segunda-feira, junho 11, 2007

O sol, do outro lado

Um tom esfumado de cicatriz na carne da memória, os fatos sufocantes em que a mamã te enfiava como que para te significar que a existência é um peso nas costas, um pouco-à-vontade nos membros, o céu, mana, rasgaste-me os calções, rasgar-te-ia todo, pequeno, desvendar-te-ia brechas e brechas e brechas enquanto corríamos nos campos e nos bosques junto à aldeia da avó e a mamã não existia, desaparecera como uma nuvem no céu encarnado, esse céu, tenho sede parecia ter dito, tenho sede, que venha o azul da tarde e eu já aqui não esteja, a avó reagiu com a sua habitual placidez de planta, contrastando com o nervosismo agitado do papá na sua mudez de estátua móvel que o seu corpo seco como um cepo sempre me revelou, que quando me tocava sentia um arrepio de repulsa no corpo atar-me toda, até os meus pelos se eriçavam e meus lábios tremiam quando me beijava e afagava na sua presença sem palavras que se derretia no algodão dos dias, Vou-me embora gritavam os olhos da mamã rebentando desanuviados, as lágrimas correndo-lhe pela face, Para onde não me reconheçam. O olhar da mamã, sabes, sempre foi pestilento, carregado das cinzas que a sua atitude reprovadora em relação à vida desde há muito tempo forçara a acumular, pesando-lhe num mal-estar, numa irritação permanente, lembras-te como ela nos batia à toa sem sentido pedagógico nenhum, ao sabor dos seus caprichos e estados de espírito ou como tratava o papá rebaixando-o ao nível de escravo na intimidade, isto é, entre ti, mim, o papá e ela, contendo tudo numa tensão mal um estranho entrasse na zona, sorrindo e fingindo, e o ar tornava-se eléctrico e pesado, fumegando nos seus olhos, na sua recusa a todo o movimento de inserção do corpo no mundo, de respiração, uma ferida pulverosa infectada pela contenção e pelo medo refulgia nos seus olhos e aterrava-me. Tu olhavas para o chão como se tentasses desaparecer, sentado na cadeira, as pernas suspensas imóveis e o cabelo escuro comprido caído para a fente, as tuas mãos pendentes revelando um desamparo que me enlanguescia de ternura e posse, E é de crer que essa repulsa que amarrava a mamã ao leito doentio donde negava a vida tenha atingido o seu limite, transcendendo-se por dentro, talvez assim uma vontade explodindo como contraponto, uma sede de imediato como se tudo fosse novo e pronto a conhecer, pois a sombra que sufocava seus olhos tinha ido, seus olhos molhados de lágrimas olhavam para mim e eu reconheci-a, ou seja, vi-me a mim própria nela, e ela decerto percebeu que eu compreendia, pois dirigiu-se a mim e abraçou-me como se nunca mais me fosse ver ou me visse talvez pela primeira vez como eu a ela desvendada, a tua cantiga de menino abandonado sussurrava-se na minha aprovação, e o papá fazia exactamente a tua cena, de abandono e desencontro. Sabes, vejo agora como reconheci a mamã nesse momento, como a vi mulher reflectindo nos meus olhos a minha própria feminilidade, e soube então sem ter consciência como os homens são, como tu, como o papá, sempre crianças abandonadas, bebés cheios de medo que se escondem por trás de máscaras, guiando-se por símbolos separados a que chamam verdades, Sei que nesse momento então nasceram os sinais flamejantes que guiam a minha dor, esta fome, A mentira é o lado perigoso da verdade.

