segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Humanautas 2

As coisas não apenas doem, como a qualquer animal que se preze, mas pode ele gritar : O que é isto ?

E é aqui que pela primeira vez na terra, se clama pelo divino. Perante a mudez do mundo, a sua indiferença pelo sentido e resultado dos actos e factos, prosseguindo ininterruptamente por dentro e fora de desastres e lampejos de ordem, horrores e maravilhas, sem parar sucedendo-se e desaparecendo na escuridão voraz do tempo.

Quem é este que tal representa e contempla e vive, aquele que procura nomes no silêncio confuso do mundo, aquele que não se sabe e tropeça continuamente a decorrer sem parar, sem pausar ?

O desaparecimento de si que há dentro de cada coisa, é maior do que todas as coisas, nós próprios esvaídos e evanescentes. É inaguentável, produzem-se fixações, revelam-se constâncias mais ou menos seguras. Cria-se uma gramática, não basta balbuciar, o desejo de nomear é maior em nós, exigente.

O trágico é o primeiro despertar do animal que viu o seu rosto reflectido em si próprio. Acompanha-lo-á sempre, como o ar à respiração ou a tensão à vida. Esse grito primeiro do próprio acto de nomear, antes de seja o que fôr ser dito. Esse primeiro silêncio falável, o primeiro trauma, o primeiro esquecimento.

Aí ele nasceu, e é daí que cresce e decresce, que vive e morre, que desperta e fenece nos seus próprios limites.

Aí mesmo.

Tu e a tua sombra, e todos os rostos e ausências, e todo o resto do mistério, toda a vida possível ou real, impossível ou anseada, todo o tempo em todos os lugares e o nada também, tudo isto e tudo isso e nada de nada aí mesmo, apenas a palavra do nome na palma da boca, apenas.