segunda-feira, abril 09, 2007

O halo, por trás dos prédios

Para Dennis McShade

Era uma porta de madeira e abriu-se, eles desciam a escada, mão na mão, o cigarro apagara-se-me nos lábios, alguém olhava a chuva através da janela; a festa era mesmo uma merda do caralho.

O portão fechou-se, eles caminhavam pelo passeio, rentes ao muro, eu lembrava-me do vice-cônsul virando-se e sorrindo.

Melancholia, os lábios. Sim, lembro-me ter pensado, Os cavalos assustam-se ao aproximarem-se da fogueira, e relincham. Agora chovia também e Nahabi crispava as mãos no volante numa subtil tensão. Eles aproximavam-se. Nahabi destravou o carro e deslizámos. O sono do mundo era agitado.

- Merda, Nahabi, é ela?

- Claro. Ele é doido como todos.

Sleeping assim saímos, como um bar perto dum beco, um animal enraivecido, trata-me da saúde. O vice-cônsul tinha uma barbicha pontiaguda que parecia mover-se nervosa. Os seus olhos pequenos fixaram-nos com as suas pupilas negras como se nos espreitassem. Cheirava a água tépida, um cigarro molhado em azeite. Causava asco.

O outro surgiu como que do nada, surgiu assim, sacudia-se todo, como se os músculos lhe funcionassem em sacões nervosos. Fremia-lhe uma agitação na pinha, via-se bem, e com o gancho de talho que tinha na mão não era nada boa combinação. A miúda tirou o véu e pôs-se a olhar para ele com uma expressão de indiferença. O vice-cônsul deu dois passos para trás e encostou-se ao muro, calmo e morno, como se sorrisse e sorvesse um gole de licor.

Naifa eu não tinha. Rezei na certeza que Nahabi teria uma e dirigi-me ao frenético. Ele investiu logo, como uma máquina numa reacção imediata. Atirei-me para trás e embati no carro. Rodei sobre mim, tinha de mover-me rápido até readquirir posição em que pudesse olhá-lo. Estatelou-se contra o carro, atirei-me para a frente, tropecei e caí, Merda, pensei, o gajo tem uma convicção de tarado, de completo obcecado, continuei a rolar, saltei, e da sua imagem na minha retina ao pontapé pelas costas foi um ápice de receio, um instante imperceptível. O gajo abateu-se no chão, mas de imediato se pôs em pé com a mesma agitação. (Foda-se, aquele fanático ia dar cabo de mim, era desta, merda de sonho, mas a morte surgindo à nossa frente, mesmo que apenas na falaciosa intuição do instinto e do hábito, pois ainda assim previsível e provável como o rodar de um volante, porra, sabem, barrando-nos a passagem, que o medo na imaginação a torna facto, é assim um medo violento mas em mesmo lugar alegre, como uma excitação, porque nos apercebemos que nunca foi morte o que tocámos mas apenas concepção projectada, reflexo de si, e que é algo que não conhecemos de forma alguma, em tempo nenhum, estão a ver, tem o mesmo espanto que uma revelação, que algo que nos transforme completamente. É uma percepção muito rápida, um balançar num abismo, um instante de respiração cortada e tortura em que a escolha entre cair ou não parece estar fora da nossa vontade e controlo, é outra coisa, como o reino do acaso.) Atirei-me para trás e gritei, o gajo já estava de costas, era o milagre da reza a acoplar-se à minha decisão fora de mim, Salam alaikum, disse Nahabi, e espetou-lhe a navalha nos costados. O bruto caiu devagar e aos sacões de soluços como um animal chicoteado. A miúda tapou a cara com o véu. Deen die Todten reiten schnell, disse o vice-cônsul, os cavalos relinchavam que nem doidos, a fogueira acalmava-se assustadoramente.

Respirei fundo. Estava completamente estonteado, os dedos dos pés e das mãos dolorosamente crispados. Sentia-me frio, como um pedaço de metal, a mente atirada ao chão como um fruto à parede.