O sopro encarnado que anima o impossível, a nuvem no céu, A avó nada dizendo, apenas um ténue brilho para quem quisesse olhar de fundo para os seus pequenos olhos cansados desejosos de se fecharem, libertando-a de olhar, de sentir, de viver, A porta bateu na cara do papá que expandia o seu desesperado e desajeitado personagem pela casa fora em grito e em soluços escondidos, então olhei para ti e assustei-me, pois me olhavas e reconheci nos teus olhos a sombra terrível da culpa, como se a da frustração da mamã tivesse passado para ti no momento em que ela se libertou, assim um contágio psicológico, um exercício natural de equilíbrio, o mesmo olhar ácido e torturado brilhava na tua expressão assustada, toda eu tremia ao abraçar-te, como se estivesse a dar as boas vindas a um demónio que se houvesse ausentado e tivesse voltado e nada mudasse nunca nada de nada a não ser talvez quando algo cresce em nós a tal ponto que nos transformamos de súbito e de verdade, como a mamã, cujo cadáver se alojou nos teus olhos, como eu tremia e aos poucos deixei de tremer, o teu corpo inseguro encaixando-se no meu em busca de calor e conforto, está tudo bem, maninho, está tudo bem, ficou tudo metade em mim metade em ti, nunca nada de nada, mano, Esboçaremos o gesto, A avó pegou em nós e levou-nos para a cozinha, o papá embebedava-se na sala, ouvíamos os copos tinir, objectos cairem, portas bater, a avó descascava legumes, cenouras, alhos, beterrabas, nabos, e sorria para nós, eu sorri-lhe e abracei-a, sentia-me feliz ou melhor contente, tu não sorrias, procuravas um refúgio porque te sentias perdido, estavas ansioso por aninhar-te no líquido da fêmea, e então a tua boca abria-se para mim e para a avó exactamente como nos nossos gritos quando ainda mais pequenos queimávamos baratas no solo cinzento de cimento na garagem e as ouvíamos crepitar num prazer angustiante de medo e culpa, quero eu dizer consciência de estarmos a fazer algo que o papá e a mamã ou seja o mundo e nós nele, não aprovavam.

Uma relação plana com as coisas, masculina.

E o papá, felizmente que incapaz de pegar o touro pelos cornos deixou-nos por sua vez entregues à placidez da avó, indo tentar a sua sorte de inactiva desinserção para algum lugar que é sempre o mesmo, palco de projecção do seu modo de ser desenhando um destino mecânico como um relógio, lugar que agora os teus olhos projectam em mim, inseguros, o teu corpo pequeno como sempre que me seguiu quando vim para a cidade, o signo submissivo que subjuga o presente ao passado e ao futuro e obriga a noite a separar-se do dia.

- ‘Tás com a cabeça cheia de vidro, mano, digo atirando-te com água, e tu sorris pesado e encolhes os ombros, ou seja, os de todos os supliciados que te habitam há centenas de anos, cada vez que te moves o teu cérebro sangra cortado pelo vidro e a dor queda-te na imobilidade, - ‘Tou é com a cabeça cheia de estudo, dizes sorrindo então, e eu repito – Vidro, e tu ris, - Amanhã depois do exame irei buscar a minha irmãzinha ao emprego e levá-la a almoçar, ris como se dentes crescessem em mim, ou lamentos. E reparo como desde o dia em que a mamã partiu, nunca mais nos sentimos à vontade um com o outro.

18 Comments:

Blogger Klatuu o embuçado said...

Que belo texto, pá!
Meu cristão! :)=

Abraço.

5:37 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Oh Caro Klatuu, não tenho a mínima dúvida de que há uma peste espiritual, e que contamina em lugares e modos onde porventura menos se a declare (como qualquer peste que se preze;) Abraço

11:11 da manhã  
Blogger João Moutinho said...

Bom dia,
Vitor Mácula.
O que vale é que a espiritualidade é nos inerente, quer quiramos quer não.

9:35 da manhã  
Blogger MC said...

bom, belos retratos, mano. fortes e bons.

beijos

12:53 da tarde  
Blogger MC said...

