segunda-feira, novembro 05, 2007

Igreja 3

Porque seria necessário ter quebrado o espelho ou fulminado de dentro para fora as imagens estáticas, ter aberto os poros do corpo e furado a janela, o sol de frente, do cristal para a luz.

Os gritos, irrompidos na brutalidade de uma esperança final, arrancando sedimentação a sedimentação a força até à sua última réstia, esvaziando todo o corpo da sua subtileza e vitalidade, todo o ser caindo então num mole afundar e fechando-se a medo quase morto na sua fraqueza, abrigado na estreiteza duma acção limitada ao espaço ocupado pela sua massa e nem mais, abrigado.



A cidade brilhante não ressoa como se escorresse na opalina escuridão. É um nevoeiro de cortiça que se percorre de vidro estilhaçado numa pele oleosa. São sempre os dedos que primeiro tocam o visco, luculentos e arremetidos, vilosos fogos que serpenteiam frios como esferas e forçam a caminhar, adormecidos e escondidos. Assim de morno exílio se eliminam distâncias num corredor sem direcção, todos de rosto anulado perante o centro de chegada donde se parte, os membros sem vidro em que se sintam. O ar estala de espessura nos corpos brancos que se arritmam de pensamento oval onde cada sensação resvala como relva num dedo cortado. Um choro na mudez de raiva dum cerco. O sol escuro luz na imaginação fria, é como se os limites do corredor não asfixiem e se calem, impresentes. Do gelo se ilude fogo, e do fogo luz. Há um oblíquo entendimento do percepcionado, uma anulação da dor numa esperança morta. Os passos determinam o ponto de chegada e este apaga os rastos. A linha recta torna-se insuspeitado labirinto. Nem grito, nem reflexo, nem imagem, apenas uma ténue e distorcida recordação que estropia a percepção, como um cego em delírio de imaginação visual. E sempre espesso o ar amarfanha a pele secando mais e mais o pensamento, como a sucção da doença num corpo velho, uma amoniacal respiração. A dança nos corpos é metronomia, tempo morto e forçado à forma – caminhamos num círculo sem subir espiral acima, afunilando a brilhante cidade que de lugar em lugar se eleva enquanto nos fechamos e sustemos na nossa pequena morte.

(Por vezes lembramo-nos, de que somos chamados a cair no fundo de nós próprios para o fulgor da vida, desabrigados.)

Porque seriam necessários arrepios de pressentimento, negação da realidade representada, impulso para os obscuros abismos do tempo – a estaticidade interna tornar-se-ia dinamismo e responderia ao movimento externo, o pensamento presente à acção futura, a destruição à construção substituinte. Porque é necessário abandonar a vida e a morte em nome do estremecimento, avançar para o desconhecido com a única vontade de desocultar e