Pousa as compras na mesa, os legumes espreitando curiosos para fora dos sacos, 'Tás sozinho, mano? António pára, fica uns minutos olhando a rua oca, os braços pendentes, um cigarro apagado entre os dedos. Ouvem-se os autocarros que giram perto da igreja, muito longe mesmo ali ao lado como uma despedida, Os olhos do meu irmão, sempre com a expressão nervosa de quem é apanhado em flagrante, pequeno e culpado de fraqueza, Que estavas a fazer? Nada, folheava umas revistas, Deixava passar o tempo, O crepúsculo tinge de encarnado o baixo céu no horizonte. António acende o cigarro, dá meia-volta e começa a andar, os passos ressoando contra as vivendas silenciosas. Desde que tenha trocado para meter na máquina das cervejas, nada de simbolismos ou sequer referências. Um túnel de imagens.