segunda-feira, janeiro 07, 2008

O céu

em memória e agradecimento,
Olímpio Ferreira

A noção de espaço no tempo e a de tempo no espaço, eis a ideia a adquirir, disse o Homem-Rio. Óptimo, respondi enchendo a chávena de chá, Vou-me embora, ao mesmo tempo que ele corre as ruas e está frio e os transeuntes lhe parecem distantes. E no mesmo espaço o Homem-Rio acendia o narguilé e fechava os olhos pronto a vogar nos limbos da sua matriz.

Uma folha na água, gotejando o silêncio. António sobe as escadas com o seu corpo de cinzas, carregando atrás de si a escuridão dum monótono vazio.

- Sr. Marques! ouve dentro do som duma porta abrindo, a porteira surgindo como bolor num queijo, o som do interruptor e a luz bafienta acendendo-se para a madeira velha das paredes.

António carrega no botão do elevador como se suspirasse.

- A reunião de inquilinos de hoje ficou marcada para amanhã, sr. Marques.

Olhei para cima, a janela acendeu-se e soprei, uma chama branca e tremeluzente, com inaudíveis explosões nervosas que despoletam danças. Parecia-me que este oceano era o mar dos afogamentos. A janela abriu-se, eles sorriam numa vazia partitura, no fumo azulado que invadia o ar da sala.

Uma folha na água, gotejando o silêncio. Ele bebe o gin-tónico e saboreia o cigarro. Todo o movimento que o rodeia é inacção, toda a cor mero tom; acabou de cortar os cordões umbilicais que o ligavam à mãe-terra e agora só existe o surdo eco do vazio ressoando no ventre do seu cérebro; é água, pedra morta inacabada. O Homem-Rio acendeu o narguilé que se apagara e desatou a rir. Contemplei o brilho dos meus próprios olhos e bebi um gole de chá. As cores brilhavam como sonhos por vir, um violento contraste de dinâmica serenidade.

Uma folha na água, gotejando o silêncio. Ela está deitada no sofá, respirando como se o ar lhe pertencesse ou fosse uma extensão do seu corpo felino. Descansa da sedução, vermelha, enquanto o momentâneo silêncio da hora do almoço lho permite. Logo, chegarão os outros e o escritório encher-se-á de corpos, solidões e jogos de equilíbrio. Respira, como um jogador de boxe preparando-se para o combate, a fera descansando após a caça. A superfície lisa do lago espelha-se até ao horizonte explodindo laranjas e encarnados sombrios.

Estava entupido de chá e fumo. Vim para a varanda, olhar para o deserto branco como a noite, e enchi a chávena com tequilla que me ardeu o pensamento. O sol no céu nocturno está hoje silenciosamente histérico, como um corpo imóvel de tensão acumulada.

- Grande é o deserto, disse o Homem-Rio, mas maior que o deserto é o pequeno oásis com a sua água e frescura. Solange sentou-se, ajeitou a saia e passou a mão pelo cabelo, e como que silenciou a respiração numa adaptação à situação que mudara com o som da porta de entrada abrindo, e fechando. Solange sorri aos passos que avançam corredor fora, aproximando-se, leves na alcatifa, os passos seguros do corpo que conhece o espaço onde se move por dentro, as paredes, portas e móveis. Solange levanta-se e acende um cigarro, os corpos quando seguros na psicologia do espaço podem eclodir à luz dos sentidos e atraírem-se numa força ilusória de vitalidade, sentimento, Então, Álvaro, foi bom o almoço? O corpo inseguro de Álvaro senta-se no sofá. É um engano, a luz esvai-se com a morte? Solange fixa os seus olhos em Álvaro e age-os brilhantes como punhais, sorrindo cruéis, sentindo no enrijecer dos seios o desejo surgir etéreo, imbuído duma vontade de subjugar aquele homem que parece esquecido no sofá, com o seu melífluo sorriso de falso sedutor, o onanista disfarçado, De te ter em mim pelos nervos, pelo sangue, pela mente. A tequilla escorria das veias para os sentidos com uma ferina alegria. O deserto olhava para mim num agarro de pânico, como um corredor branco a estilhaçar. Algo me pressionava a fronte e os meus olhos engoliam o céu encarnado que me feria como uma chama entrando líquida. Eu girava. Dum modo estranho, pois girava sem referência, sem centro de gravidade ou eixo de rotação, como se planasse num espaço de que os meus sentidos não recebessem sinal que eu reconhecesse e pudesse descodificar, espaço esse que se fundia com uma expansão explosiva no que me rodeava. Deixei cair a chávena para a rua e abri a boca num esgar de riso. Voltei-me, o Homem-Rio sorria-me como uma imagem fixa, envolto em fumo, distante. Estou-me a esvair, disse-lhe eu, Estás-te a transformar naquilo que vês, pareceu-me ouvi-lo dizer antes de tudo escurecer.