...e mais não digo... ;)

12:53 da tarde  
Blogger linfoma_a-escrota said...

fodasse ya tá memo bom, apetece-me convidar-te para o

www.motoratasdemarte.blogspot.com

para nos iluminares com teu espirito branco e belo, deus perdoa os nossos defeitos? nao vives nos suburbios ou vives? claro que todos os serial-rappers do brasil acreditam nesse vosso deus cristão piamente, sabe bem a muleta e não as tantas varias que andam por ahy, desde esoterismo da psicomagia, o livro dos mortos egipcios ou a mera, e alegre, ninfomania compulsiva para afastar a esquizofrenia contemporanea em jet-lag de altruismo, eu curto certas pessoas que vão buscar sua energia a esse livro biblico que muito mais sangue que flores plantou ao longo dos séculos e mantêm o sorriso pateta na cara todo o santo dia apesar de tarem corroidos por dentro, é budismo nitidamente, tudo utopia do mesmo canto, só coisas práticas é andam em desuso, mal interpretado foi o panfleto pois claro, ainda hoje uma instituição a abolir, sem duvida que é, sempre um assunto muito caro para mim (igrejas e pobreza, será elitismo a passiva contradição), caso eu consiga considerar algo sem ser de graça once in my deathtime que não ao meu ego, anyways congratulations, your a fantastic human being, só espero que te defendas se te tentarem esfaquear, this is necessary, life feeds on life feeds on life feeds on life feeds on e nós nunca fomos importantes para nada...

quem me dera ser como tu no entanto, apesar de também ser praticamente incapaz de me ofender por ter um tal-ego totalmente sado-masoquista, mas é algo que nunca mudarei, foi deus, e se sibilasses aposto que contaria uma quantidade de depravidades infantis bastante recentes actually, quiça as velas a cinquenta cêntimos são uteis a muita gente, nao sei, a quantidade de maniaco-depressivos momentâneos è geral e o esperma terá de correr e 28 dias depois a dúvida será oficializada em mais amor, paz, unidade e respeito, que engraçadas e raras palavras vindouras das minhas unhas intrincadas em merda :)

2:03 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Bom dia, João.

Pois. Para o sim e para o não ;)

Abraço

1:22 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Beijos, mana, bons e belos :)

1:22 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Cara Linfoma

Jasmim raparigo genital espreitava seus fantasmas na vida que se imagina compreender nem tal nem isso aprisonava-se em si imaginando-se dialogal nem se apercebia tanto véu espelho que nem antevia sequer réstia nem resma do outro contente vivendo entre retratos robots que a ele o reflectiam e fechavam entre ruas e rostos. Curiosamente todos tantos e poucos viam-no falando com suas imaturas fantasmagorias pensando que o outro tocava ou a vida abraçava e não se conseguia perceber se jasmim ele próprio o fazia conscientemente ou se era ele mesmo robot das suas próprias robotizações.

Há de um dia a vida partir-lhe os espelhos que o cegam e isolam, quanto mais não seja no ultímissimo momento. Ou não.

1:24 da tarde  
Blogger linfoma_a-escrota said...

merda, o diluvio divino arrancou-me a texto apenas escrito, reformulemos, ponto um: acertaste em cheio, atè fikei arrepiada de ler o teu texto tanto que me identifikei, è verdade, vivo uma vida de ilusoes, imaginando que contenhu em mim toda a verdade pessoal e profunda e prego-a a toda a gente sem seker me olhar ao espelho para ver que o jasmim de criança se desvanece em rituais roboticos, onde nos gladiamos entre todos, sò para chamar a atençao ao desespero, apenas espectros em espiral sò comunicàveis com o meu silencio, quando estou sozinha e me masturbo freneticamente contra a màquina de cafè, è poder ver algumas caras ainda enrugarem-se devido a minha imaturidade naife ainda hoje bastante activa, e entao? parece que tens algum problema com isso?
se pensas que me conheces por uns textècos engana-te rapaz, tàs completamente passado, jà hà muito tempo deixei de escrever o que sinto porque sentir demais tambèm cega, isola e aprisiona, tal como os elogios e todas as outras drogas "naturais" afins, anyways, obrigado pela arrogancia moralizadora que estava à espera, convidar-te-ei na mesma para descreveres com linguagem disparatada teus fetiches, a nao ser que jà os ponhas em pràtica em seja là que clubes swinger para rapazes-de-catequese frequentes, nao conheço os vossos meios mas decerto existirao, o pecado nao pode ser so teorizado e nunca me apeteceu escrever sobre "a beleza da vida" jà tantos o fizeram melhor e o meu coraçao è negro como a minha negaçao ou seja là qual for o fantasma que me ocupe hoje o espirito, sao os novos tempos meu filho, somos os bastardos da tecnologia pos-contemporanea onde tudo è virtual, quero a carne de volta, adorava irritar-te tanto atè me deixares em sangue, mas suponho que nunca o farias para nao descer tao baixo, com o Klatuu sussurando: "ela nao vale a pena, està em fase de aceitaçao a puta" (como so ele tao bem se sabe exprimir!)

