segunda-feira, janeiro 15, 2007

Um pouco antes do sol desaparecer por trás dos prédios – em memória de Ayrton Senna

Não saberei precisar quanto tempo e distância caminhei, as estradas curvavam e estendiam-se enfiando-se na clara e branca neblina matinal onde boiavam pinheiros escuros e rochas e casas e nenhum ser humano nem animal, subi e desci ladeando e atravessando a serra, o sol subiu no horizonte e a neblina a pouco e pouco se dissipava como que rasgada pelos raios e a atmosfera se tornava amarela e viva e quente, carros passavam agora de vez em quando, era um som que se aproximava e afastava trovejando, eu não pedia boleia, era das últimas coisas que eu queria, sentar-me e rolar motorizado na companhia de alguém seja quem fosse, as minhas pernas atiravam-se à estrada como que por si próprias, pareciam-me imunes à vontade e que se decidisse parar nada aconteceria e seguiria aquele compasso rápido e de largas passadas com uma alegria e bem estar que me não eram próprios. Assim, sentia-me bem, a planície alargava-se após a serra, uma casa de madeira postava-se ao lado de um pequeno amontoado de árvores, naquela zona a neblina acumulara-se como que estagnada, dissolvendo-se no campo semeado, a terra castanha polvilhada de manchas amarelas, um casal arava a terra, o homem segurando a charrua atrás e a mulher guiando o boi à frente, pareciam lentos e serenos e era certamente um ritmo confiante e seguro, como as minhas passadas que prosseguiam no suor e no tremer do corpo com o cansaço e nervoso suponho, saudei-os erguendo o braço, ao que eles responderam executando o mesmo gesto ao longe e segui à medida que o asfalto aquecia e o número de carros aumentava.

Sem parar ia golando a garrafa que acabou por esvaziar-se e de que me desfiz ruidosamente na estrada espalhando cacos de vidro em toda a sua largura, um carro poderia furar os pneus, oxalá provocasse um acidente e até se ferissem ou morressem, talvez fosse o melhor que podia acontecer.

Entrei na vila pequena e ensolarada e devia ser hora de almoço, pois as tascas estavam cheias e tive de esperar um quente e largo e impaciente tempo até me sentar numa esplanada bebendo uma imperial fresca e dourada como o sol. O pessoal à minha volta bebia os destilados e os licores, dissolvendo o pesado almoço português do não-faz-nada-à-tarde e falavam uns com os outros em voz alta e sons de vidro e louça e portas batendo, perguntas fazendo-se ouvir por trás do falatório. Sentia-me mesmo bem, cada vez que fechava os olhos parecia-me ser uma mulher vestida de verde correndo numa extensa e invernosa praia ou então uma criança partindo pratos e copos e travessas, era mesmo porreiro, o sol declinava no horizonte e eu ia bebendo copo após copo amolecendo no calor que se esvaía, a esplanada foi-se esvaziando, os empregados encostavam-se ao balcão conversando e trazendo-me imperiais a um simples erguer de braço.

Era já madrugada e sonhaste que voavas por cima da cidade.

Foi quando me levantei que a coisa se abateu sobre mim, cinzenta como um corrimento infeccioso, a noite escura avançando no tamanho dos dias, a angústia pulsante e oblíqua dentro da alegria. Caí para a frente como se derrapasse, arrastando a mesa e algumas cadeiras, os copos partiram-se no solo e os olhos viraram-se todos para mim, é assim, todos caímos em queda livre, apenas que uns caem para dentro e outros para fora, os primeiros são mais espertos, apenas isso, defendem-se mais.

O que me parecia milhares de braços tocava-me e puxava-me, e as vozes, as frases, sarcasmo e reprovação, eu conhecia-os dentro e fora, eu, António Marques, sabia perfeitamente do que falavam e como e para quê, os vampiros que chupam a miséria dos outros para atenuar a própria, os carrascos da vida que não deixam a adolescência foder nem a infância brincar, merda, e sufocavam-me, ali todos à minha volta e por dentro como se me chacinassem, desatei aos urros e levantei-me ao ar com quanta força as minhas pernas permitiam, agitando-me como um possesso até saltar fora daquele nestum como uma rolha de champanhe e ficar encostado a um poste olhando a esplanada e as faces que me fitavam. Se tivesse uma pistola tê-los-ia morto ali mesmo como se desse um tiro em mim mesmo, estava a rebentar de raiva e ódio e sentia-me perdido e abandonado e sem faróis para guiar-me, foi mesmo assim de repente ou consequente, puta de zona densa e pesada que vive da luz e nos devora e confunde, desatei a vomitar como se o mundo se abatesse sobre mim e desandei, ninguém me disse ou impediu algo, devia estar fixe, a aguardente e a cerveja ajudavam também.

Não há muito a fazer nestes estados senão deixar-se ir numa espécie de espera caminhante, para o fundo como se de cima se tratasse, aliás estava mesmo a precisar duma garrafa de vinho, ou qualquer coisa mais forte, whisky ou gin ou melhor ainda tequilla, entrei num supermercado e aviei-me, porra, era a única coisa que me apetecia, tinha de viver, tinha de morrer, não era mesmo nada porreiro, era uma confusão do caralho.

Se andasse, as pessoas, sentado, portas, janelas, sacos de compras e cigarros acesos, esquecia-me que éramos todos feitos do mesmo, a mesma pasta de merda e maravilha, não era eu, as faces não me reflectiam nas ruas em expressões e gestos, não era eu, só ódio, só raiva, um corpo estranho, abri a garrafa e golei-a a fundo, eram três, tequilla sierra, mesmo á maneira.

Eu próprio era o esquecimento, não sei mesmo o que se estava a passar, como uma pedra que caísse no fundo de um poço e os sapos olhando, o carro ali estava, esta ferida que sangra para dentro, a noite escura, a rua estreita e vazia, a zona obscura, eu sabia, era só ligar o fio encarnado ao preto, alguém gritou duma janela, arranquei embatendo nas paredes e abatendo caixotes do lixo, a estrada abriu-se, era toda minha.

As garrafas estavam no banco ao meu lado, a vila ficava para trás, pronto, aquilo já era qualquer coisa. Não guiava muito confiante, não, parecia-me que a estrada afunilava e que eu não guiava mas estava a ser sugado incontrolavelmente, as luzes passavam à minha volta como se rodopiassem e me envolvessem, golava a garrafa e deixava-me ir com o acelerador a fundo. A estrada era toda minha.

3 Comments:

Blogger Klatuu o embuçado said...

Lacrimosa, «Hohelied Der Liebe»

Download aqui: http://s4.quicksharing.com/v/4389668/08_Hohelied_Der_Liebe.mp3.html


P. S. Abraço, Vitor.

5:26 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Holderlin (talvez por causa do alemão ;) :

« O homem é um deus quando sonha, e um mendigo quando reflecte. »

Note-se que ser mendigo não é mau, quero dizer que não está dito que não se deve reflectir, mas sim que a reflexão requer conteúdos que ela própria não pode produzir (e que pode pedi-los ao sonho e à poesia, fur exemplo, ou simplesmente à vida dada).

Abraço, embuçado.

1:23 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

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2:00 da tarde  

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