segunda-feira, abril 16, 2007

Luterana

Por interpelação

de
Bernardo Motta


Caro Bernardo.

Não faço a mínima que “intelectuais” iluministas anda a ler ou a ouvir, mas de Kant a Ricoeur, a actividade de esclarecimento da razão a partir de si própria, distancia tanto a ética da moral como a física da engenharia. Há uma distinção estrutural, isso sim, em que a ética corresponde, grosso modo, aos axiomas formais, e a moral à regras de conduta atinentes a estes axiomas (exemplo usual: o axioma de toda a pessoa ser um fim em si mesma, implica na prática regras de não manipulação nem abuso do outro em proveito próprio).

O que o iluminismo lhe poderá advogar é uma interpelação à religiosidade que extravasa os “limites da razão”, na sua relação com as determinações éticas. Eu considero que o que funda e orienta o chamamento ético é da ordem do supra-racional, se quisermos, ou melhor dizendo, que extravasa as categorias humanas, pelo menos no limite em que não estão ainda transfiguradas em Deus. A razoabilidade ética no seu limite, é como alguém a cair no vazio, que tenta suster-se agarrando-se a si próprio, para usar uma imagem do amigo Kierkegaard.

Na axiologia ética moderna, há evidentemente, como em qualquer actividade intelectual e época, uma catrefa de sentidos e tendências. Mas de modo nenhum há uma tendência geral à relativização axiomática, ou pior ainda, à consentualidade quantitativa dos mesmo (nem o Popper reduz a verdade a tal). Os axiomas não vão a votos, mas a debate e crítica intelectual. Embora hajam analogias e contaminações sócio-culturais em todas as áreas da sociedade, convém não confundir o debate espectacular orientado pela audiometria, com a actividade filosófica moderna e contemporânea.

O que se passa, parece-me, e talvez tenha algo que ver com o que preocupa o Bernardo na sociedade ocidental contemporânea, é que certas forças governativas se desligam gradualmente da actividade intelectual, e se orientam cada vez mais pelo espectacular, permitindo mais do que em quase todos os outros momentos históricos e geográficos, a produção de ilusões e mentiras com que certo poder finge dar voz àqueles e àquilo que representa ou deveria representar. O público torna-se publicitário. Nesse sentido, o referendo ao aborto corresponde evidentemente a um jogo viciado em que o que se pretende está ofuscado por uma representação e discurso do seu contrário. Aqui, estou formalmente de acordo com o Bernardo. Não sei é se, perante tal situação, devo ou não ir a jogo (isto é, votar).

Bem, e quanto ao Rousseau, que eu nem aprecio grandemente, o seu discurso de modo nenhum tem que ver com o que faz dele o pensamento audiométrico contemporâneo, no seu recalcamento e repressão das forças vivas, e perversão de sentido típicas duma estratégia de manipulação que, em conivência com os seus métodos, representa-se combatendo aquilo que efectivamente está defendendo – neste caso, a ilusão ou mentira duma aferição histórica e filosófica e, o que é mais sério, de aferição real de si próprio. Na ordem filosófica, trata-se de não se deter projectado e alienado em representações desvitalizadas, que impedem o acesso e produção duma autêntica e vivida tomada de consciência de si. (Aqui ecoa algo de a-histórico, e que não se reduz às desvitalizações contemporâneas. Também no uso de representações religiosas pode haver uma inadequada subsumpção da vida. Pôr a carroça à frente dos bois, só serve para bloquear o andamento de ambos. Do ponto de vista cristão, caberia aqui e também, falar do acesso às espécies eucarísticas. Sabe, cristológica e vitalmente, nós somos todos doentes existenciais – isso é a realidade do pecado – e a Igreja é o lugar onde nos curamos, ou não é nada. Requer-se não uma saúde espiritual asseguradamente efectivada, mas a interiorização do factor contrário – isto é, o pecado – e o cuidado em julgar seja do que fôr, que decorre precisamente da tomada de consciência da doença existencial de base. No limite, não nos valemos de nós, mas de Deus.)

Mas voltemos ao menos sério, isto é, deixemos o religioso para depois. O “selvagem” de Rousseau é uma figura conceptual que se configura numa antropologia fundamental, e não nalguma etnografia ou etnologia. Corresponde ao pressuposto (e aqui é que o meu achaque e suspeita se levantam) dum conceito de hominização pré-contratual, isto é, formalmente anterior a uma sociabilidade organizada (formalmente, e não concreta nem dinamicamente, visto que na realidade, a hominização e a sociabilização são evidentemente simultâneas). E o que essa figura de pressuposição de sentido traz ao pensamento, é a liberdade como fundadora do humano. Não se trata de afirmar que a bondade primeira é reprimida e destruída pela sociabilização (embora naturalmente isso possa acontecer, e a tomada de consciência constitui também, como é evidente, uma chamada de alarme), mas da evidenciação de que a sociabilização deve tender a orientar-se para o desenvolvimento mútuo da liberdade (e aqui afloramos o aspecto ontológico ímplicito nos textos de Rousseau, e de que Rousseau raramente fala directamente). Ou, se preferirmos, de que a pessoa é anterior, formalmente, a qualquer organização colectiva que a partir dela se constitua. Um pouco como o outro, que dizia que o sábado era feito para o homem e não o contrário.