Pessoas apareciam das janelas e portas, enfim, acabávamos por conseguir conversas bastante comunicativas, o cabrão do vice-cônsul podia apontar-nos uma pistola e gritava Lupo! Lupo! Lupo!, metemo-nos no carro, o chiar dos pneus, a chapa batendo, as chamas e eu pensei Merda, estes gajos falam demais, nós. Era o que dava as ideias à toa no feeling, por mim tra-la-ia já connosco, a sua mão parecia necessitar da minha, mas Nahabi recusou-se e basámos dali enquanto a multidão se aproximava, a ressaca acabava como sempre começara, a pausa, corríamos pelo sol enlouquecido e as janelas dos prédios abriam-se e fechavam-se estalando à nossa passagem, corriam à nossa volta, uma confusão de gritos e passos, já não podia mais, estava a rebentar, Nahabi, que se foda, vou parar, porra, é como se caísse em passos largos contra uma parede, escorrego até ao chão, é a cabeça a rolar completamente perdida, tonta, o chão molhado, o coração como um martelo batendo.

Estávamos sós.

A rua era escura. Os poucos candeeiros que ainda alumiavam mostravam portas e janelas fechadas com ar de abandono. Havia um silêncio que parecia esmagar-me de encontro ao solo ou era uma discrasia total, no corpo destrambelhado, exagero. Nahabi sentara-se a meu lado suspirando como se morresse, a pouco e pouco focavam-se os olhos, a consciência voltava ao pensamento, redefinindo a pouco e pouco o espaço, nem dei importância, era mais uma chaladice, mas às tantas enquanto me recompunha e já estava melhor aquela imagem rebentou-me nos nervos, pois era a miúda que eu via olhando-nos, era ela, estava sentada no umbral duma porta e quedava-se num estatismo que a mim parecia extático. Desta vez é que estalara tudo.

Estávamos sós e ela olhava-nos. Cada vez percebia menos as desembocaduras da realidade. Afinal, tínhamos ido ao suk comprar café, entretive-me numa conversa de olhar com uma mulher que tinha uma pistola na mão e ma apontava. Há três dias que era tudo um sonho, já percebera. Sorria como o mundo a nascer.

Nahabi aproximou-se da miúda e ajoelhou-se à sua frente. Ela rodeou-lhe o pescoço com os braços e fechou os olhos. Era um belo modo de não questionar o acaso.

- Vamos embora, disse eu já recomposto do medo, urgia agora encontrar um sítio para descansar, um espaço qualquer que se fechasse e nos permitisse parar.

Metemo-nos à estrada. Era já noite cerrada e a criança adormecera.

20 Comments:

Anonymous Anónimo said...

um pouco mais de elevação na linguagem não fazia mal.

9:07 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro anónimo

Pré-scriptum : aaaaaaaaaaah, sabe, a elevação cristã inclui a descida ao inferno, a que entre outras coisas naturais e sobrenaturais, corresponde a revelação e tomada de consciência de todas as nossas condições e possibilidades de existência. É a partir da realidade integral do ser humano que nos transfiguramos, e não do retiro imaginário para ideias elevadas que não suam nem desesperam. Nesse sentido, antes um mal real, que um bem alienante. O primeiro, pode transfigurar-se em Deus ; o segundo, não tem transfiguração senão imaginária : a projecção de si numa representação imaculada sem merda nem esperma, sem ódio nem raiva, sem medo nem confusão, etc A verdade que liberta, inclui a verdade de si. Ou se preferir, assumir-se como pecador não pode ser apenas de boca : trata e instiga a uma tomada de consciência, e um vir à tona e à expressão – a realidade da nossa finitude que se falha por tensão inata de quebrar os seus limites (e o problema é que nos tomamos por aquilo de que somos apenas imagem e reflexo).

Scriptum : Possa a minha pequena voz nunca trair por recate ou pudor, a verdade poética que cada personagem grita ou canta, da pornografia ao sublime. Aqui trata-se do plano não existencial que é a experimentação poética : expressão das possibilidades sem retenção, o que logo por si só implica uma suspensão da moralidade. A possibilidade (seja um assassínio ou um surto psicótico) quer-se levada ao seu limite sem retenção nenhuma. O que, atente-se e dada precisamente a suspensão moral, também não indicia aprovação moral da possibilidade, como é evidente.

