segunda-feira, outubro 15, 2007

Ex nihilo, o início

encore pour toi, Emil, qui
te baignes dans l’ éternité,
dans le silence ou dans le
mutisme, seul dieu le dira
ou le rien definira

e para ti, Goldmundo,
do abismo donde brotam
as interrogações sem
resposta; elas são a
própria resposta, o
estertor


Aquele que intui, no fulgor de haver coisas, a sua criação, abre-se à presença brutal do instante, e o fugidio transfigura-se num eco da eternidade.

Não opera nenhuma dedução, e não é inerente que o faça. Deu por si imerso na insónia das coisas e de si, no tempo denso e opaco da distância. O mundo aí estava e ele nele. Era esse o facto total, em que se davam todas as operações, mentais e físicas, suas e de qualquer resto, e na estrita apreensão desse facto total do haver, nem sequer essas distinções se poderiam claramente enunciar. Ele estava colocado, por assim dizê-lo, antes de qualquer distinção ou operação. O seu modo é o estarrecimento.

Uma intensa incompreensão atravessa-o, aquela coisa do mundo aí e ele, ambos pulsando e movendo-se em si-próprios, estranhamente vivos e presentes. Que houvesse parte disso que ele conseguia intuir e representar-se, sentir e agir com e confusamente compreender, era certo; mas tal não lhe abria caminho para o vir a si da vida que aí está e o abarcava. O mundo e nós estamos aí, eis tudo, e o donde surgimos e brotamos, aparece como um abismo de mudez estridente.

Nada funda o haver coisas, era o que lhe trespassava a noite e os dias, crispados de uma brancura tal que os estarrece de vazio e indiferença. Era como se se estivesse a afogar no puro escoamento das coisas. As ruas que ele percorria, feroz e histericamente durante noites a fio, o quarto cerrado em que ele se enclausurava durante os dias, os odiosos dias habitados pela sociedade – nada disso lhe trazia uma mudança de lugar ou estado. A vida inteira movia-se e existia barulhenta e confusa, e ele quedava-se agrilhoado e perfurado pela imobilidade do todo. Era como se tivesse sido catapultado para fora das coisas e da vida, assistindo a isso e a si-próprio nisso, sem perceber muito bem a que porra assistia e que raio ali fazia ele.

Era como se se congelasse sem deixar de mover-se.

- Que se passa contigo? acabavam por perguntar-lhe quem com ele vivia, ou até alguns transeuntes do seu devastado quotidiano.

- Não sei muito bem, poderia ele responder. As coisas simplesmente… poderiam não ser. E nesse sentido, elas de algum modo não são. Não sei. Algo as tem que empurrar a ser. Não sei mesmo.

Ah, como gostaria ele de conseguir chorar, isso o calava e fechava no grito, a criança que depois de perder-se na floresta, perde a própria floresta, e caminhar pelas ruas a fio ou afundar-se na cama olhando o tecto – passa-se exactamente da mesma maneira. Já não era medo do escuro e dos lobos e da constante ameaça de estar vivo, o medo foca-se numa expectativa de risco e morte, dor e susto; não, agora era um terror sem nome, um espanto sem voz para lá de todos os medos, até agradeceria que os lobos lhe viessem dilacerar os nervos e uivar-lhe na alma. Por momentos rogou aos deuses da floresta, para que viessem com a sua escuridão, iluminar aquele vazio com a presença escondida dos seus medos e desejos, mas o que lhe sobrou nas mãos desse clamor, foi um pequeno e inofensivo, totalmente inactuante – escárnio de impotência, perante aquela gélida imobilidade que envolvia a vida, e a sufocava. Não que se tivessem esvanecido, esses mensageiros do sangue e da terra, da vegetação e das águas, mas sacudiam as suas forças numa distância que não parecia tocá-lo, agir nele. Eram apenas – coisas mais, disso aí.

Como dizer então, talvez a criança nele decidira suportar aquela crescente e asfixiante densidade dos dias e de si, o facto é que um murmúrio qualquer rumorejava nele, balbuciando fundo e secretamente, o seu coração e nervos discorriam num discurso com o nexo secreto das coisas que a boca jamais enunciará. Era, a bem dizer, do seu estado de vista e vida, o frágil e único eixo que o mantinha vivo.

- Não percebo como não desapareço instantaneamente no nada, era a sua maneira de dizer a coisa.