(Esta perversão de sentido do essencial dos textos de Rousseau, quase nada é, quando comparada com o que as forças da repressão e do recalcamento fizeram da obra e imagem do ilustre Niccolò Machiavelli. “Entre outras coisas que mostram o homem tal como ele é, não é negligenciável ver até onde podem ir, por um lado a sua credulidade, por outro a sua astúcia em forjar estórias com que quer persuadir outrém.”)

Acabo – et pour cause - com uma remissão religiosa. O pecado é algo de muito fundo. Não basta o tribunal da razão ética para lhe fazer o cerco. Muito pelo contrário, ele escapa-lhe por entre os dedos, tornando a própria razão pecadora, juíz que sufoca a vida em que o pecado se dá, sem libertar deste nem o detectar claramente.

Porque o pecado não é a quebra da lei ética – esta é um dos seus sintomas, digamos assim - mas o motivo e motor obscuros dessa quebra e fuga. E aqui fulgura a estonteante questão: quais são verdadeiramente as forças e obras de Satanás.

Um abraço.

Nota: Na releitura deste texto reparei numa coincidência do termo “espectáculo” com o blog do Bernardo. Que fique clara a equivocidade de contextos: a noção de “espectadores” que está em jogo no blog do Bernardo é a de observador da realidade através da análise e da reflexão. O que evidentemente, não tem nada que ver com a noção de “espectáculo audiométrico” que está em jogo neste texto, mas precisamente o seu contrário.

13 Comments:

Blogger Goldmundo said...

Regresso de férias e vejo que estás em plena forma, oh caríssimo...

(a ver se tenho tempo de pôr mais achas na fogueira, logo à noite...)

abraço

3:51 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Bom regresso, maister :)

7:00 da tarde  
Blogger sophiarui said...

oh mano!!he he he

só agora reparei que também tens fotografias!! são lindas!!

gostei particularmente da de dia 9 e a de dia 12!

abracinho!!

12:32 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

ah, estou a ver mana sophia… os pés no solo e o horizonte em Deus ;)

beijinho

ps: são telemóvelfotos, fácil e barato ;)

1:38 da tarde  
Blogger Alessandro Martini said...

Gostaria de comunica-los que devida a lentidão insuportável do blog.com o Apologeta esta agora em novo endereço.

http://apologeta.blogspot.com

Peço o favor de corrigir a indicação do mesmo em sua lista de links.

Obrigado

4:01 da manhã  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Carrega no «Individualism Über Alles» a azul, é um link. Lê. Depois compra a mais recente obra dos suecos góticos «Capitalismo Karaoke», Ed. Público.
Tens lá a resposta a tudo o que interpelas - é claro que o post não é de fácil entendimento, só executivos e empresários lêem os gajos neste país -, lerás uma das mais importantes obras de filosofia política social e económica contemporâneas, além de um grande manifesto cybergoth.

Em breve dedicarei post mais intelectualóide sobre a obra.

Abraço.

P. S. Como isto anda por aqui... :)
mas agora estou sem tempo.

5:17 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Cuidado com a velocidade, Alessandro... também as há insuportáveis ;)

5:54 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Ah sim, Klatuu, eu folheei-o quando ele esteve nas bancas dos quiosques... mas na altura não o comprei.

Lê-lo-ei pois.

Abraço

PS: Engraçado o que dizes acerca de executivos e empresários... Nos anos setenta um jornal qualquer francês fez um inquérito acerca dos leitores d' "A sociedade do espectáculo" do Debord, e a maioria eram precisamente... executivos e empresários ;)

6:00 da tarde  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Compra o book! :)

12:54 da manhã  
Anonymous Fada Oriana said...

Lindo, mais uma vez...vítor.
(Fada? À procura do meu fado...)

7:38 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Oh embuçado... comprar o book e lê-lo à luz das velas (não pagar aos ladrões da EDP ;) ou esperar pelo fim do mês?... :)

11:25 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Oh Oriana, o fado da fada fada-se para lá da tristeza e da melancolia... acolhendo estas no seu seio de asas e perlimplim ;)

11:28 da manhã  
Blogger freefun0616 said...

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2:03 da tarde  

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