Pós-scriptum : "Vaidade, é tudo vaidade. Vaidade e medo da morte." + "Verdade, é tudo verdade. Verdade e medo da vida" = "Veneno, é tudo veneno. Veneno e medo de si."

12:35 da tarde  
Blogger MC said...

mano,

isto é como as ostras - umas produzem pérolas, outras apenas esfregam a pedra.

Tu, não desperdices as pérolas...

um beijinho doce

4:10 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Olá, mana.

Conchas, pedras, pedacinhos de osso… e admito que uma das minhas palavras de eleição é precisamente “desperdício”. Tal como o fracasso é uma das melhores lições que a vida proporciona, o desperdício é uma das suas melhores expressões. Aliás, que desperdício a Criação inteira, já que Deus se basta infinitamente a Si próprio… ;)

Mas noutro sentido, claro que não quero desperdiçar nem desperdiçar-me.

O comentário anónimo levanta pertinentes questões acerca da estética e da ética por um lado, e por outro acerca de certos mistérios cristãos. A quem aproveitará… olha, pelo menos em mim não foi desperdício.

Pérolas doces em bjocostras para ti :)


PS: Já comeste ostras?... Eu já, e digo-te que não percebo a gourmetice... Aconteceu-me o mesmo com o caviar... Devo mesmo ser um mísero plebeu, o que reitera a baixeza da minha linguagem :):)

6:51 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Podia adicionar o meu blog? http://shema.wordpress.com/

8:59 da tarde  
Blogger Goldmundo said...

ahahahahah :P

que episódio sublime.

1:05 da manhã  
Blogger Zé "Prisas" Amaral said...

Ler o sentido das palavras faz-me bem. Pena minha o pouco tempo da situação em que me encontro.

De qualquer forma, quando posso, assalto-lhe o blogue e me sento um bom bocado a decifrá-las.

Bom dia.

11:41 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Olá, Shema… Adonai Eloheinu… Adonai echad…

2:53 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Oi, maister… Ri-te, ri-te… ;)

2:53 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Zé "Prisas"

Ainda bem que lhe faz bem ;)

Um abraço

2:54 da tarde  
Blogger milene said...

uma fuga ao mal?

quanto à elevação na linguagem e à estética cristã - "a beleza salvará o mundo" mas será que a beleza tem de ser "impecável" como os quadros renascentistas? (de que não sou grande fã)

obrigada pelo texto e que a criança não adormeça...

9:34 da tarde  
Blogger sophiarui said...

vitor gostei muito do post e ainda mais do comentário ao anónimo (até me apeteceu "postá-lo" no meu blog - deixas?)

abracinho

12:24 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Obrigado também, Milene… E recordo-me… que o príncipe Míchkin, conversando com os seus convivas, após desembocar na tensão intuitiva da relação entre a beleza e a salvação, quebrou um belo vaso inadvertidamente ou nem tanto (visto que ao entrar na sala ou na casa, tivera a impressão estranha que o vaso se quebraria) e caiu num ataque de epilepsia… Um abraço

12:43 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Oh silente da arte em vida… estás à vontade ;) abração

12:44 da tarde  
Blogger sophiarui said...

às vezes quando "falas" apetece-me calar...

Obrigada vitor "mano" (gostei muito da expressão com a mc)

coloquei-te no meu silêncio possível... espero que gostes...

abracinho

2:59 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Beijinho, mana Sophia :)

11:57 da manhã  
Anonymous kirilov said...

adoro a linguagem
crua directa real, incluindo as incessantes virgulas que nos perdem na frase mas nao no sentido do discurso
sao espaços em expansao ao ritmo apressado do respirar nervoso
procura a lucidez

5:18 da tarde  
Anonymous kirilov said...

adoro a linguagem
crua directa real, incluindo as incessantes virgulas que nos perdem na frase mas nao no sentido do discurso
sao espaços em expansao ao ritmo apressado do respirar nervoso
procura a lucidez

5:20 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Olá, Kirilov… tentar olhar a confusa multiplicidade interior e exterior sem lhe fugir nem perder o quesito de sentido… e muita basófia minha, mas isso… :) Abraço

6:50 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

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2:03 da tarde  

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