Solange senta-se no beiral da janela e aninha-se no sol que refulge contrastando com a sombria luz fluorescente em que Álvaro se encontra, O parvo do Simões, vê lá tu, é mesmo velha rés, até as borrachas de apagar lápis conta, o sacana do velho. Os outros vão chegando, a quente imobilidade da sedução dissolve-se lentamente no movimento sincopado do inútil trabalho. Solange fecha as cortinas abafando o sol, senta-se à secretária, A guia de marcha afinal é para onde? Álvaro ri, Para Sueste! Solange estremece, Não percebi, pareceu-me ter ouvido… Como se tirassem as flores do sonho duma criança, Álvaro, passa-me aí o corrector, O sol, Álvaro, o sol, Uma folha na água, gotejando o silêncio.

10 Comments:

Anonymous aquilária said...

excelente, vitor.
um rio de memórias, a propósito e a despropósito, corre em mim, ao sabor do teu texto.
abraço

9:18 da tarde  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Não fumes que vais para o Inferno... e cá debaixo já querem que o Demo lance impostos e salas para não fumadores!
A confiança ateia na virtude humana não cessa de me espantar - ou aparvalhar, já nem sei bem! :)

Abraço.

10:36 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Sabes, insular, às vezes penso numa proclamação: a beleza é a nossa casa, não aceitaremos outro lar.

Mesmo que não se defina bem do que falamos, que mais do que uma posse é uma instigação e um silêncio. Algo que nos guarda, impossivelmente incólumes.

Obrigado pela beleza que sempre trazes.

abraço forte

11:31 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Pois, Klatuu, como proclamei ;) na sussurrante ribeira: Mas o mais grave disto não é o factor específico do tabaco, mas o que se indicia antropologicamente pelo discurso que legitima tal. A redução tecnocrata de tudo à rentabilidade, mensurabilidade, eficiência, etc, num pseudo-cientismo que torna o acto de fumar um mero acto de sujar os pulmões. Da sua relação com a temporalidade, as palavras e música no ar, o fogo e o céu, nada. Significa para tal ponto de vista redutor, que aqueles que se embriagam de fumo, alcoóis e música num jazz bar o fazem por inconsciência ou estupidez. O humano como uma máquina bem oleada, é o que está por fundamento de tal discurso. E isto ainda mal começou.

Tem o seu quê de siderante, esta curiosa vitória do nazismo e quejandos. Orwell foi mais intensamente profético do que muitos pensavam há vinte anos, trinta anos… Digo isto mesmo sem alarmismos, é uma aferição de princípios de sentido. Pulido Valente chama-lhe fascismo, e o pobre saber ilustrado da maioria dos nossos comentadores públicos interpreta-o como um insulto de fumador a uma imposição de Estado, mas é bem mais profundo que isso: trata-se dum horizonte de sentido antropológico, duma metafísica e duma ética que ecoa toda a iconografia e ideologia fascista no que cabe aos modos de valoração do corpo e das relações sociais (radicalmente diferente, claro, noutros pontos).

No outro dia vi Cavaco Silva na televisão, aquando dum almoço cromo com enfermeiros ou médicos, penso eu. E para panegírico de tal grupo, diz o homem que a saúde dos cidadãos é um bem dos próprios e do Estado, e que este tem de velar por essa saúde quando os próprios não velam. Claro que é uma boca sócio-política de pós-almoço, mas o que é interessante é haver sentido para dizer isto publicamente sem escandâlo, o representante da República – o que , penso que há vinte anos era impensável.

Abraço, pá, vou fumar um johnplayerzito (eu que estava a pensar deixar de fumar, bolas, agora é uma questão de princípios ;)

11:51 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Nota de rodapão: para uma aferição mais alargada, ler os regulamentos europeus para a agricultura e restauração (ataque na base alimentar) e os da educação escolar, assim como o famoso tratado de Bolonha (ataque na base formativa). Na primeira, perceber o significado ímplicito, explícito e suas decorrências possíveis do uso da palavra “contaminação”; nos segundo, o mesmo para “resultados” e “precedências”. Outro indício interessante é a proliferação de relatórios: empregados sobre patrões e inversamente, alunos sobre professores e inversamente, clientes sobre empresas e inversamente, estatísticas e estudos de mercado etc A nova policialidade está dentro de nós, e se sempre se tendeu a tal, ao policiamento mútuo a partir de horizontes decretados por interesses gerais e específicos do corpo social, a eficácia e intensidade com que a sociedade ocidental conseguiu tal é avassaladora. E assim pode passar a imagem de que vivemos numa democracia, isto é, que os cidadãos podem decidir acerca do que é importante para as suas vidas – quando na verdade nem podem decidir acerca da comida que comem ou da educação que recebem oficialmente, nem acerca do ar que respiram ou do modo como devem organizar as suas actividades, etc

11:31 da manhã  
Blogger angeloochoa said...

