segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Palavra da palavra 2

Trata-se duma história antiga, a de que as coisas se executam a si próprias, e que esse mostrar é o seu ser, a lendária identidade de cada coisa num universo com nome, inominável mas exigida unidade do todo que confere lugar a nós e a todo o resto.

O bem de cada coisa é a execução plena de si própria, na unidade do todo.

É no tempo em que não apenas falam os animais, mas as pedras e os sopros também, todas as coisas têm uma voz e procuram um nome. Pode-se ansear a ordem das coisas, um logos universal, pressuposto mesmo que inacessível na sua totalidade. A pegada do deus em tudo o que ocorre e por ele é criado. Há um grito de unicidade universal, e de si, no coração de todo o monoteísmo. Diria até um quesito, uma afirmação estonteada.

A virtude é pensada como a força e faculdade de execução de si. Uma coisa pode ser boa, ou desorientada de si. Fazer-se ou desfazer-se.

Passa-se nesta história que o humanauta produz um lapso na realidade, dividindo-se a si próprio entre o que se executa, e a representação dessa execução. Pequeno espelho de si e do mundo, sai daquilo a que chamará depois reflexivamente, a animalidade. (Não se trata aqui de saber como são os animais ou os vegetais ou o que fôr, posto que não fazemos a mínima do que é ser gato ou banana ou o que fôr, no sentido existencial.) A animalidade é algo que remete para a execução directa e bruta do vivido, do nosso vivido. O lugar brutal das sensações, emoções e pulsões, que ao contemplarmos nos confundem e interpelam. O lugar anterior à reflexão, o conteúdo da reflexão, e de que esta, para constituir-se – se separa.

O movimento da contemplação do que se passa, da vida auto-representando-se, traz consigo o aprisionamento da liberdade. Não as possibilidades alternativas, também o cão pode entrar na casa ou não entrar, atacar ou não atacar, mas antes a decisão perante a reflexão. A possibilidade de inquirir se a representação seguinte será entrar na casa ou ficar no jardim, quedar-se ou atacar – o que devo então fazer, é a questão. É algo de puramente formal. O animal torna-se interrogativo, e a cada momento tem decisões possíveis. (Sereis como deuses.) Passa a ter futuro, juízos e morte negra, ao contrário do animal que tem uma morte branca, clara e assumida no presente vivido.

Esta é a história dum animal que enlouquece, como toda a gente sabe, passa-se há muito tempo atrás no início, meio e fim de todo o estertor que clama o dizer, pois que é precisamente aí que isso mesmo é gerado e fundado, a primeira palavra que foi, é e será dita em qualquer dizer, a primeira imagem interrogante.

5 Comments:

Anonymous blues said...

"The rose is without why; it blooms because it blooms/it pays no attention to itself, asks not whether it is seen."
seen
seen
seen
ssssss

4:36 da tarde  
Blogger Goldmundo said...

Há coisas que se executam a si próprias, e são as coisas. Há coisas que executam o Ser, e são os símbolos.

Dito de outra forma.
Há coisas cujo gesto enuncia uma frase, e essa frase é uma questão. São coisas essas coisas, ou homens, ou animais.
Há coisas cuja imobilidade enuncia uma palavra, e essa palavra é uma resposta. Às vezes são pessoas também (Elias, Maria); às vezes são coisas, ou pelo menos tomam a forma delas (Cruz); às vezes são animais (a pomba que poisou na vara de José-o-justo). Respondem e não damos por ela, a menos que não sejamos mais que a pergunta inteira.

O terrível silêncio da pergunta inteira: incendium amoris.

Abraço, meu Profeta :)

7:55 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Blues, caríssima.
Mas a rosa que sou não sabe o seu bloom; porventura a milhas do silêncio de silesius quando uma decisão se põe, ou uma atitude perante determinado caso com que a vida me interpela; talvez no retorno, sim; quando florescer e fenecer não se oposerem mais, no coração de mim (continuando a sofrer pela gazela que o leão devora, pelo amigo que se magoou comigo para lá das minhas intenções conscientes…)

Não opor o meu não saber à acção que me faz florescer fenecendo, quiçá. Na acção, ou pelo menos na constância, ainda é longe para mim. Deve ser da mácula ;) Tanta projecção, recordações, imagens, ideias… chiu, pequeno cogumelo, chiu… anseios e revoltas… estórias, confusões… chiu, pequeno, chiu… tanto tonto ;)

Ir ao depois, para chegar ao antes, e colocar o agora.

Olhar, sim. Escutar. Desembaciar o espelho, mas não o quebrar. A decisão, o bem e o mal – mantém-se interrogantes na reflexão (mesmo olhando a gazela, apenas a gazela e o planeta inteiro gemendo…)

Beijossim ;)

12:22 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Claríssimo, Gold, obscuramente claríssimo ;)

Eu diria que a primeira palavra é um sim, ou se preferirmos, é o ser. Só depois são possíveis negações.

Claro, é amor: diz criando, diz e aparece a coisa, o que fôr. Penso que é por tal que seja o que fôr… nos interroga no amâgo da palavra criadora, que esquecemos e nos habita fundo. Por isso olhamos por vezes com olhos de terrror e beleza assustada (que não sabe donde vem nem como) para um pequeno vidro verde quebrado a refulgir na beira do passeio, o inalcançável deus gritando a sua ausência nele (em nós). Talvez aqui se esboce ou inicie a resposta.

Retirar de si as negações de si, é uma das tarefas cristãs. Na unicidade da pergunta inteira que somos. Mas isso é obra, convém não esquecer ;)

A primeira palavra é acto e silêncio, claro.

Abraço grande, maister :)

12:25 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

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2:01 da tarde  

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