segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Enquanto o sol desaparece por trás dos prédios

Há três dias que não comia. Fiquei a conhecer todos os bares da cidade. Nunca percebi uma palavra da língua que por lá se falava. Eles abriam a boca e emitiam sons secos e fechados. Eu sorria e bebia. E todos os dias acordava num sítio diferente, com língua diferente mas sempre seca e fechada e incompreensível. Era o tempo o mesmo, eu ficara no sono do mundo e pouco a pouco esquecia-me disso, de mim.

Eles faziam todos um som de granel do caneco, como uma festa gasta e tresloucada, os seios caídos e flácidos e rugosos duma mulher idosa num sonho erótico. Alguns falavam, os mais velhos, mas nada deviam dizer de interessante pois não tinham ar feliz ou revoltado e sereno.

Sentei-me e agarrei-me a uma garrafa que ali estava. Alguém dedilhava uma porcaria qualquer numa guitarra.

O chiar dos pneus no asfalto cortou a calma. Parou mesmo à minha frente. Ouvia-se o motor em funcionamento. Podia senti-lo como um animal respirando junto a mim. Abri os olhos. Era um oldsmobile antigo, cor-de-rosa, e eu pensei, Estou num filme azul e encarnado, é catita, e levantei-me. Um rock’ n’ roll pesado vinha lá de dentro e um gajo louro sorria ao volante. O sol esparramava-se pela rua como um estado de espírito.

Ele saiu do carro e sorria acenando com a cabeça para a árvore e o 2 cv espatifado. Dirigi-me ao carro dele e sentei-me. Tinha umas latas de cerveja que vinham mesmo a calhar. Ele sentou-se ao meu lado. O cabelo dele era mais louro que o sol.

- Chamo-me Nahabi, disse ele.

- Óptimo, ri eu, e eu sou o Senhor da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia.

Ele riu.

- Quase como eu, disse, e abriu uma lata de cerveja. Era um belo fim de tarde. A luz suavizava-se, difusa e amarela, como uma perca de agressividade. A festa acabara, sem dúvida. Entrava-se no tempo da ressaca, os corpos estendendo-se e acomodando-se aqui e ali, as conversas silenciando-se, a música.

- Estou num filme do Nicholas Ray, disse eu, e apetecia-me agora dormir, porra, há três noites que. Vamos embora, suspirei, pelo menos até à próxima cidade. Havia qualquer coisa que era pior que o enjôo. Ele arrancou, Sei exactamente o que sentes, porra, era mesmo uma merda de filme, o fim de uma tarde.

Lembro-me que alguém disse : Chateado pelos limites da inteligência, dediquei-me à parvoíce. Eu já saíra de certeza da festa. Doía-me a cabeça e não me apetecia pensar.

Sentado de espelho no solo e impaciência no olhar. Há tanto tempo. O gajo conduzia que nem um doido. Nas cidades existem muitos quartos que se expandem sob o olhar como parcelas do mesmo espaço. Uma fuga pelas ruas. Visões. Atirei a lata pela janela e encostei a cabeça para trás espezinhando o espelho. O gajo meteu a quarta e acelerou.

- Estava a ver que não vinhas, disse ele, e eu só me lembrava do carro, da curva, o som dos pneus chiando e a chapa batendo. A árvore. Há três dias que esperava. Combinações do acaso. O fim do verão.

O carro parou. Ficámos os dois a olhar para a casa em frente através do vidro embaciado e molhado pela chuva.

- É aqui, disse ele, e eu procurava os malditos cigarros no bolso encharcado da gabardine. Praguejei enquanto aceitava um cigarro do maço que ele me estendia e disse-lhe : És doido. Ele aquiesceu, e riu. Andas muito esquecido, disse. Talvez, disse eu. Aquilo não fazia sentido. Estava um frio do caneco e o cigarro estava todo molhado.

- Os gatos fodem em janeiro, disse ele. É um bom mês.

9 Comments:

Blogger Lord of Erewhon said...

Um filme de Nicholas Ray? Huummm... deves estar é na Rua das Tabernas do Hades! :)

Abraço.

1:47 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

We can't go home again ;)

1:10 da tarde  
Anonymous blues said...

bela, prosa, cidadão!

4:17 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Vela a rosa, o coração…

Beijo, blues.

11:10 da manhã  
Anonymous maralto said...

onde e que andaste?

3:53 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Por ainda além da Taprobana... ;)

4:24 da tarde  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Agora estou sem tempo, mas ocorreu-me... se não será o mesmo monte de merda que vem para aqui com os «posts gagos» do «CRUZ CRUZ CRUZ», etc...
Não me admiraria nada!

Abraço, Vitor.

1:49 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Bem, esse apresentava-se como um índio brasileiro chegado a Lisboa… a não ser que haja uma nova tese das migrações indo-europeias até ao Brasil (os pré-vickings ?:)… Ou então o Torquemada disfarçado de Montezuma… Enfim, é a blogosfera… Bom fim de semana, Klatuu

4:35 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店經紀,
酒店打工經紀,
制服酒店工作,
專業酒店經紀,
合法酒店經紀,
酒店暑假打工,
酒店寒假打工,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店工作,
酒店打工經紀,
制服酒店經紀,
專業酒店經紀,
合法酒店經紀,
酒店暑假打工,
酒店寒假打工,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店工作,
酒店打工經紀,
制服酒店經紀,
酒店經紀,

,酒店,

2:01 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home