Gostei de ler.
Ochoa
www.angeloochoa.net
ou,
melhor,
http://angeloochoa.net/pdf/historiasfuribundas.pdf
Tenho acompanhado seu blog que me parece ser um GRITO de vida, e, hoje, fartos que estamos de teorias, só viver vida vivida (do bom Cristo) conta.

5:30 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Olá, Ângelo

O pensamento, pois. Lá no fundo-mental, o que o empurra para a crispação teórica, é o susto e esplendor do corpo e da vida atravessada que ele próprio é. O troar sanguíneo do tempo.

Mas o grito do pensamento, tende a esquecer o que o move e alenta, toma-se imagem imóvel da vida. Toma-se por um deus suspenso e distante, auto-idolatra-se. O deus dos filósofos não, dizia o outro. Eu sou o deus dos vivos, lembrou-lhe a revelação no estertor matinal.

Lá no fundo-mental o teo-riso também :)

E nós, cristãos, verdade seja dita e tantas das nossas vezes – resistimos à estapafúrdia noção da incarnação (o bom Cristo;), da organicidade dos anjos, da ressurreição dos corpos. Queremos um deus de alminhas desencarnadas, pensamos nada ter que ver com veias, nervos, sexo, pensamo-nos acima de tal pairando. Enfim, nada de mais – apenas como qualquer um e nenhum na vida humana…

Ainda não li com atenção as suas histórias furibundas (estou cheio de trabalho até às unhas do pensamento;) Mas gostei da espreitadela que lhes dei.

Um abraço

1:07 da tarde  
Blogger angeloochoa said...

Vítor, olá,
o que me (nos) parece decisivo é não esquecermo-nos de que andamos cá em baixo e que é aqui que se decide o melhor para cada um de nós o deus nosso não é de modo nenhum desencarnável - está na história e agora e até a fim connosco - e na criação - como escrevia simone weil - a natureza é o doce sorriso do cristo para connosco e isto vive-se - a tempo inteiro - não precisaremos como ele disse de adorar a jerusalem mas em tododo o lado desde q em espírito e en verdade - isto e so isto quiz comentar antes dizendo por saber vivido q do cristo interessa o seu vivido em nossas vidas vividas o resto é sermonária pregação mais ou menos anesteziante de tranquilas melhor ensonadas consciencias.

5:41 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Sim.
Mas a palavra só é anesteziante e inane, quando desincarnada; a carne é sempre desperta, mesmo quando dorme ;)

(Por outro lado, a palavra que adormece um pode acordar outro, e até a que adormece num dia pode acordar o mesmo noutro dia.)

Não me refiro a conteúdos de crença e sentido. Que tenho eu com os nomes e signos vivos com que cada um orienta os seus passos na vida e na morte? Ter e não ter, contacto, comunhão – mistério. E o maior mistério, a bem dizer o único, o originário, consiste precisa e simplesmente – em estarmos aqui, algures. Mas isso, e era tal que eu estava a tentar indicar, é sempre – na carne; e o primeiro passo humano de fuga a tal, porque nos estonteia, dói e apaixona – é a retenção em palavras, ideias, conceitos, imgens, etc sem retorno ao estrondo da vida e da morte aqui. Tendemos, ou muitos de nós tendem, ou eu tendo – a construir um céu cujo horizonte não abraça a terra e o mar fecundando-os e por estes sendo fecundado, os anula, se substitui a eles assassinando ou sufocando a vida (ou, se preferir, menos à bruta, pronto, esquecendo-a e adormecendo-a ;)

Um abraço, e bom fim de semana

3:32 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店經紀,
酒店打工經紀,
制服酒店工作,
專業酒店經紀,
合法酒店經紀,
酒店暑假打工,
酒店寒假打工,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店工作,
酒店打工經紀,
制服酒店經紀,
專業酒店經紀,
合法酒店經紀,
酒店暑假打工,
酒店寒假打工,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店工作,
酒店打工經紀,
制服酒店經紀,
酒店經紀,

,酒店,

2:08 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home