Dava-se-lhe esse rumor que o sustinha de vários e subtis modos. Por exemplo, na raiva que lhe provocou a morte dum primo afastado, uma criança de três meses que ele nem sequer vira vivo ou acompanhara a crescer no ventre da sua afastada prima, que ele aliás mal conhecia. Mas ali, no funeral, com o pastor monocordicamente dizendo que Jesus ressuscitara dos mortos, com os familiares e restantes, conhecidos e desconhecidos, tristemente vestidos de preto perante o pequeno caixão habitado pelo abismo, algo nele se rasgou, algo lhe fendeu o seu próprio grito multiplicando-o, e saltou súbito para a beira do caixão, numa raiva surda desfazia todos aqueles ramalhetes e coroas de flores que escandalosa e inutilmente afrontavam a injustificada morte daquela igualmente injustificada e pequena vida que soçobrara. Teve tempo para as desfazer todas, até que os presentes se desfizeram do seu porventura espanto e o agarraram afastando-o do pequeno caixão. O pastor aproximou-se, evidentemente, era um pungente e trágico grito que presenciava, uma terrível e indizível dor perante o incompreensível da existência, mas ainda nem lhe tocara ou uma palavra dissera que ele rosnou com a ferocidade dum assassínio: E tu, funcionáriozeco da ressurreição, porque caralho então não abres o caixão e o fazes reviver, fraudulento da merda.

Sacudira-se e fugira do funeral, sabe-se lá o que fizera. O facto é que era o próprio abismo que o interrogava, digamos assim, o interpelava agarrando-o pelo pescoço e apertando, encurralando-o nos fundos e fins de si-próprio, e como que sem lhe dar escapatória alguma inquirindo-o: E tu, o que tens para dizer-me que na voragem não desapareça?

E ele fechava os olhos, aguentava-se, sem se dar bem conta de tal era o pequeno rumor que o fazia sentir que não havia de esvanecer-se ali sem dar luta, mesmo na quase certeza do seu próprio fracasso era digamos talvez a criança no rumor dizendo-lhe Aguenta, aguenta, tenho a certeza que há qualquer coisa, era a criança crescendo com os mortos e os vivos, com o balbucio de si e a própria dor do abismo.

Por outras, à medida que a criança secretamente crescia no seu coração, eram uns breves fulgores totalmente inexplicáveis, uma pequena e tenaz paz e sossego com que por vezes dava por si olhando uma pequena flor brotando entre as pedras da calçada, ou a informe mancha de café na toalha da mesa, a brancura do papel amarrotado e a sua textura entre os seus dedos, os odores das coisas, o vento que arrasta uma folha no Outono. Era como se o que o sufocava e tolhia por inteiro, subitamente e sem mudar de conteúdo, se invertesse e o acolhesse numa estranha beleza de pura presença. Tentava evidentemente agarrar esses momentos, mas eles fugiam do mesmo modo como tinham vindo, isto é, sem mais.

E no bordel, à noite, acabara por vir a conhecer todos os da cidade, não entrava nos bares e clubes de dança que a noite proporcionava, mas nos bordeis sim, aqueles recantos limite com os seus prazeres melancólicos e maldades desesperadas, toda a desonestidade e mentira dos homens esparramando-se ali aos pés das putas, vindo morrer aos seus pés mesmo quando eles lhes batiam e se pensavam mais fortes. Não que o rumor o despertasse na força com que por vezes fodia com uma ou várias num galope gritado que o fazia esquecer-se por breves instantes de si e de tudo, afinal os deuses do esperma e do ventre são da natureza dos do sangue e da terra e da húmida vegetação; nem quando passava a noite sentado no sofá da sala de entrada, fumando os seus cigarros sem nada dizer nem fixar do corropio de gente e ninguém que ali se alternavam noite dentro. Não. Mas por vezes um ou outro gesto ou olhar de alguém, puta ou cliente, um chá oferecido sem nada dizer e a lua refulgindo na janela, um desconhecido estrangeiro contando-lhe a estória da sua vida que ele nem ouvia, mas ressentia no puro acto do outro contar-se, a mútua presença de ambos nesse abismo afinal da vida. Era estranho então o sorriso que lhe assomava aos lábios, estranho como um extenuo revitalizante, um deixar-se estar e essa quietude estranhamente chicotear o abismo e fazê-lo estremecer num pequeno ribombar.

O rosto dela, foi sobretudo isso, a criança crescia e já quase falava. Ter-se-iam apertado e sacudido ou não nos amplexos do sexo, sabe-se lá, talvez apenas estado um com o outro fumando cigarros e bebendo vodka, o facto é que a madrugada apanhou-os abraçados, respirando-se sem precisar de falar, os pássaros começavam a cantar lá fora, os motores dos carros e as vozes das pessoas elevavam-se chegando ao quarto numa melopeia confusa. Ela olhou para ele e sorriu, simplesmente. Ele passou-lhe a mão pelo cabelo, afagando-lhe o rosto, e foi totalmente invadido pela presença dela, e o rumor tomou sentido, veementemente tomou sentido, tão simples como o sorriso dela, tão simples como a sua futura morte, tão só: eis-me, eu sou.

Saiu do bordel e entrou na manhã agitada da cidade. Olhava tudo em seu redor, estava subitamente envolvido de tudo em seu redor, as coisas eram e giravam e o murmúrio tornara-se esplendor.

12 Comments:

Blogger Goldmundo said...

Ora, tantas coisas...

Sabes, nunca tinha visto isto escrito, por assim dizer, na terceira pessoa.

E ligo isto à conversa do outro dia: o deus do deserto apaga as coisas com a sua presença insustentável. Como também os demónios, que são eles todos o deserto-de-dentro.