obrigado por tudo meu filho (depositando placidamente a palma da mao sobre o ombro do doente, tudo é positivo, ainda estàs a tempo de ver a luz, lembra-te que te amo, arranja alguma forma de tomares lsd entre amigos e veràs tudo o que escreves literalizar-se à tua frente, veràs a verdade e todo o verdadeiro poder que contèns dentro dos dogmas que assimilaste e propagas...

p.s. o texto "se eu fosse" està dos melhores, parabèns, poeticamente tens imensa piada :)

4:58 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Fosga-se, ó Linfoma, só sabes jogar à defesa?... É que isto assim é uma seca… Eu nem pretendo conhecer os teus textos, quanto mais… Apenas um poema que há uns tempos deixaste aqui num comentário, e que eu até achei piada e to disse.

Reduzires o raparigo Jasmim a uma suposta mensagem directa acerca de ti também é curioso…

Afinal de contas e juízos, há alguma coisa que queiras dizer?

5:46 da tarde  
Blogger O Fomoire said...

muito bom shô mácula!!!olha pra mim a espiritualidade sabe a ectoplasma fora de praso!
cheira mal... sabe mal...
mas como na mesma!

2:13 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Fomoire

O ectoplasma é um equívoco do entendimento monocelular dalguns que estudaram mal as amibas e a noção de cadeia evolutiva; afecta também algum entendimento do orgone, assim como do conceito de alma.

Há dicotomias que sempre estiveram fora do prazo. À frente do ínfimo e do infindo, do eros e do thanatos – está o fio do funâmbulo.

3:31 da tarde  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Não me leves a mal... mas linfomas e companhia... só mesmo PRÓ CARALHO!!

Abraço.
P. S. Devem estar nalgum processo de conversão... até nos dedicam posts!:)

1:29 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Ou de confusão processada… Mas sim, de qualquer lugar onde se esteja, basta um passo em frente e Deus vem ao caminho (e que seja um passo por cima do abismo, enfim, é apenas um detalhe :)

E quanto a levar a mal, caro Klatuu, com ou sem caralhadas, neste botequim és um gentleman da casa . Podes até ficar a dever no bar ou na biblioteca :)

12:03 da tarde  
Blogger Lord of Erewhon said...

Obrigado, Vitor, mas essa gente não só me tira a sede como o apetite!!
Não consigo ser democrático nem sentir um pingo de bondade ou tolerância com megalómanos políticos, pornófilos neuróticos e pseudo-intelectuais vaidosos que não passam de vermina mesquinha e socialmente inútil!

Não devo ser cristão... :)
Abraço!

10:51 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Eh carago, o caso é mesmo grave, para logo a seguir ao carrasco real vir o bispo… :)

Meu caro, limito-me a responder aqui nos comentários a quem vier… Até porque os comentários não se reduzem na sua expressão a uma estrita resposta ao comentador (ou melhor, nem sempre, e em certos casos de menoridade dialogal e reflexiva, nem isso).

E quanto ao Motoratas, nem conheço bem. Fui lá espreitar da outra imbecil vez, e agora desta, mas não me detive muito. Eu não blogo assim tanto, e só paro em blogues que me interessam. Lembro-me também dum post do carrasco real que para lá remetia, mas nem me dei ao trabalho de lá ir.

Cada qual se alimente do que o faz crescer, digamos assim.

Abraço, pá!

5:32 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

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2:04 da tarde  

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