Talvez tudo isto possa ser dito ao modo glaciar do Borges, ou ao modo vulcânico do alto poema: seria sempre como ouvir uma música, porque toda a música é afinal isto mesmo. Dito assim, saberás como demora.

3:11 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Curioso dizeres isso. Tenho-me dedicado à terceira pessoa, ou melhor, ela é que se tem dedicado a mim, invadindo-me expressões que partem da primeira.

A infinda paciência, claro. Esperar a palavra no não-dito, o acto no não-ser.

PS: Borges é um caso raríssimo. Para além da terceira pessoa, em que ele é mestre, tem o estranho condão de se passear por lugares terríveis com o tom de quem faz despreocupadas deambulações no jardim de sua casa.

11:39 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

PS 2: Emil dizia que conseguia refutar todos os argumentos da existência de Deus, mas que tudo isso soçobrava, provas e refutações, perante... a música de Bach ;)

11:44 da manhã  
Blogger Goldmundo said...

Oh deus, perante ti bach'eiam a certeza e a dúvida ;)

1:11 da tarde  
Blogger Goldmundo said...

Esqueci-me de dizer que além do Borges e do vulcão também os manuais de psiquiatria falam disto. Suponho, enfim.

Não sei já se foi a ti que citei, uma vez na Ribeira, uma frase de um historiador português, pouco conhecido e já idoso, que nunca esqueci: "os homens vão embora e as coisas choram". Falava do túmulo de um príncipe de quem sabemos tudo menos o essencial.

1:17 da tarde  
Blogger sophiarui said...

abracinho bom aos dois!

:)

10:59 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Ah, bach'eiam, claríssimo. Estaq butade da música é fundamental, não se trata duma piada sem fundo – ela remete para o verbo divino. Trata-se de intuir a radical distinção entre o nosso modo de acesso ao que há – e os modos da palavra divina, criadora, que doa ser; a intuição da criação depõe-nos nesta silenciadora intuição, e por isso, ao contrário do que possa parecer mais ou menos incautamente – é que há música. Que o dizer que empurra as coisas a ser não é categorial, representativo, mediado (as coisas, nós, é que o somos). Que a palavra divina não é originariamente conceptual nem representativa, mas viva, ou se preferirmos não o é como a nossa – conceitos vivos, representações concretas, palavras de fogo. O seu símile de acção centra-se mais em tensões, contrapontos, fugas, harmonias, dissonâncias, do que em estruturas fixas e imóveis num ecrã da representação (o deus dos filósofos, aborrecia-se o amigo Pascal;) isto é, do nosso ponto de vida, entre outras coisas mas para o nosso caso – o pathos musical. Nietzsche, esse furioso ontológico: “Se há um deus criador, ele é musical!” – revitalizando a noção antiga e geometrizada da música das esferas). É assim que a música nos move de modo essencial, espiritual, e não apenas mecanicamente, nem apenas dedutivamente. A música é o ser sem mediação, a pequena palavra directa, a nostalgia daquilo que alguns teólogos chamam a linguagem adâmica (ou evânica, acrescento eu;) Os nomes directamente adequados à verdade e realidade – do que há.

Mas claro, não fazemos assim grande clareza do que se passa aqui. Quero dizer, pelo menos eu e todos os que estão quiçá por ora e apenas – debaixo do vulcão ;)

Psiquiatria, é? Conheço pouco desta literatura, se exceptuarmos aquilo que acompanha a psicanálise... Mas sim, é muito provável. Reich e Jung, por exemplo, têm uma noção de intuição do todo, e de que estamos dissonantes, que ecoa aqui. Agora essa frase do historiador, que maravilha! Sempre que alguém morre, há um nome singularizado de cada coisa que se esvai, desaparece, e elas gritam. Cantarão, também, musicarão... Magnífico! Lembras-te do nome dele, porventura?...

Abraço, maister, e que a música das esferas invada o teu fim de semana!

1:57 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

olha, olha, uma poetiza do eco secreto e silencioso disto mesmo ;)

anjos trazes, mana sophia

abrasímile! :)

2:01 da tarde  
Anonymous Malaka channel said...

A terceira pessoa e o Wagner criaram um anel.Depois veio o Holandes voador, entao surge-me o ruido de helicopetros a voar ou valquirias ou debaixo do vulcao mexicano a jorrar tequilla ao mesmo tempo que pensa no Jung e que nos poe numa biblioteca borgeana, sempre em terceira a fundo que nos leva ao oceano, que som este do oceano.
Sera que o bach alguma vez viu o oceano? ocorreu-me de repente.
O som do deserto, ou o silencio depois da bomba.
Que maravilha esta coisa da musica.
Abreijinhos

1:45 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Abachalipse now!

Talvez tenha contemplado o mar báltico, mas não se tem a certeza…

Abreijinhão, malaka

2:44 da tarde  
Blogger Goldmundo said...

ahahahahahaha :)

abraço, vitor...

12:19 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

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2:06 da tarde  

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